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Roda da fartura

Isto É, Cidadania, p. 48-50
Autor: GRAJEW, Oded
11 de ago de 2004

Roda da fatura
Programa estimula a agricultura familiar, gera renda mensal de R$ 1,7 mil e torna-se modelo de desenvolvimento sustentável

Greice Rodrigues
Cruz do Espírito Santo (PB)

Enquanto caminha pelo meio da plantação e arranca o mato que insiste em crescer entre as hortaliças, o agricultor paraibano José Cardoso da Silva, 56 anos, orgulha-se dos vistosos canteiros de alface, coentro, couve e quiabo, além das dezenas de pés de macaxeira, milho, banana, feijão e cana-de-açúcar plantadas nos dez hectares de sua propriedade. E esbanja felicidade quando mostra um enorme tanque cheio de água construído no quintal, onde cria patos e peixes. O cenário dessa fartura fica no assentamento Santa Helena, localizado no município de Cruz do Espírito Santo, a 40 quilômetros de João Pessoa (PB). Lá moram Silva, sua esposa, a também agricultora Maria Odete da Silva, 55 anos, e os dois filhos Marcondes, 23, e Ednalva, 22. "Já passamos por muitas privações, mas hoje a vida é outra. Tudo o que precisamos para comer está plantado no quintal. E toda semana minha mulher vai até a cidade vender hortaliças, verduras e frutas. Ganhamos até R$ 350 semanalmente", conta Silva.
O alimento que hoje supre as necessidades e traz renda para a família do agricultor é resultado de um programa implantado há um ano pela Agência Mandalla de Desenvolvimento, uma ONG com sede em João Pessoa (PB), que criou um sistema de irrigação de baixo custo para facilitar a produção de alimentos de subsistência em assentamentos e comunidades rurais. Essa fórmula permite que as famílias tenham uma renda mensal de até R$ 1,7 mil com a venda da produção excedente. "As mandalas são símbolos sagrados concentradores de energia. E, aqui, elas também trazem esperança porque garantem o sustento. O nosso objetivo é apoiar e orientar as famílias promovendo a auto-sustentação para garantir a permanência no campo", afirma Willy Pessoa, administrador de empresas e idealizador do projeto.
Na prática, a mandala é um tanque com capacidade para até 30 mil litros de água, abastecido por cisterna ou açude. São cultivados ao redor - em canteiros - alimentos básicos como feijão, arroz, mandioca, batata, hortaliças e frutas. Do reservatório sai a água que irriga os canteiros, por meio de tubos e com a ajuda de uma bomba. O tanque ainda é aproveitado para a criação de peixes e marrecos. Com suas fezes ricas em minerais, como fósforo, esses animais transformam a água em adubo orgânico, ideal para a plantação. "Essa técnica pode ser aplicada em qualquer pedaço de terra. Sempre acreditei que a saída para acabar com a fome estava na agricultura. Mas não é só dar a terra. É preciso ensinar a lidar com ela", diz Pessoa.
O projeto foi testado durante três anos no assentamento de Acauã, município de Aparecida, a 428 quilômetros da capital paraibana, em 64 mandalas de fundo de quintal. "Cada uma custou R$ 300. E foram feitas em parceria com a comunidade. Depois, tivemos o apoio do Incra e do Sebrae, que doaram os materiais", conta o administrador, que é parceiro da Ashoka (organização que apóia empreendedores sociais). Comprovada a eficiência, o desafio de Pessoa, agora, é ampliar o atendimento a outras 84 famílias. Serão construídas três mandalas comunitárias com capacidade para 75 mil litros de água, numa área de 2,5 mil metros quadrados. Cada uma custará R$ 4,5 mil. Uma delas já saiu do papel, graças ao investimento de R$ 300 mil que a ONG recebeu da empresa Bayer CropScience. "O recurso vai facilitar a ampliação. Também incluímos no projeto a criação de bibliotecas e salas de informática nas escolas", relata Marc Reichardt, presidente da empresa para a América Latina. O trabalho da Agência Mandalla já ganhou dimensão nacional. Foi implantado em nove Estados brasileiros, entre eles Minas Gerais, Bahia e Rio Grande do Norte. Em 2003, ganhou o prêmio de Tecnologia Social da Fundação Banco do Brasil.

