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Rito de passagem

Valor Econômico, Fim de Semana, p. 1, 16-22
24 de jun de 2011

Rito de passagem

Daniela Chiaretti
Do Xingu

Se há um paraíso na Terra, ele fica aqui, aos pés desta lagoa, onde o povo camaiurá se banha todos os dias, na bruma rosada das 5h30. A aldeia Ipavu, no coração do Parque Indígena do Xingu, ao norte de Mato Grosso, fica em um canto do Brasil particularmente lindo e que parece ser assim, exatamente assim, há centenas de anos.
Mas será que a mágica termina à visão da primeira parabólica cravada na aldeia? É muito esquisito quando se vê o primeiro índio de celular - e que, por sinal, aqui não pega? Bobagem. Bastam alguns minutos no Alto Xingu para que se entenda que índio continua sendo índio mesmo de camiseta e shorts, relógio de pulso, Havaianas e TV na oca - assim como japonês não é menos japonês se veste jeans e deixa o quimono no guarda-roupa ou italiano não perde a identidade peninsular se come arroz e feijão no almoço e no jantar. Preconceitos, sempre ridículos e sintoma de ignorância, no caso dos índios brasileiros também são daninhos.
No Alto Xingu, nesse fim de semana de junho, Dia de Santo Antônio e Dia dos Namorados para muitos brancos do entorno, é dia de índio. Há mais de 500 deles circulando pelo pátio cerimonial ou saindo das grandes ocas dispostas em círculo para participar do I Festival de Culturas Xinguanas em comemoração aos 50 anos do Parque Indígena do Xingu, o PIX. Alguns "parentes", o jeito que índio chama índio, vieram até de fora, do Acre, do Rio Negro, do Amapá.
Conta-se nos dedos quem não está paramentado para os três dias de festa - os homens usam cordas, faixas coloridas nos antebraços e joelhos, cintos largos às vezes com chocalhos pendurados. Alguns, entre os mais jovens, vestem cuecas por baixo dos enfeites, mas a maioria está nua. O cacique Raoni Txukarramãe, facilmente reconhecido pelo botoque no lábio inferior, veste camisa e shorts, mas quem se importa? Ele pode tudo. Os caiapós não vivem no parque, mas são reconhecidos por lutar pelos territórios indígenas. Raoni é provavelmente a maior autoridade indígena contemporânea.
Ocorre um frisson na aldeia quando ele chega ao festival.
Homens e mulheres exibem tatuagens muito gráficas - as negras são feitas com tinta extraída do jenipapo ou carvão em resina e as vermelhas, do urucum. Os enfeites que eles vestem são verdes, azuis, vermelhos e amarelos, não há tons pastel no Alto Xingu. A pintura forte emoldurando os olhos é uma característica dos índios dessa região, assim como um colar branco, estupendo, feito de lascas bem recortadas da concha de um caracol, tradição dos calapalos. É a joia do Alto Xingu. Identifica as lideranças das nove etnias que estão aqui desde sempre, os nobres entre os nobres. O detalhe é que não se encontra mais o caracol dentro dos limites do parque e os calapalos têm que comprá-los dos xavantes.
O motivo da festa é comemorar os 50 anos da criação do Parque Indígena do Xingu, em decreto assinado por Jânio Quadros em 14 de abril de 1961, resultado de anos de luta política de uma demanda dos índios apoiados por médicos e intelectuais como Darcy Ribeiro, Noel Nutels e os famosos irmãos Claudio e Orlando Villas Bôas. A efeméride, contudo, é pretexto não muito bem aceito por todos. É fácil entender o argumento dos que torcem o nariz para a data: a terra era dos índios, que já estavam lá antes de os brancos chegarem, invadirem, trazerem doenças e provocarem muitas perdas.
Mas alguns jovens conseguiram sublimar o eventual mal-estar, convenceram os outros de que era uma boa hora para reunir lideranças das 16 etnias espalhadas pelos 2,6 milhões de hectares e aproveitar para lembrar do passado e discutir o futuro.
