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Rodízio de água era 1ª opção da Sabesp; plano foi entregue em janeiro

OESP, Metrópole, p. A20
07 de ago de 2014

Rodízio de água era 1ª opção da Sabesp; plano foi entregue em janeiro

'Estado' teve acesso com exclusividade ao plano de contingência, em que a companhia afirma que o manancial já sofria com a seca em 2013 e conclui que racionamento deveria ser planejado

Fabio Leite

SÃO PAULO - Recomendado pelo Ministério Público Federal (MPF) e descartado pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB), o rodízio de água na região da Grande São Paulo abastecida pelo Sistema Cantareira era o primeiro plano elaborado por técnicos da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) para enfrentar a crise hídrica do maior manancial paulista. O plano foi formalmente entregue em janeiro ao Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo (DAEE), um dos gestores do sistema.
O Estado teve acesso ao plano de contingência, chamado "Rodízio do Sistema Cantareira 2014", coordenado pelo superintendente de Produção de Água da Sabesp, Marco Antônio Barros. No documento, a companhia afirma que os reservatórios já sofriam com a seca em 2013, diz que "todas as estratégias" foram adotadas para "evitar" cortes no abastecimento e "constrangimento à população", mas conclui que "o rodízio deve ser planejado em face da situação crítica de armazenamento nos mananciais".
Em janeiro, a Sabesp afirmava que o Sistema Guarapiranga também estava "no seu limite de captação", que "uma ampliação do avanço do Sistema Alto Tietê sobre o Cantareira se tornou praticamente inviável em caráter perene, servindo apenas para manutenções temporárias" e que o objetivo do rodízio seria "reduzir a produção do Sistema Cantareira para evitar o colapso dos mananciais e, consequentemente, do abastecimento da Região Metropolitana". À época, o Cantareira estava com 25% da capacidade. Ontem, o sistema estava com 14,6%.
No plano, os técnicos da Sabesp dividiram as noves cidades da Grande São Paulo e os 8,8 milhões de habitantes abastecidos pelo Cantareira em três blocos e excluíram 969 mil moradores de regiões próximas de hospitais da relação de quem seria afetado pelo rodízio. Foram traçadas três alternativas de cortes no fornecimento, de acordo com a necessidade de economia. Segundo a própria Sabesp, a mais prática e eficiente seria o rodízio de 48 horas com água e 24 horas sem abastecimento, que resultaria em uma redução de 4.200 litros por segundo na vazão do manancial.
"O início do rodízio será determinado pela alta gerência da Sabesp, em função da avaliação técnica do comportamento atual e projetado do manancial, conforme as projeções de probabilidades da área de hidrologia da Sabesp", afirma o plano. "Essencial é adotar uma linha de gestão do rodízio transparente, interna e externamente à Sabesp, com um contínuo acompanhamento capaz de atuar com agilidade e eficácia nas correções de rumo eventualmente requeridas", finaliza.
Descartado. O rodízio foi descartado pelo governo do Estado. Segundo o governador, foi uma decisão técnica. Em fevereiro, a Sabesp lançou o programa de bônus para estimular a população a economizar, remanejou água de outros sistemas, incluindo Alto Tietê e Guarapiranga, e reduziu a pressão da água na rede à noite.
Segundo o governo, essas medidas fazem parte do "Plano de Contingência 2" e resultaram em economia de 8.400 litros por segundo em junho, o correspondente a um rodízio de 72 horas sem e 36 horas com água. Embora não tenha evitado a queda do nível do Cantareira, a Sabesp afirma que o rodízio agora é "desaconselhável" e pretende usar até 300 bilhões de litros do volume morto para não precisar decretar racionamento até março.

Relatório foi feito para outorga, alega Sabesp

Fabio Leite - O Estado de S. Paulo

Companhia alega que 'Plano de Contingência - Rodízio no Sistema Cantareira' foi elaborado antes da atual crise de estiagem e durante o processo de renovação da outorga de uso do manancial

SÃO PAULO - A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) afirmou, em nota, que o "Plano de Contingência - Rodízio no Sistema Cantareira" foi elaborado antes da atual crise de estiagem e durante o processo de renovação da outorga de uso do manancial, iniciada em 2013 e suspensa neste ano por causa da seca. "Ele é um dos cenários estudados para a renovação da outorga durante os próximos 30 anos e foi desenvolvido antes de o Sistema Cantareira registrar as menores afluências de sua história. Portanto, não pode ser utilizado para discutir o atual cenário", afirma.
Segundo a empresa, "é irresponsável estimar uma economia de água de 4.200 litros por segundo além dos 9 mil litros por segundo já obtidos", com dados de julho. "Essas medidas não podem ser somadas", afirma a companhia, segundo a qual "não existe prazo de aplicação do rodízio apresentado no documento".
A Sabesp afirma ainda que é "irresponsável defender a adoção de uma medida que vai prejudicar a população, quando as ações adotadas pela Sabesp mantêm o abastecimento para todos, mesmo com uma diminuição drástica no volume de água autorizado para captação". "As soluções adotadas pouparam a população de um sofrimento enorme."

Para especialistas, racionamento já não é a medida mais indicada

Fabio Leite - O Estado de S. Paulo

07 Agosto 2014 | 03h 00

Adoção de rodízio de água na região abastecida pelo Sistema Cantareira na Grande São Paulo aumentaria o volume de água que já é economizado pela Sabesp, afirmam

SÃO PAULO - Especialistas em engenharia hidráulica ouvidos pelo Estado afirmam que a adoção de um rodízio de água na região abastecida pelo Sistema Cantareira na Grande São Paulo aumentaria o volume de água que já é economizado pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp).
"Com o rodízio poderíamos economizar mais água do Cantareira, mas não é uma conta simples de fazer. Portanto, é difícil saber se compensaria diante do transtorno que ele leva para a população e para a própria Sabesp", afirma Antonio Eduardo Giansante, mestre em Engenharia Hidráulica e Saneamento e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Segundo ele, se o rodízio de 48 horas com e 24 horas sem água fosse adotado hoje, a Sabesp continuaria economizando 3,6 mil litros por segundo com o remanejamento de água de outros sistemas, mas perderia a redução de 1,6 mil litros obtida com a diminuição da pressão noturna, porque ela se tornaria inviável em um esquema de cortes de abastecimento e poderia sofrer impacto negativo em relação à economia da população.
"Normalmente, em um cenário de rodízio, no dia em que tem água a população corre para estocar em vários reservatórios, até por precaução. Isso pode diminuir a economia obtida hoje. Por isso, com todos os riscos sanitários, de contaminação da rede quando ela está fechada, o rodízio deve ser a última instância", diz Giansante.
Para o professor Jorge Giroldo, de Engenharia Mecânica do Centro Universitário da FEI, muitas medidas já adotadas pela Sabesp hoje são compatíveis com um rodízio, mas o ganho adicional que o racionamento traria seria pequeno. "A parte positiva dessa crise foi a conscientização da população de que a água deve ser consumida racionalmente. Não sei se o rodízio tivesse sido adotado antes as pessoas teriam se educado dessa forma. Então, hoje, embora pudéssemos economizar um pouco mais com o rodízio, acho que não vale a pena adotá-lo."
Futuro. Para Giroldo, a Sabesp deve aguardar o início da próxima temporada de chuvas, em outubro, para observar se a pluviometria volta ao normal. "Se a estiagem permanecer, aí não haverá opção ao racionamento", completa.

OESP, 07/08/2014, Metrópole, p. A20

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