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Rodoanel, uma via indispensável

OESP, Espaço Aberto, p. A2
Autor: NOGUEIRA NETO, Paulo
27 de Dez de 2005

Rodoanel, uma via indispensável

Paulo Nogueira-Neto

Com o passar do tempo, mudaram as perspectivas ambientalistas mais amplas. Nos anos 30 e 40, o que mais importava era a criação de parques nacionais. Já nos anos 50 e 60, os controles da poluição atmosférica e hídrica passaram também a ser uma das preocupações dominantes. Nos anos 80, outra ordem de preocupação se tornou objeto de maior atenção: saber até que ponto a economia e suas necessidades poderiam interferir, de modo positivo ou negativo, na solução de problemas, também importantes, de proteção ambiental, visando a obter uma melhor qualidade de vida no planeta.

Para tratar dessa imensa interface economia-meio ambiente, procurando encontrar sinergias e desfazer atritos, para não dizer conflitos, a Assembléia-Geral da ONU instituiu a Comissão Brundtland, chefiada pela então primeira-ministra da Noruega Gro Brundtland. Fui um dos escolhidos para membro da comissão, representando a América Latina, juntamente com a ambientalista colombiana Margarita de Botero. Era uma comissão com 23 membros, que dispunha de recursos financeiros que lhe permitiam ter consultores técnicos do mais alto nível e realizou audiências públicas em diferentes grupos de países, em quase todos os continentes. Isso nos permitiu conhecer as mais diversas realidades. Uma das reuniões foi realizada em São Paulo, na Cetesb, com o apoio do governo Montoro. Houve também uma visita a Cubatão e outra à Usina Ester, em Cosmópolis, para ver um reflorestamento com árvores nativas. Fomos ainda a Manaus, onde visitamos a Estação Ecológica de Anavilhanas.

Desde o início dos trabalhos, um problema que nos chamou muito a atenção, por suas conseqüências dramáticas, inclusive éticas, foi o rápido aumento demográfico no planeta. Nos anos 80 esse aumento anual era algo superior a 2%, o que significaria dobrar a população da terra em 36 anos. O desafio que a comissão tinha pela frente era realmente urgente e assustador. Precisávamos buscar uma fórmula de consenso para enfrentar esse problema gravíssimo, em torno do qual havia grandes divergências e incompreensões. Tive até o dissabor de ser chamado de "imperialista" ao fazer uma palestra de alerta, no Quênia, sobre a gravidade da questão.

Nossos consultores técnicos nos chamaram a atenção para o fato de que as "explosões demográficas" ocorrem onde a população está em situação de miséria. Imediatamente começamos a procurar a resposta para duas perguntas cruciais e interligadas. Seria economicamente viável erradicar a miséria? Como fazer para tornar possível essa erradicação?

Maurice Strong, meu colega na comissão, acionou um departamento da ONU. Obtivemos a resposta de que, se os países, no seu conjunto, gastarem cerca de US$ 250 bilhões por ano para erradicar a miséria, isso seria possível num prazo razoável, talvez uns 15 ou 20 anos. Na ocasião, os gastos com a guerra fria, inclusive na produção de armamentos caríssimos, eram da ordem de US$ 1 trilhão/ano. Hoje esses gastos seriam de cerca de US$ 600 bilhões/ano. Portanto, dinheiro disponível havia e há no mundo. O que falta é vontade política dos países mais ricos, que seriam os principais financiadores.

Mas restava, ainda, responder à questão das medidas necessárias para cumprir o imperativo ético e ambiental de erradicar a miséria. Alguém da comissão levantou a idéia de que só um tipo de desenvolvimento sustentado (depois chamado de sustentável), não predatório, poderia ser amplamente aceito. Depois ficou acertado, na definição do que seria o desenvolvimento sustentável, que este não deveria prejudicar a geração atual nem as futuras. A definição de desenvolvimento sustentável ficou bastante ampla, para poder ser aplicada a muitas situações diferentes.

A esta altura, o leitor estará perguntando o que isto tem que ver com o Rodoanel. Esta é uma grande iniciativa rodoviária, muito necessária para que se possa escoar bem a produção do próprio Estado e também de Estados vizinhos, rumo à exportação pelo Porto de Santos. Além disso, desafogará parcialmente o pesado tráfego de caminhões e carros das Marginais do Tietê e do Pinheiros, da Avenida dos Bandeirantes e outras vias paulistanas. Deverá facilitar, como via expressa, o tráfego cada vez mais pesado na periferia da capital paulista e nos municípios vizinhos. Evitará imensos congestionamentos e assim aliviará a poluição do ar. Se essa via expressa não for construída agora, sem demora, estaremos impondo às gerações futuras a tarefa da sua construção, que então seria caríssima e dificílima. Seria um ato de egoísmo e falta de visão deixar de construí-la agora. Não prosseguir na construção do Rodoanel seria dar o famoso tiro no pé, desrespeitando o princípio do desenvolvimento sustentado, necessário à qualidade de vida das gerações futuras e da atual.

É claro, porém, que essa construção requer cuidados especiais, principalmente sob o aspecto ambiental e de segurança. Seria uma boa ocasião de estabelecer áreas verdes públicas ao longo do trajeto, preservando florestas ainda existentes.

A primeira área a ser transformada em parque seria a mata da Gleba Tiso, salva até agora, em grande parte, pela persistência da professora Silvana Santos e já objeto de atenção favorável do governo Alckmin, do secretário Goldemberg, da CDHU e das quatro prefeituras locais. O projeto do Rodoanel, a meu ver, deve engajar toda a população, para que possa ser realizado da melhor maneira possível. Técnicos competentes fizeram um bom projeto, mas sempre há cuidados especiais a tomar ou aperfeiçoar. Para isso existem as audiências públicas, que merecem nosso respeito, pela colaboração que podem dar e, aliás, já deram ao discutir sugestões.

Quanto aos índios guaranis, suas aldeias mais próximas do ramo sul estão a quilômetros de distância. Mas talvez lhes possa interessar, segundo penso, ter um posto para venda de mudas de plantas nativas e de artesanato indígena junto à rodovia, se isso for tecnicamente possível, ao lado de um posto de combustível e de um restaurante como os que existem em muitas de nossas principais estradas.

OESP, 27/12/2005, Espaço Aberto, p. A2

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