É muito raro um encontro desses, entre representantes dos cerca de 6.500 índios que vivem aqui - algumas estatísticas falam em quase 8 mil, mas ninguém, nem a Fundação Nacional do Índio, a Funai, conhece o número exato. Lideranças das 16 etnias que vivem no Alto, Médio, Baixo e Leste Xingu se reuniram nas visitas dos então presidentes Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, há vários anos, e na criação da maior associação indígena do parque, a Associação Terra Indígena Xingu (Atix), em 1994. As distâncias enormes, as dificuldades de transporte e os altos custos de viagem são obstáculos difíceis de transpor. A outra questão é que há diferenças entre esses povos. Alguns foram inimigos viscerais. Os "kisedjis", por exemplo, guerreavam com os camaiurás, o grupo que recebe os convidados. Mas agora estão aqui, pintados de negro e em comitiva liderada pelo cacique Kuiussi, e bem recebidos pelos anfitriões.
São os mais velhos que abrem a primeira roda de conversas, no galpão das falas, recoberto com palha e cheio de cadeiras de plástico brancas. O gesto é sinal de reverência comum às sociedades indígenas, que prezam a família, os anciões, o conhecimento dos pajés. Quando um fala, todos os outros escutam em silêncio. Os pequenos discursos se sucedem entre índios sentados em círculo. Não há mulheres nas primeiras filas. Nem nas outras. As mulheres estão com as crianças, tomando banho na lagoa ou dentro das ocas. A expressão política ainda é domínio masculino.
Os líderes mais experientes contam histórias sobre a criação do parque e externam suas preocupações atuais. "É isso que Claudio e Orlando falaram para mim, naquela época: 'Um dia o homem branco pode vir e enganar vocês. Entre nós tem gente que mata por dinheiro, que mata pela terra'.
Claudio falou para eu lutar e não ser enganado pelo homem branco", diz o cacique Raoni em sua língua, com tradução imediata para o português feita pelo sobrinho Megaron Txukarramãe. "Enquanto estiver vivo, vou continuar lutando."
O cacique Aritana, chefe dos iaualapitis, mantém os braços cruzados e a expressão carrancuda. O líder famoso, uma espécie de embaixador do Xingu, é outra referência. "Temos que preservar a nossa cultura", diz. "Temos que manter nossa terra, nosso ambiente, nossa reserva, nossas tradições, por mais 50 anos", reforça. Aritana esteve envolvido recentemente em uma polêmica em torno de uma Pequena Central Hidrelétrica (PCH). O empreendedor teria entrado em contato com ele, e Aritana teria aceito as condições e compensações da obra. Só que outros líderes se queixaram de não ter sido consultados pelo cacique iaualapiti e o caso acabou em uma confusão interna. Nem tudo são flores no Xingu. As várias etnias têm muitas diferenças entre si, arestas que os mais jovens querem aparar.
O surgimento de uma série de PCHs nos limites do parque é um dos problemas que afetam a vida dos índios. Como são pequenas, as PCHs estão isentas de apresentar Estudos de Impacto Ambiental (EIA-Rima), já que seu impacto é evidentemente muito menor do que o de uma grande hidrelétrica. "A questão é que há uma chuva de PCHs no entorno do parque, e, então, claro que o impacto é grande", afirma a engenheira florestal Cristina Velasquez, que há vários anos atua no Programa Xingu do Instituto Socioambiental (ISA), a ONG reconhecida pelo trabalho tradicional junto a povos indígenas do Brasil. Mas as PCHs são só uma ponta das aflições que atormentam os índios do Xingu.
A ameaça, eles sentem, está lá fora. Ela pode ter contornos ambientais, como o desmatamento nas bordas do PIX, a poluição das águas pelo uso de agrotóxicos nas fazendas da região, o assoreamento dos rios, a diminuição na vazão como consequência às represas, a redução no estoque de peixes.
O parque tem um problema de origem: as nascentes dos formadores do Xingu, rio sagrado para os índios, estão fora de suas fronteiras. Os maiores riscos podem ter também contornos sociais, como a sedução que as cidades exercem sobre os jovens, provocando êxodo nas aldeias e o enfraquecimento cultural. O relacionamento com os brancos é outro fator de preocupação, além do consumo cada vez mais intenso de bebida alcoólica, da crescente introdução de alimentos industrializados e do surgimento de novas doenças. E há ainda o trauma com as invasões, os madeireiros ilegais, o turismo clandestino.
O lugar da festa não poderia ser mais simbólico para discutir passado e futuro e tocar em todas essas questões. O Parque Indígena do Xingu é a terra indígena mais famosa (e talvez a mais glamourosa) do Brasil. Poder assistir a um quarup, o lendário ritual que homenageia os mortos, é sonho de todo branco que se interessa pela vida e cultura dessa gente.
