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A rota dos transgênicos

Veja, Economia e Negócios, p. 110-113
03 de Dez de 2003

A rota dos transgênicos
Como chegaram ao Brasil as primeiras sementes de soja geneticamente modificadas

Malu Gaspar, de Cruz Alta (RS)

O fazendeiro Beno Arns, de 70 anos, adora novidades agrícolas. Em sua propriedade de 1.100 hectares, em Cruz Alta, no interior do Rio Grande do Sul, ele está sempre envolvido com alguma experiência - um novo tipo de adubo, uma nova técnica de plantio. Arns, olhos azuis e rosto avermelhado pelo sol, está entre os primeiríssimos agricultores gaúchos que conheceram o que parecia promessa de alquimista: a soja transgênica. Em 1993, ele viajou para os Estados Unidos e ouviu falar da semente que, geneticamente alterada, resistia a fungos. No ano seguinte, em visita à fazenda de seu irmão na Argentina, voltou a ouvir falar da tal soja, numa versão que resistia aos agrotóxicos. Curioso incorrigível, pediu que lhe mandassem uma amostra. Corriam os primeiros meses de 1995 quando recebeu três sacos com sementes da Argentina. Plantou tudo, para testar. Na safra, colheu 64 sacos de soja, sem precisar recorrer a defensivos agrícolas, o que reduziu o custo. Um resultado animador. Distribuiu as sementes a agricultores amigos - e assim, movido pelo ímpeto de desbravar e conhecer, Beno Arns nem supunha que estava semeando uma polêmica nacional.

Já está funcionando em Brasília uma comissão parlamentar de inquérito aberta no Congresso para apurar como a soja transgênica chegou aos campos brasileiros. O plantio de soja modificada no Brasil só foi legalizado neste ano por medida provisória. Na época em que o agricultor Beno Arns fazia suas experiências, o cultivo ainda não era permitido e a entrada das sementes no país, fruto de contrabando. O presidente da comissão, senador João Capiberibe, do PSB do Amapá, tem uma tese sobre como os transgênicos tomaram conta do Rio Grande do Sul. "Eu acho que alguém incentivou e patrocinou a entrada dessas sementes no Brasil. Se essas sementes entraram clandestinamente no país, a Monsanto tem responsabilidade", afirma o senador. A Monsanto é a empresa americana que desenvolveu e patenteou as sementes transgênicas - e agora quer receber royalties pelos resultados das safras colhidas a partir do uso de sua tecnologia. A companhia refuta as acusações do senador. Diz que chegou a advertir as autoridades brasileiras do uso ilegal de suas sementes. Sobre os royalties, ela não sabe ainda como vai cobrar, mas quer receber. Um levantamento preliminar do Ministério da Agricultura mostra que as áreas cultivadas com soja geneticamente modificada são maiores do que se imaginava. Onze mil agricultores declararam usar as sementes transgênicas em suas lavouras. O cadastramento, que está sendo feito há apenas um mês, revela ainda que, apesar de a grande concentração de plantadores de transgênicos estar localizada mesmo no Rio Grande do Sul, já existem produtores também no Paraná, na Bahia e até no Piauí. Os dados vão servir para que o governo tenha uma radiografia completa do problema e estabeleça uma política para tirar da clandestinidade agricultores como o pioneiro Beno Arns.

"Eu trouxe aquela soja da Argentina da mesma maneira que a gente trazia trigo do Uruguai antigamente", diz Arns, com um sotaque que logo denuncia sua origem alemã, à semelhança de seu primo famoso, dom Paulo Evaristo Arns, ex-arcebispo de São Paulo. "Os agricultores trocam sementes. É cultural. Ninguém falava em transgênico naquele tempo, não havia essa polêmica toda. Não era ilegal nem nada." A notícia de uma semente que resistia aos agrotóxicos, tinha alta produtividade e podia gerar belos lucros se espalhou na vizinhança. Em 1996, quando Beno Arns colheu os primeiros 64 sacos de soja, o uruguaio Sérgio Matturo, sujeito bonachão, contador de casos e versado em uísque, desembarcou em Júlio de Castilhos, a 100 quilômetros de Cruz Alta, e abordou um de seus fregueses. "Tu queres ganhar dinheiro?", indagou, cavalgando seu portunhol. "Tenho um tipo de soja que é a soja do futuro." Sérgio Matturo é chibeiro - ou contrabandista, no dialeto gaúcho da fronteira. Quando um chibeiro começa a vender determinado produto, não há porteira que detenha sua disseminação pelo interior do Estado - e vários chibeiros perceberam o potencial comercial da soja transgênica.

Hoje, calcula-se que 90% da soja gaúcha seja transgênica. Entre seus agricultores, não existe polêmica, dúvida ou receio - eles são todos inteira e militantemente favoráveis à transgenia, como propagandeiam os adesivos que levam nos vidros dos carros. "100% transgênico", diz um deles, com desenho de vagens de soja. "Fome Zero só com 100% transgênico", avisa outro. Eles plantam sementes transgênicas, consomem alimentos transgênicos, compram, vendem e, sempre que necessário, contrabandeiam essas novidades no mercado. Nos campos gaúchos, há cerca de trinta variedades de soja transgênica, todas resistentes ao agrotóxico à base de glifosato. É uma vantagem notável. O glifosato é um potente herbicida sistêmico - sistêmico porque penetra em todas as células da planta, tomando-a por inteiro, ao contrário do herbicida de contato, que age apenas na superfície da planta que recebeu a aplicação. Por ser sistêmico, o glifosato é mais eficaz. Mas, por ser tão potente, é capaz de matar, além das ervas daninhas, a própria soja. A transgenia, porém, salva a lavoura ao dar à soja a capacidade de sair incólume desse banho químico.

