VOLTAR

Rússia aprova adesão ao Protocolo de Kyoto

OESP, Geral, p. A16
01 de Out de 2004

Rússia aprova adesão ao Protocolo de Kyoto
Decisão depende do parlamento, onde há fortes resistências; debate deve ocorrer em 2005

MOSCOU - O governo russo aprovou ontem a adesão do país ao Protocolo de Kyoto, dando o primeiro passo concreto para fazer vigorar o tratado internacional pela redução de gases poluentes causadores do aquecimento global. A decisão, entretanto, ainda tem de ser aprovada pelo parlamento russo, onde deve encontrar grande resistência.
A discussão pelos parlamentares está prevista para o início de 2005. Se a adesão efetiva for aprovada também no parlamento russo, o Protocolo de Kyoto entrará em vigor 90 dias depois. Mas o primeiro-ministro Mikhail Fradkov, em viagem à Holanda, comentou que haverá um "debate difícil" quando o tema chegar ali.
Mesmo entre os membros do governo houve vozes discordantes. Andrei Illarionov, um influente assessor econômico do presidente Vladimir Putin, disse ao fim da reunião do gabinete que a decisão foi "forçada". Illarionov é um maiores críticos do Protocolo de Kyoto. "Não é uma decisão que estejamos tomando com prazer."
Indústria - A resistência vem principalmente do setor industrial e petrolífero da Rússia. O primeiro porque teria de regular e reduzir as emissões de gases poluentes, o que significa muitas vezes reduzir a atividade industrial. Para não ter de diminuir a produção, a alternativa seria financiar projetos de reflorestamento e geração de energia não poluente, no chamado mercado de créditos de carbono.
Já o setor petrolífero teria algum impacto na produção e poderia ser afetado pela redução de consumo de combustíveis, um dos principais fatores de emissão de gases causadores do efeito estufa.
A Rússia é responsável por cerca de 17,4% das emissões no mundo. Desde 1990, houve uma redução de 32% no volume de gases lançados na atmosfera, em parte por causa do colapso da economia logo após a queda do regime soviético. Mas nos últimos anos houve uma retomada da produção industrial e, conseqüentemente, as emissões começaram a crescer.
Voto decisivo - A decisão da Rússia será fundamental para que o Protocolo de Kyoto entre em vigor e, por isso, o desfecho no parlamento pode ser considerado o voto decisivo pela adoção - ou não - de regras internacionais para conter o aquecimento global. Aprovado em 1997, o tratado estabelece que os países signatários são responsáveis por reduzir o volume de emissões de gases até atingir 5,2% abaixo dos níveis que eram registrados em 1990. O prazo para atingir esta meta é o ano de 2012.
Mas o protocolo só entra em vigor se for ratificado por países responsáveis, juntos, por pelo menos 55% das emissões registradas em 1990. Como os Estados Unidos, na administração George W. Bush, optaram pela não-ratificação, o índice de 55% não foi alcançado. Os EUA são os maiores emissores de gases, respondendo por 36,1% do total mundial, à frente da China.
A Rússia, o segundo maior emissor, seria o único país capaz de se juntar aos 125 países que já ratificaram o protocolo fazendo atingir o índice mínimo.
Por esta razão, aliás, o governo russo vinha há anos acenando com posições contraditórias, para obter vantagens políticas e econômicas dos EUA - que boicotam o tratado - e da União Européia - que quer implementá-lo o quanto antes.
EUA - Os Estados Unidos reiteraram ontem que não têm a intenção de revisar sua decisão de rechaçar o Protocolo de Kyoto, depois que a Rússia deu luz verde para sua ratificação.
"A posição dos Estados Unidos não mudou", declarou o porta-voz do departamento de Estado Richard Boucher, em alusão à decisão de 2001 do presidente George W. Bush de não ratificar o acordo, julgando-o contrário aos interesses da economia americana.
Elogios - A decisão russa foi elogiada pela comunidade internacional. Para o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, "a entrada em vigor do protocolo é essencial para abordar o desafio que a mudança climática representa para o planeta". "Quanto mais países aderirem, mais influência o protocolo terá. Esperamos que os EUA reconsiderem sua posição", disse Reijo Kemppinen, porta-voz da União Européia.
O diretor-executivo da ONU para o Meio Ambiente, Klaus Toepfer, considerou a decisão uma notícia a ser celebrada (AP, AFP e The Washington Post)

OESP, 01/10/2004, Geral, p. A16

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.