Chega-se à aldeia Ipavu ou de barco ou de avião, saindo de Canarana. Podem ser sete horas de voadeira pelo rio Culuene, o maior formador do Xingu, e depois pelo belo Tuatuari. Vão se seguindo jacarés tomando sol nas margens, bandos de capivaras assustadas e mantos verdes que se levantam de repente - um fantástico tapete voador de borboletas. Pelos ares a viagem leva uma hora, em pequenos aviões que voam baixo e permitem a observação da floresta de transição, do cerrado para a Amazônia. Quando se chega ao parque, o verde aumenta em proporção geométrica. Algumas manchas acinzentadas indicam que ali o fogo se alastrou e são sinal evidente de que a mudança do clima torna a mata mais vulnerável. Pequenas clareiras ocupadas por grandes ocas em círculo começam a surgir na janelinha, surpresas em meio ao verde. O piloto vai apontando a vida no Alto Xingu: essa aldeia é cuicuro, aquela é uaurá, ali há uma aueti.
O avião pousa na pista de terra e mal desliga os motores que já há camaiurá abrindo a porta. Não conseguem esconder a decepção quando entendem que entre os passageiros não está a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, nem o presidente da Funai, Marcio Meira. A presença deles estava confirmada, mas eles não vieram. A ausência foi sentida e interpretada como reação do presidente da Funai à polêmica sobre a construção da usina de Belo Monte, na região de Altamira. Os índios se queixam de que a Funai não os ouviu no processo e acusam o órgão de não tê-los representado devidamente. O cacique Raoni, que há décadas luta contra as várias versões de Belo Monte, pede a saída de Meira do cargo.
O jovem Kadji Waura, professor indígena, se entusiasma, diz que é "grande guerreiro" e que esteve na barragem. "Se acontecer Belo Monte, vou guerrear lá", avisa. "Digo pra meus alunos: o futuro do Xingu depende de cada um de nós aqui."
"Foi uma questão de agenda pura e simplesmente", responde o paraense Aloysio Guapindaia, presidente substituto da Funai (Marcio Meira está em férias) e diretor de promoção ao desenvolvimento sustentável, dias depois da festa, em conversa por telefone com o Valor. "Tivemos dificuldades com o avião da FAB que iria levar as autoridades para a aldeia, ocorreram problemas com o equipamento. Fugiu à nossa vontade." Sobre a provocação do cacique, Guapindaia diz que "Raoni tem todo direito de se manifestar, ou contra ou a favor, como qualquer liderança indígena ou qualquer um de nós. Isso é inerente à democracia". Em seguida, esclarece a linha fina entre a atuação da Funai e sua inserção no governo. "As coisas não se misturam. O nosso trabalho é de conciliar os interesses do governo com o dos povos indígenas. Precisamos estruturar uma política que atenda aos anseios deles. Mas a Funai é um órgão de governo que realiza política de governo."
Refeitos da decepção, os índios retornam à programação prevista para a manhã de sábado. É a vez de as mulheres dançarem o Yamurikumã. "A história conta que essa peça surgiu a partir de uma rebelião de mulheres contra os homens", diz Ianukulá Kaiabi Suiá, um dos jovens líderes do Xingu.
A lenda fala que as mulheres foram embora da aldeia e durante a viagem entraram em uma grande caverna, feita por um tatu. Vivem nas profundezas até hoje. Na dança, a única do repertório que é executada apenas por mulheres, alguns adornos são enfeites masculinos, como cocares e braçadeiras.
O fim da dança é um susto: as mulheres saem batendo, abraçando e atacando seus parceiros. Mas, como os índios conhecem o fim da coreografia, desaparecem de cena. A "ira" feminina sobra para os incautos convidados não índios.
Vista aérea de uma aldeia no Alto Xingu: lideranças rejeitam a denominação de Parque Indígena e querem que sua terra ganhe status de território A discussão da tarde está reservada para as lideranças jovens com audiência formada pelos chefes mais velhos e todos os homens das aldeias. Trata-se de uma oportunidade de fazer ajustes entre a nova e a velha geração. O pano de fundo é a complexidade das mudanças que emergem da influência da TV e da internet, da proximidade cada vez maior das cidades, da educação, das novas tecnologias, da relação com a sociedade que cerca o parque. "O ponto mais forte nessa reflexão de passado e presente é o questionamento das lideranças mais velhas, se os mais jovens vão levar adiante suas lutas", analisa Cristina Velasquez.
