OESP, Metrópole, p. A11
29 de Jan de 2015
Rodízio de 24h sem água, proposto há 1 ano, economizaria 12,3% do Cantareira
Estado considerou a medida, que atingiria somente regiões abastecidas pelo principal manancial paulista, 'tecnicamente inadequada'; a proposta poderia ter resultado em uma economia de 120 bilhões de litros em 2014 (o que supera a segunda cota do volume morto)
Fabio Leite
Descartado pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB) no início da crise hídrica, o plano de rodízio proposto há um ano pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), de 48 horas com água e 24 horas sem apenas para as regiões abastecidas pelo Sistema Cantareira, poderia ter resultado em uma economia de 120 bilhões de litros em 2014. A quantidade equivale a 12,3% da capacidade do manancial e supera a segunda cota do volume morto (105 bilhões de litros), que está sendo retirada pela empresa desde outubro.
O plano "Rodízio do Sistema Cantareira 2014", revelado pelo Estado em agosto, foi entregue em janeiro pela Sabesp ao Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo (DAEE), um dos órgãos reguladores do manancial. No documento, a companhia afirma que "o rodízio deve ser planejado em face da situação crítica de armazenamento nos mananciais" e previa uma economia de 4,2 mil litros por segundo na retirada do sistema, que resultariam em 120 bilhões de litros entre fevereiro e dezembro.
À época da revelação do plano, Alckmin disse que o rodízio "é tecnicamente inadequado" e o pacote de medidas adotadas pelo governo até então (redução da pressão da água, bônus na conta e transferência entre sistemas) "equivale a um racionamento de 36 horas com água e 72 horas sem". Já a Sabesp informou que o plano foi feito antes da crise, para o processo de renovação da outorga do Cantareira, que ocorreria em agosto passado e foi adiada.
Queda. Nenhuma das medidas adotadas pela Sabesp, porém, foi suficiente para estancar a queda do Cantareira, que tinha 23% da capacidade no início da crise e hoje opera com 23% negativos. As chuvas esperadas pelo governo para esse verão não vieram e, agora, a Sabesp admite a possibilidade de adotar um "rodízio drástico" de apenas dois dias com água e cinco sem.
A medida pode ser tomada caso a companhia seja obrigada a reduzir a retirada do Cantareira para 10 mil ou 12 mil litros por segundo. Em janeiro, o índice é de 14,7 mil litros, ante 29 mil litros por segundo antes da crise.
Em nota, a Sabesp informou ontem que "as medidas adotadas pela companhia desde o início da crise garantiram uma redução no consumo de água na região do Cantareira muito superior aos 4,2mil litros por segundo previstos no rodízio. Segundo a empresa, neste mês, a redução da pressão (7,2 mil l/s) e o bônus (3,2 mil l/s) resultaram em uma redução de 10,4 mil litros por segundo.
Chuva de fevereiro definirá corte histórico
Secretário diz que, se o racionamento acontecer, 'todo mundo será informado com a devida antecedência'
Fabio Leite, Felipe Resk, Ana Fernandes e José Roberto Castro
Um rodízio no qual a população fica cinco dias da semana sem água seria o racionamento oficial mais drástico já adotado na Grande São Paulo. A medida foi admitida nesta quarta-feira, 28, pelo diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato, caso a seca nos mananciais continue crítica. Se colocada em prática, os cerca de 20 milhões de moradores da região metropolitana sofreriam com longos cortes no abastecimento que só existiam antes da conclusão da primeira etapa do Cantareira, em 1974.
Ontem, o secretário de Recursos Hídricos, Benedito Braga, enfatizou que a situação "é difícil", mas "não há necessidade para ficar em desespero". "Se isso (o rodízio) vier a acontecer, todo mundo será informado com a devida antecedência. Não é da noite para o dia", disse, após encontro com prefeitos da Grande São Paulo. Braga ressaltou que a previsão meteorológica hoje "é difícil" e será necessário aguardar pelas chuvas de fevereiro para saber se a medida será necessária.
Histórico. Até o início da década de 1970, sem os 11 mil litros por segundo que passaram a ser produzidos pelo Cantareira, a parte leste da Grande São Paulo chegava a ficar dias sem água, aguardando por abastecimento com poços e caminhões-pipa. Àquela época, a região metropolitana tinha cerca de 8 milhões de pessoas, ou seja, menos da metade dos mais de 20 milhões atuais.
Nem a conclusão completa do Sistema Cantareira, em 1982, que elevou a capacidade de produção de água do manancial para 33 mil litros por segundo, foi suficiente para que 100% da região tivesse acesso a água tratada. O fim do racionamento contínuo, que afetava principalmente a zona leste da capital, só foi decretado em 1998 pelo ex-governador Mário Covas (PSDB), após a conclusão do Sistema Alto Tietê, cujas represas ficam na região de Suzano e Salesópolis.
Dois anos depois, a falta de chuvas fez cerca de 3 milhões de pessoas abastecidas pelo Guarapiranga na zona sul viverem durante três meses com água racionada. Na ocasião, o rodízio adotado foi de dois dias com água e um dia sem. A medida terminou em setembro de 2000.
OESP, 29/01/2015, Metrópole, p. A11
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