Metas sociais em pauta

por Oded Grajew

Começa nesta segunda-feira, dia 9, a primeira Semana Nacional pela Cidadania e Solidariedade, que vai até 15 de agosto, com eventos em todo o Brasil. É idealizada e organizada por uma rede de entidades sociais e empresas que se uniram para promover a cidadania e a solidariedade e estimular a consciência social. Trata-se de um movimento apartidário e ecumênico, sem diretoria, presidente ou coordenador. E tem como mote os oito Objetivos de Desenvolvimento - as Metas do Milênio - da ONU, aprovados em 2000 por 191 países, entre eles o Brasil. Essas metas são: acabar com a fome e a miséria; educação básica de qualidade para todos; igualdade entre sexos e valorização da mulher; reduzir a mortalidade infantil; melhorar a saúde das gestantes; combater a Aids, a malária e outras doenças; qualidade de vida e respeito ao meio ambiente; e trabalho para todos e pelo desenvolvimento.
O Brasil possui metas para a inflação, para o superávit primário e para o PIB. Por que não incluir metas sociais para medir nosso desempenho? Esta é a razão e a importância desse movimento. As edições da Semana serão anuais, com início na segunda-feira mais próxima do dia 9 de agosto. Nesse dia, é o aniversário da morte de Betinho, cujas crenças e valores tornaram-se um símbolo na luta por uma sociedade mais justa e estão contempladas nas Metas do Milênio. Sete anos após a morte de Betinho - e em sua homenagem - poderemos fazer um balanço inicial e, depois, anual, do quanto avançamos para o cumprimento de nossos objetivos. Essas metas apontam para um horizonte totalmente novo ao País, em torno do qual mais e mais parcelas de brasileiros têm se mobilizado. A agência McCann Erickson criou voluntariamente a campanha publicitária "Oito Jeitos de Mudar o Mundo", cujo slogan é "Nós Podemos". São peças gráficas que mostram as oito metas representadas por ícones de fácil visualização e ampliam o entendimento dos objetivos. No site www.nospodemos.org.br é possível obter gratuitamente e reproduzir qualquer material. Vamos dar um exemplo de movimento de cidadania e solidariedade.

Oded Grajew é presidente do Instituto Ethos e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social .

Segurança
Mano da lei
Diminuir a distância entre a juventude e a polícia.
Essa é a missão de um projeto pioneiro do Grupo Cultural AfroReggae, do Rio de Janeiro, em parceria com o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania e o Projeto Fica Vivo, da Secretaria de Defesa Social do governo de Minas Gerais. O AfroReggae, nascido na favela de Vigário Geral, fará shows em favelas, encontros de confraternização e oficinas de gestão comunitária de segurança para policiais e jovens mineiros.

Trabalho
Aprendiz I
Dezoito mil jovens entre 14 e 18 anos serão incluídos no mercado de trabalho pelo Projeto Jovem Aprendiz, que será implantado em todas as unidades da Petrobras. Serão investidos R$ 37 milhões. A Fundação Roberto Marinho, parceira do projeto, preparará o material didático para os jovens. Também será desenvolvido um programa nacional de mobilização de empresas para a disseminação da Lei no 10.097, que regulamenta a inclusão de adolescentes no mercado de trabalho.

Ecologia
Aprendiz II
O cantor Chico César é o padrinho do projeto Somos Todos Aprendizes, que prevê oficinas de arte com reciclagem de embalagens PET em 190 escolas
de São Paulo. O objetivo é despertar a consciência ecológica em estudantes de quatro a dez anos, que receberão cartilhas sobre coleta seletiva e reciclagem. O projeto também será levado para Catolé da Rocha (PB), onde Chico César nasceu. O apoio é da Hellmann's e do Instituto Unilever, em parceria com o Instituto de Ação Cultural e Ecológica.

Prêmio
Bem na fita
Os Doutores da Alegria (foto), de São Paulo, e os projetos Vida para o Lixão e Ressurgir (RJ); Cidadão (SC); Themis (RS); Viver Bem (SP); e Melhorando Sorrisos (PR) são os vencedores do concurso Produto do Bem, da rede Farmais. Receberão R$ 60 mil cada um.

Saúde
Proteção integral
Três mil agentes sociais visitarão 80 mil crianças para entregar livros que ensinam as famílias a cuidar das crianças antes do nascimento. O projeto, chamado Criança e Desenvolvimento Integral, é da Itaipu Binacional e do Unicef.

Isto É, 11/08/2004, Cidadania, p. 48-50

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