Os índios, falando por eles mesmos, são sua melhor tradução:
"Não dá para viver em plena liberdade e harmonia com o desmatamento fora do Xingu, que acontece pela plantação de soja e o gado. A saída dos nossos jovens para a cidade, sem retornar à aldeia, é problema. Nossas lideranças, meio divididas, é outra questão. Vocês sabem que nossa luta sempre foi coletiva. A prática do turismo dentro da nossa reserva é outro problema", resume o professor Iawaritu Trumai, falando com delicadeza aos mais velhos, que a hora é de união dos índios, não importam as diferenças do passado.
Trumai também toca em um ponto complicado, do turismo clandestino. Em algumas aldeias já há banheiros construídos e, à porta, letras pintadas discriminam "Ele" e "Ela", indícios claros de que o trânsito de não índios deve ser frequente. "Isso é gravíssimo", diz Guapindaia. "A Funai tem muitas críticas ao turismo dentro de terras indígenas. Essa prática não é regulamentada e, embora traga um rendimento, o que é positivo para eles, tem efeitos negativos, como alcoolismo, prostituição e doenças", continua. "Quando ficamos sabendo, vamos à comunidade e tentamos convencê-los de desistir disso."
O rapaz de óculos, outro professor indígena, conta que o avô, na década de 30, já "falava a língua do caraíba". O discurso de Mutua Mehinaku é impressionante: "Quando a Escola Paulista [de Medicina] chegava à aldeia eu ficava com medo, porque ouvia que um dia o branco ia me dar um biscoito com açúcar envenenado e eu ia morrer. Também escutava que a escola era muito perigosa e, se eu entrasse ali, eu ia mudar", conta. "Hoje, depois de estudar muito, valorizo a nossa língua e defendo a escola como um espaço de analisar a nossa cultura." Mehinaku nasceu em uma aldeia cuicuro, tem 30 anos e três filhos. Tem página no twitter e perfil no Google. Em dezembro defendeu tese de mestrado no Rio, sendo orientado pela renomada antropóloga Bruna Franchetto. "É um futuro líder", aposta Cristina Velasquez.
A questão da educação é muito mais complexa do que pode parecer. As escolas nas aldeias, que dão ensino bilíngue e contam com professores indígenas, chegam até a 8ª ou 9ª série. Alguns jovens começam a querer cursar o ensino médio e vão para as cidades. Outro fator de êxodo é a busca, sempre maior, do acesso aos direitos sociais dos índios, como a aposentadoria enquadrada no regime de trabalhador rural ou o Bolsa Família. O que é obrigação do Estado acaba tendo um efeito colateral, e a sedução dos centros urbanos está vencendo a batalha.
Outro professor indígena, Aturi Kawaiwete, levanta temas muito atuais no cotidiano xinguano. "Eu me sinto triste de não ver uma discussão de mulheres, que também são guerreiras, para falarem do futuro do Xingu", começa. "Hoje a mudança climática mudou nossa vida tradicional. Não podemos mais acender fogo no mato porque ele se espalha e acaba com nossos remédios, acaba com a madeira para construir a nossa casa. Isso é fundamental para o nosso futuro. Já se fala no mercado de carbono", prossegue.
Uma jovem agarra o anzol lançado pelo jovem "kawaiwete" e pede a palavra. "A minha pergunta é para os professores. O que vamos fazer para evitar que nossos filhos vão para a cidade? Não quero colocar minha filha em uma escola que fica seis meses sem aula. Se tenho escola boa na aldeia, vou querer que meus filhos estudem aqui", diz Watatakalu Yawalapiti, a Takan. A plateia reage com gritos de "Uhu!". Takan nasceu na aldeia iaualapiti, do tio Aritana. Com a família viveu no Posto Leonardo - um dos primeiros locais de apoio às aldeias indígenas do Xingu, com escola e posto de saúde.
Na adolescência morou em Canarana, depois em Brasília. "Sempre estudei em escola fraca, sem professores. Eu era a única aluna indígena, sofria preconceito."
As dificuldades vieram de todo lado. Na aldeia ninguém acreditava que ela fosse voltar. "Achavam que, porque eu estudei fora, ia casar com branco."
Takan casou-se com Ianukulá Caiabi, que trabalha na Funai, em Canarana. A moça tem uma loja na cidade, de artesanato indígena. "Eu conheço os dois mundos. A educação no Xingu vem ajudar a gente, mas não está funcionando como deveria."
