CB, Economia, p. 24
18 de Jun de 2006
Risco para os orgânicos
Supermercados buscam parceria como governo para garantir o abastecimento regular dos produtos nas lojas
Luciano Pires
O preço caiu, a procura aumentou, e agora o varejo teme que uma expansão desenfreada da demanda coloque em risco o mercado de alimentos orgânicos no país. Para evitar um possível colapso, os supermercadistas decidiram se antecipar e querem encontrar, junto com o produtor e o governo, formas de garantir a regularidade no abastecimento. Hoje, isso só existe onde a agropecuária ecológica e socialmente correta está madura - caso do Distrito Federal.
Enquanto a participação dos orgânicos nas prateleiras dos supermercados do mundo cresce a taxas entre 10% e 15% ao ano, no Brasil o salto está na casa dos 50%, puxado principalmente pelas campanhas de marketing cada vez mais agressivas. A produção nacional nem de longe acompanha esse ritmo e o descasamento preocupa parte dos varejistas.
Como saída, os empresários propõem estreitar o relacionamento com o agricultor e esperam do governo apoio para identificar parceiros confiáveis. "Queremos um crescimento ainda maior da participação dos orgânicos, mas de forma regular. Uma presença, ainda que lenta, mas contínua é o que desejamos", explica João Carlos de Oliveira, presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras).
Em parceira com os ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura, os empresários planejam definir de quem e em que quantidade poderão comprar produtos orgânicos. Tal papel cabe atualmente às cooperativas e aos sindicatos rurais espalhados pelo Brasil, mas como nem todos os produtores estão organizados, mapeá-los é fundamental para as pretensões de pequenas e médias redes varejistas - que não têm como garantir o alimento orgânico todos os dias nas gôndolas e na variedade exigida pelo consumidor. "Produtores que ainda não se organizaram nos estados, muitas vezes, buscam no governo uma forma de iniciar a comercialização. Achamos que podemos aproveitar isso, essa identificação que os ministérios fazem", completa Oliveira.
Em 2006, os orgânicos movimentarão no mundo US$ 30 bilhões. A produção no planeta vem se expandindo a uma média de 20% ao ano, atraindo cada vez mais investidores. No Brasil, existem aproximadamente 19 mil propriedades rurais orgânicas. Dados não oficiais indicam que o país produz entre 10 milhões e 12 milhões de toneladas de alimentos por ano.
No Distrito Federal, há 188 produtores certificados - a certificação é feita por entidades privadas que monitoram e atestam a propriedade de acordo com padrões internacionais. Entre os principais itens, destacam-se os hortifrutigranjeiros, leite e laticínios. Só no ano passado, segundo o Sindicato dos Produtores Orgânicos do DF (Sindiorgânico), o faturamento chegou a R$ 500 mil. Em março, o DF ganhou o primeiro supermercado orgânico do Brasil, montado na Ceasa.
Expansão
Se garantir a oferta é a prioridade do momento, incrementá-la será o próximo passo dos supermercados brasileiros. Por isso, fornecedores e as redes de todo o país pretendem utilizar a 2ª Semana dos Alimentos Orgânicos, que acontecerá de 23 a 30 deste mês, como laboratório para testar gostos e firmar algumas marcas.
Um estudo do WWF-Brasil, realizado em São Paulo e no Rio de Janeiro, revela que a carne orgânica é um produto pouco conhecido pelas pessoas. A organização não-governamental incentiva o que chama de consumo responsável e decidiu apoiar a pecuária orgânica em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Nesses estados, de acordo com o WWF-Brasil, há 13 fazendas orgânicas com 70 mil hectares em pastagens e cerca de 55 mil cabeças de gado.
Assim como a carne, pelo menos 10 outros itens terão tratamento diferenciado durante a 2ª Semana dos Orgânicos. Os supermercados preparam estandes exclusivos para os produtos, sendo que algumas redes vão disponibilizar consultores para tirarem dúvidas dos consumidores dentro da loja. No Distrito Federal, até os restaurantes vão aderir e, em parceria com os produtores, prometem criar receitas e oferecer pratos preparados exclusivamente à base de alimentos orgânicos.
A onda natural
área plantada (em hectares)
No mundo: 24 milhões
No Brasil: 6,5 milhões
Faturamento (em US$)
No mundo: 30 bilhões
No Brasil: 200 milhões
Demanda
(crescimento anual)
No mundo 10% a 15%
No Brasil: 50%
Preços
Em média, 30% mais caros do que o alimento convencional
Para saber mais
O orgânico vai muito além do alimento livre de agrotóxicos. A produção está ligada ao respeito ao meio ambiente e às leis trabalhistas, zela pelo manejo equilibrado da terra e pelo uso de defensivos naturais.
As regras de cultivo e a fiscalização são rígidas e obedecem a padrões internacionais.
Certificadoras privadas, em geral organizações não-governamentais, se encarregam de conceder as autorizações aos produtores, que são monitorados periodicamente. O mercado só reconhece como orgânico o produto aferido por essas empresas, que cobram taxas pela inspeção e pelo uso do selo que atesta a procedência do alimento.
Os primeiros relatos de fazendas orgânicas remetem aos anos 1930. Índia, Alemanha e França aparecem na literatura especializada como países onde esta atividade teria nascido. Com a chegada da cultura hippie e de um modo de vida baseado em valores anticomerciais, os Estados Unidos "descobrem" os alimentos limpos. A partir das décadas de 1960 e 1970 plantações de orgânicos se espalham pelos estados americanos. Nessa mesma época, surgem algumas experiências na América do Sul, especialmente na Argentina, país referência até hoje. No Brasil, os orgânicos só ganharam força no fim dos anos 1970. Há pouco mais de 10 anos, porém, é que os produtores brasileiros passaram a se organizar e a se preocupar com o desenvolvimento de técnicas que garantissem maiores ganhos de escala e melhor faturamento.
Fonte: Certificadoras brasileiras e estrangeiras / produtores
CB, 18/06/2006, Economia, p. 24
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