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Roraima adota tecnologia nordestina para crescer

GM, Rede Gazeta do Brasil, p.B13
14 de abr de 2005

Roraima adota tecnologia nordestina para crescer
Fazenda experimental colhe frutas com alta qualidade de exportação sob coordenação de técnicos pernambucanos. O modelo de fruticultura irrigada praticado com êxito no vale do rio São Francisco, no sertão dos estados de Pernambuco e da Bahia, está sendo adotado pelo estado de Roraima, no extremo Norte do País. Lá há uma fazenda onde os produtores colhem melão em espaldeiras pelo método convencional, goiaba, graviola, ata, figo, citros, maracujá, uvas e manga de alta qualidade para exportação, sob a coordenação de técnicos contratados inclusive em Pernambuco.
A área pioneiramente cultivada está a 15 km da capital do estado, Boa Vista, mede 150 hectares e pertence ao Grupo Cascavel do empresário e deputado estadual Airton Cascavel.
Nos últimos cinco anos o projeto recebeu cerca de R$ 1 milhão em investimentos. Convencida de que a alternativa representa uma saída macroeconômica em favor da região para a geração de oportunidades de emprego e grandes aportes de recursos, a prefeitura de Boa Vista, capital que abriga 66,2% da população de Roraima, equivalente e 230 mil pessoas, apresentou ao Ministério da Agricultura um plano de desenvolvimento para o Vale do Rio Branco que absorve investimentos iniciais de R$ 3,5 milhões. A meta é repetir as conquistas obtidas no Nordeste preparando o ambiente físico ao longo das margens do Rio Branco com implementação da rede de energia elétrica, poços artesianos, estrutura hidráulica de irrigação suplementar, construção da estrutura para suporte de máquinas e administração local, além de aquisição de uma estação meteorológica automatizada.
O objetivo do Projeto Vale do Rio Branco é implantar inicialmente 40 hectares de fruticultura irrigada com variedades nobres de uvas com e sem semente, mangas, citrus, goiaba, banana, graviola, mamão, dendê e adotar técnica de gotejamento para melão, melancia, cebola e maracujá.
Segundo Ivan Luís de Oliveira Silva, membro da Secretaria de Desenvolvimento Agrícola de Boa Vista, as espécies selecionadas para a área oferecem um expressivo valor agregado tanto para o mercado interno quanto para as exportações. "A similaridade do clima de Petrolina, no sertão pernambucano, com o de Boa Vista, a localização geográfica do estado de Roraima, considerando as proximidades dos portos e aeroportos no estado do Amazonas, dos países Venezuela e Republica Cooperativista da Guiana, bem como a proximidade dos consumidores residentes nos países caribenhos, são fatores que potencializam a implantação de projetos dessa natureza", aposta.
O projeto do Vale do Rio Branco tem como meta principal utilizar uma área que sirva de modelo e que, ao mesmo tempo, possa atrair e prestar assistência tecnológica a investimentos privados com interesses em produzir e exportar frutas nobre para o Caribe, Estados Unidos, Europa e América do Sul.
Empregos
A equipe dedicada ao projeto que está sendo conduzido pela prefeita de Boa Vista, Teresa Jucá (PMDB), é composta por Antonio Carlos Belline Leite, especialista em zootecnia, Fábio Luiz Cavalcante, que é acadêmico de agronegócio, Fraga Lima de Carvalho Lima que faz a manutenção de máquinas, Kassandra Brito de Carvalho especialista em tecnologia, os engenheiros agrônomos Francisco Wolney Costa da Silva, Ivan Luis de Oliveira Silva e Mário Augusto Vieira Moura, e os técnicos em agropecuária Laércio Ferreira de Oliveira e Mário Augusto Vieira Moura e ainda , Marcus Alexandre Nakagima Melo, mestre em engenharia de irrigação, Manoel Eliseu Alves, especialista em nutrição de plantas, engenheiro agrônomo e consultor na área de fruticultura irrigada.
Os técnicos empenhados no projeto ressaltam que uma vantagens é a possibilidade de queimar etapas tecnológicas, na medida em que transfere as experiências com as espécies já aprovadas no Vale do São Francisco e garantir uma produtividade otimizada.
O pólo produtor das frutíferas contemplará, na 1ª etapa, 85 agricultores cadastrados que ganharão quatro hectares, para culturas de manga, limão e uva. A fruticultura irrigada é vista como uma solução de curto prazo - resultados a partir de seis anos - capaz de atender a uma parte da demanda por empregos que se torna cada vez mais acirrada em Roraima e, sobretudo na capital, em Boa Vista, com quase 60% da população do estado.
A agricultura irrigada oferece, em média, três empregos por hectare. Entre 1980 e 1991 a população de Roraima aumentou 174,8% por conta da busca pelo ouro.
O garimpo foi proibido no estado há 10 anos, mas deixou seqüelas sociais graves. Segundo dados do IBGE, trata-se do estado brasileiro que hoje recebe migrantes, oriundos da própria Amazônia.
Migração e conservação
Em contraste com o ritmo de ocupação humana, também é o estado brasileiro com maior percentual de área protegida por unidades de demarcação para conservação. Cerca de 50% do território é formado por terras indígenas, florestas, parques nacionais e estações ecológicas, quadro que evidencia desafios ao equilíbrio entre meio ambiente e desenvolvimento sócio-econômico.
As questões políticas, decorrentes dos conflitos com as etnias indígenas, situam-se num plano de interrogações. As restrições impostas pelos nativos favorecem, em tese, ONGs internacionais cujas equipes teriam mais acesso às áreas demarcadas do que o próprio governo brasileiro. A observação é, no entanto, corriqueira e repetida em qualquer ambiente popular ou político que se visite no estado de Roraima.
Experiência no São Francisco
A experiência de culturas irrigadas no Vale do São Francisco começou em meados dos anos 70 e 80, quando foram implantados seis projetos com incentivo do Governo Federal. Três décadas depois a região é considerada um "eldorado agroindustrial" em pleno semi-árido nordestino. Ganhou o título de "Califórnia Brasileira", numa alusão ao estado norte-americano onde floresceu o agronegócio, apesar do clima desértico. O faturamento anual no vale sanfranciscano está na casa de US$ 500 milhões, o volume colhido por safra chega a 1,5 milhão de toneladas e as exportações somaram 180 mil toneladas em 2004. O cultivo irrigado se estende por 120 mil hectares, com predomínio da fruticultura, hortaliças (principalmente cebola e tomate), coco e cana-de-açúcar. O plantio de frutas gera cerca de 240 mil empregos diretos e 960 mil indiretos.
O Vale também ostenta os títulos de maior centro produtor de uvas finas do País e maior exportador de uvas, respondendo por mais de 96% das exportações brasileiras do produto no ano passado. É única região do mundo que produz duas safras e meia de uva por ano. Representa também 60% das remessas de manga do Brasil para o mercado externo. Ao todo, as exportações de frutas chegaram a US$ 120 milhões em 2004, sendo US$ 116 milhões apenas de uva e manga. Não bastasse isso, o passou a contar recentemente com mais um trunfo, ao entrar para o seleto clube das regiões produtoras de vinhos finos, tornando-se um lucrativo pólo vitivinícola em fase acelerada de internacionalização.
Investimentos em tecnologia para a agricultura provocaram uma transformação radical na região do São Francisco, antes de lavoura e pecuária de subsistência.
kicker: Projeto recebeu R$ 1 milhão em investimentos privados
kicker2: Pólo produtor contemplará, na 1ª etapa, 85 agricultores do estado

GM, 14/04/2005, p. B13

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