Todos, na reunião, falam em português - se cada um se exprimir na própria língua, ninguém se entende. "Falar português é um elemento de defesa, para ficarem menos vulneráveis", explica André Villas Bôas, há 16 anos coordenador do Programa Xingu e secretário-executivo do ISA. A exceção à regra é Raoni, que se exprime em sua língua. Depois de todas as falas, o velho cacique pede a palavra, chama pelo sobrinho Megaron, inclina o corpo em 90 graus, joga os braços para trás. Começa uma dança circular muito ágil e entoa uma cantoria. Não se sabe ao certo a idade de Raoni. Alguns calculam entre 70 e 75 anos, outros suspeitam que está próximo dos 80. O cacique começa a falar e toca em vários pontos do que foi dito. Não se escuta nenhum ruído, todas as atenções estão voltadas para ele. "Quero falar para as mulheres, minhas filhas. A força de vocês é grande. Apoiem a luta do marido de vocês", recomenda. Prossegue: "Quero falar sobre a religião que querem trazer para nós. Eu não aceito isso. Não quero esse costume do branco de cobrir o rosto com a mão". A audiência responde: "Uhu!" As mudanças do mundo de fora ocorreram em velocidade impressionante nesses 50 anos e atingiram as populações no parque. "Quando o PIX foi formado, as perdas eram muito vivas ainda, havia grupos quase extintos, reduzidos a 40 pessoas", conta André Villas Bôas, que não tem parentesco próximo com os irmãos da saga xinguana. "Em 1961, quando se pensou o parque, pensava-se os índios como algo do passado do Brasil", continua. A criação do PIX foi uma atitude ousada, mas, na tentativa de proteger vários povos de serem massacrados ou morrer nas epidemias de gripe e sarampo, muitos perderam seus territórios ao ser trazidos para dentro da reserva. É o caso dos icpengues, por exemplo, retirados de seu lugar, que foi invadido por garimpeiros. O caso mais famoso é o dos panarás (ou crenacarores) que foram transferidos para o Parque do Xingu, mas nunca se adaptaram.
Testemunhas das mudanças, o casal de médicos sanitaristas Sofia Mendonça e Douglas Rodrigues, da Escola Paulista de Medicina/Unifesp, é várias vezes mencionado com apreço pelos xinguanos. Douglas visitou a região pela primeira vez em julho de 1981, para ajudar no combate de uma epidemia de coqueluche. "Naquela época tinha muita malária, tuberculose, epidemias de gripe devastadoras", conta o "doutor Douglas", como os índios o chamam. "A gente lutava com o que tinha, havia falta de medicamentos, a mortalidade era altíssima."
Eles ajudaram nas campanhas de vacinação, na formação de agentes de saúde indígena e de auxiliares de enfermagem. A malária ficou sob controle, as epidemias cessaram. Mas uma nova geração de males começou a surgir com casos de hipertensão e diabete, obesidade e doenças sexualmente transmissíveis. "Hoje eles convivem ainda com desnutrição, escabiose (sarna) e doenças mais complexas", diz Sofia. Os índios aprenderam a reconhecer a eficácia de técnicas dos brancos, como as vacinas, e os médicos aprenderam a trabalhar com os líderes espirituais das aldeias. "O trabalho com o pajé é fundamental ou a lógica biomédica não funciona", comenta Sofia.
Antes de o festival terminar há uma exibição de huka-huka, a tradicional luta entre guerreiros e guerreiras. Vence quem joga o outro ao chão ou quem encosta na barriga da perna do adversário. Uma parte do quarup é encenada e há ainda a hora em que se trocam cerâmicas por vestidos ou lanternas por pulseiras de miçangas, em um grande "moitará". A festa pelos 50 anos do parque chega a São Paulo nos próximos dias, com exposição fotográfica na Cinemateca, mostra de filmes e ciclo de debates. Este ano, ainda, aguarda-se o lançamento do filme "Xingu", de Cao Hamburger. Na aldeia Ipavu o festival termina com a leitura de cartas no pátio central dos camaiurás. Ali, os índios do Xingu pedem uma mudança sutil, que, no entanto, vai muito além da semântica. Eles rejeitam a denominação Parque Indígena, que, entendem, traz embutida a ideia de "zoológico" e "parque de diversões". De agora em diante, dizem, querem que sua terra ganhe status de território.

Valor Econômico, 24/06/2011, Fim de Semana, p. 1, 16-22

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