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Robôs garimpam raridades no Atlântico

OESP, Geral, p. A16
06 de Ago de 2004

Robôs garimpam raridades no Atlântico
Espécimes foram coletados em expedição que chegou a 4 mil metros de profundidade no Atlântico

Herton Escobar

Ao mesmo tempo em que os jipes da Nasa passeavam pela superfície de Marte, cientistas a bordo de um navio norueguês enviavam robôs para um ambiente quase igualmente inexplorado, aqui mesmo na Terra, 4 mil metros abaixo da superfície do Atlântico. Após dois meses no mar, estudando a biodiversidade marinha de grandes profundidades, os pesquisadores aportaram ontem em Bergen, na Noruega, com mais de 80 mil espécimes a bordo. Entre elas, esperam encontrar novas espécies, assim como pistas sobre o estado de saúde dos oceanos.
Ao contrário das praias, recifes de coral e outros pontos turísticos tradicionais, a maior parte do oceano é um lugar frio, escuro e esmagador.
Mais de 60% da superfície do planeta - do qual 70% é coberto de água - está abaixo de 2 mil metros de profundidade, nas chamadas planícies abissais, onde não há vestígio de luz e a pressão é pelo menos 200 vezes maior do que na superfície. Ainda assim, há um enormidade de espécies que habitam esses ambientes, muito pouco explorados pelo homem.
"Temos mapas melhores da Lua e de Marte do que do fundo do oceano", diz o pesquisador Ron O'Dor, diretor científico do Censo da Vida Marinha, projeto orçado em US$ 1 bilhão, que envolve 53 países - incluindo o Brasil - e há três anos estuda os ecossistemas submersos. Segundo O'Dor, menos de 0,001% das planícies abissais já foram amostradas diretamente - principalmente pela dificuldade e o alto custo de se chegar até o fundo delas. É como o porão escuro de uma casa, que precisa ser lentamente vasculhado com uma lanterna.
A expedição que desembarcou ontem faz parte do projeto Mar-Eco, que integra o Censo e estuda a biodiversidade em torno da Cordilheira Meso-Atlântica, a cadeia de montanhas submersas que corta o leito do Atlântico e marca a divisão das placas tectônicas da América e da Eurásia. Sessenta cientistas, de 13 países, participaram da pesquisa, que coletou espécimes a até 4 quilômetros de profundidade. O estudo emprega tecnologias de ponta, incluindo robôs que submergem operados por controle remoto (ROVs, em inglês).
O material ainda precisa ser estudado e descrito em laboratórios em terra, mas os pesquisadores já identificaram pelo menos 300 espécies de peixes e 50 de lulas e polvos, além de uma infinidade de organismos planctônicos. De dentro do abismo, as redes e os holofotes dos ROVs revelam criaturas ao mesmo tempo magníficas e assustadoras, incluindo água-vivas luminescentes e peixes de dentes afiados e aparência pouco amigável. Adaptadas à profundidade, elas se alimentam da "chuva" de detritos orgânicos que cai constantemente das camadas mais rasas - além de umas das outras. "Há muita vida. Pode não ser deslumbrante, mas está lá", diz o pesquisador Ricardo Santos, da coordenadoria do Mar-Eco e da Universidade de Açores.
Segundo o primeiro inventário do Censo, divulgado no ano passado, há cerca de 210 mil espécies marinhas conhecidas da ciência. Mas o número total pode passar de 2 milhões. Só de peixes, o projeto já catalogou mais de 15 mil.
Mas espera chegar a 20 mil. O censo, previsto para terminar em 2010, é dividido em uma série de subprojetos, que estudam diferentes ecossistemas. A expectativa é que as informações biogeográficas sejam usadas na definição de práticas mais sustentáveis de exploração dos recursos marinhos, além de uma série de outras aplicações científicas relacionadas ao funcionamento dos oceanos e mudanças climáticas.
Sem falar, é claro, na simples curiosidade biológica. "Meu objetivo é que, em 2010, nós conheçamos a biodiversidade marinha tanto quanto conhecemos hoje a biodiversidade terrestre", resume O'Dor.

OESP, 06/08/2004, Geral, p. A16

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