O freguês do chibeiro Sérgio Matturo conversou com fazendeiros amigos, e todos juntos resolveram experimentar a tal "soja do futuro", com uma condição: só pagariam pela carga depois de sessenta dias, quando já tivessem comprovado a resistência da soja ao glifosato. O caminhão de Matturo, vindo da cidade uruguaia de Mercedes, descarregou então 120 sacos de soja transgênica na cidade - ao preço de 200 dólares cada um, contra 25 dólares do saco de soja convencional, na época. O material, em plena luz do dia, foi acomodado num armazém, mas os fazendeiros, com receio de ser flagrados com um produto contrabandeado, retiraram a mercadoria à noite, às escondidas. O risco e o investimento valeram a pena. Os 120 sacos de 1996 transformaram-se em 5.000 sacos de sementes na safra seguinte. E, na outra safra, os sacos de soja transgênica produzidos na região já chegavam à casa dos 200.000. A semente ganhou um apelido: "maradona", porque era pequena, produtiva e argentina, como o craque do futebol. Enquanto maradona se espalhava pelos campos gaúchos, a Polícia Federal corria atrás dos plantadores e de suas sementes. Mas levava uma tremenda desvantagem. Em outubro de 1998, quando os policiais fizeram a primeira apreensão de soja transgênica no Rio Grande do Sul, estima-se que passasse de 30% o total da área irregularmente cultivada em todo o Estado. Já era uma febre entre os agricultores.

VEJA percorreu 1 500 quilômetros no interior do Rio Grande do Sul, visitou cinco cidades e conversou com vinte produtores rurais no coração da transgenia brasileira. Os gaúchos estão em terceiro lugar na produção nacional de soja, atrás apenas de Mato Grosso e do Paraná, mas são de longe os campeões do tipo geneticamente modificado. A lei que regularizou o plantio é apenas uma formalidade nos pampas. Os benefícios das sementes modificadas são quase uma unanimidade entre os produtores. Ainda se encontram, é verdade, lavouras de soja convencional, mas são proprietários que apostam num nicho específico de mercado. Algo como quem oferece verduras sem agrotóxico. A sedução pelos lucros dos transgênicos atraiu até agricultores de setores de onde menos se esperava - gente ligada ao MST, que, em 2001, chegou a destruir plantações em protesto contra o cultivo de soja geneticamente modificada. Hildo Lorenzetti, um pequeno agricultor de 44 anos, não se arrepende da opção. Membro do MST, em 1994 ele recebeu um lote de 25 hectares no assentamento de Nova Ramada, noroeste do Estado. Três anos depois, ele e um colega souberam da novidade que corria à boca pequena entre os produtores, mas também conheciam a posição do MST sobre o assunto. Ainda assim resolveram arriscar. Lorenzetti conseguiu um saco de semente transgênica, que escondeu no mato. "Havia muita pressão psicológica contra a soja transgênica, falavam que a gente ia perder a terra, que não podia plantar", lembra. Seu companheiro, menos cuidadoso, foi descoberto e obrigado pela direção do MST a jogar fora toda a soja que já estava plantada. "Ele foi obrigado a roçar toda a plantação e perdeu tudo. Tu já imaginou o que é isso?", relembra.
De 1999 em diante, com a disseminação da soja transgênica no Sul, a entrada das sementes nos assentamentos se tornou inevitável. Desde então, Hildo Lorenzetti, como a maioria dos agricultores gaúchos, foi seduzido pela perspectiva de lucros maiores - e prosperou. Sessenta por cento de sua lavoura hoje é transgênica. Na ponta do lápis, ele explica que, com a redução dos custos e o conseqüente aumento dos lucros, conseguiu comprar cinco máquinas novas em sociedade com um primo. Além disso, dobrou o tamanho de sua plantação e o de sua propriedade. Mudou-se do lote de 25 hectares para um de 50, na mesma área do assentamento. Lorenzetti é eleitor do PT e continua fiel às causas do MST. "Nunca vou esquecer minhas origens. Devo tudo o que tenho ao movimento", afirma. Embora seja crime, o contrabando de semente na região é narrado com naturalidade. O vereador petista Selmiro Weiner, da cidade de Três de Maio, por exemplo, conta que aderiu aos transgênicos em 1997, quando seu filho foi ao Paraguai e trouxe na bagagem um saco de sementes. Recentemente, na tribuna da Câmara Municipal, ele chegou a incitar os produtores a desrespeitar a lei. "Eu me exaltei um pouco", reconhece ele, arrependido, embora ainda continue plantando soja modificada em sua fazenda de 380 hectares. A medida provisória do governo serviu para legalizar o que era feito às escondidas, mas não resolveu o problema do contrabando. A última novidade entre os agricultores gaúchos é o boato sobre a existência de uma supersemente. Trazida da Argentina, ela produziria oito grãos por vagem, quatro ou cinco a mais do que a soja normal. É a coqueluche do momento entre os chibeiros da região.

Veja, 03/12/2003, Economia e Negócios, p. 110-113

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