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Risco de efeito Orloff

CB, Economia, p.10
23 de Mai de 2004

A Argentina está a beira do racionamento por falta de obras em estrutura de transporte de gás para térmicas. No Brasil, identificações do governo e cautela dos investidores paralisam projetos de geração
Risco de efeito Orloff
Lauro Rutkowski
Da Equipe do Correio
Será o Brasil do futuro parecido com a Argentina do presente? Para os especialistas do setor elétrico, a resposta é afirmativa. De acordo com eles, em 2007, o Brasil está sujeito a enfrentar uma situação de escassez de energia semelhante à da Argentina em 2004. Embora haja diferenças significativas entre um e outro modelo de geração e a natureza dos problemas, há risco de um efeito Orloff por aqui, porque o principal motivo da crise no país vizinho está também presente no Brasil: medo de colocar dinheiro em países emergentes, sujeitos a turbulências econômicas e políticas e caracterizados por regras instáveis. "0 risco de enfrentarmos nova crise é grande. 0 ambiente não está propício para investimentos e há demora nas decisões de governo para mudar essa percepção", afirma Afonso Henriques Moreira Santos, ex-diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (1997-2000) e ex-secretário no Ministério de Minas e Energia
(2001-2002). Dados da Aneel comprovam a cautela. A partir de 2007, os investimentos em geração praticamente acabam (ver gráfico nesta página). "Há chances de não termos energia para sustentar o processo de crescimento", alerta o presidente da Associação Brasileira da Infra-Estrutura e das Indústrias de Base (Abdib), José Augusto Marques.
Na Argentina, a desconfiança se manifestou com o incremento de vendas externas de gás, combustível responsável por 65% da geração elétrica do país. Nos últimos anos, as empresas privadas de exploração de gás decidiram ganhar três vezes mais exportando o produto em vez de vendê-lo no mercado interno, bastante deprimido pela crise econômica. Como o cenário era desfavorável a riscos, foram deixados de lado os investimentos em outras fontes de energia e também na ampliação de gasodutos para assegurar combustível às usinas em um momento melhor
Agora que a economia começa a crescer, falta gás para a geração - problema parecido com o enfrentado em 2001-2002 pelo Brasil, que ficou sem água para a geração hidrelétrica, responsável por 90% da energia do país, e sem alternativas para garantir o abastecimento. Para sair da crise, o governo argentino suspendeu exportações de gás, criando um problema diplomático com Chile e Uruguai, e elevou tarifas para reprimir consumo de energia, provocando insatisfação doméstica.
Aqui, o problema é o desestímulo para obras de geração de energia por causa de outras dificuldades, como o acesso aos "combustíveis" (gás importado e água). Para a geração hidrelétrica, há necessidade de aprovação dos órgãos de proteção ambiental, em processos considerados demorados pelos investidores. Segundo boletim de fiscalização da Aneel de abril, dos 40,8 mil megawatts programados até 2008, 30,4 mil megawatts apresentam algum tipo de pendência nessa área. Por causa de pendências ambientais, a EDP Brasil e a Vale do Rio Doce, por exemplo, já desistiram de tocar o projeto de duas hidrelétricas, cujas capacidades, somadas, chegariam a 1.150 megawatts.
Para a geração térmica, é preciso criar um mecanismo que impeça o repasse imediato das altas do gás trazido da Bolívia para as tarifas e, ao mesmo tempo, assegure ao gerador a receita necessária para cobrir os custos de geração. Na montagem desse mecanismo, o governo brasileiro está proibido de absorver o prejuízo cambial, pois precisa cumprir metas fiscais com o Fundo Monetário Internacional.
0 Ministério de Minas e Energia quer divulgar o primeiro desenho da proposta de política de gás natural até final de julho, juntamente com a regulamentação das novas regras para geração, distribuição e transmissão de energia. Os documentos que abordariam o livre acesso aos gasodutos, a cessão de capacidade e o critério tarifário não serão mais publicados pelas Agência Nacional de Petróleo, pois havia temor de que mudanças seriam necessárias após a apresentação do marco regulatório do gás. Enquanto as regras não vêm, o apetite do investidor permanece modesto. No Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, há R$ 7 bilhões para financiamentos ao setor elétrico em 2004, mas de 10% foram emprestados.

A origem da expressão
A expressão efeito Orloff nasceu de um comercial de vodka em que um homem, ao se olhar no espelho, vê sua face com uma expressão horrível. 0 reflexo afirma: "Eu sou você amanhã". Era o aviso para que o consumidor bebesse apenas vodka de qualidade para não sofrer com ressaca. O bordão foi criado pelo publicitário Jacques Lewkowicz. Como Brasil e Argentina apresentaram situações parecidas no campo econômico, os especialistas vislumbraram a existência do efeito Orloff: o que acontece no Brasil acontece na Argentina e vice-versa. Foi assim com o Plano Austral, que foi a inspiração do Cruzado brasileiro, e com o Plano Cavallo, que, adaptado, virou o Plano Real.

Crise pode retardar recuperação econômica
Os fundamentos macroeconômicas da economia argentina estão ameaçados por causa da crise energética, pois o aumento de custos tende a encarecer todos os produtos. Se isso ocorrer, consumo, produção e nível de emprego são travados, impedindo o PIB deste ano de crescer os previstos 5,5%. 0 governo também sai perdendo, pois haverá menos tributos a recolher, o que pode comprometer as metas de superávit fiscal e as próprias negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Esses problemas também ocorreram no Brasil durante o racionamento de 2001-2002 e são fantasmas que assombram o setor elétrico em 2007. "Há indícios de uma crise, embora não se saiba exatamente quando. Pode não ser um racionamento lá por 2009 ou 2001, mas algo terá que ser feito porque haverá escassez", avalia Paulo Ludmer, diretor executivo da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia (Abrace).
Na Argentina, assim como no Brasil, os projetos em energia foram paralisados à medida que o risco aumentava. Os investimentos em transporte de gás na Argentina foram escasseando nos últimos oitos anos conforme ficava claro aos agentes de mercado que a paridade peso-dólar era uma bomba-relógio insustentável. A deterioração da economia, em um cenário com índices elevados de desemprego, retração no consumo e desaceleração industrial, estimulou a concentração em um negócio mais seguro, cotado em dólar: a exportação de gás natural, justamente o combustível das usinas térmicas que fornecem parte substancial da energia consumida na Argentina.
Após o desmanche do sistema de paridade peso-dólar, em 2002, o país recuperou parte do tempo perdido. Em 2003, registrou crescimento de 8,5% no Produto Interno Bruto. A produção de gás cresceu 10% em 2003, mas a demanda das usinas térmicas cresceu 44% e as indústrias consumiram 28%. A demanda de energia elétrica subiu 9,5%. Hoje, falta gás para as usinas. Para segurar o consumo, o governo adotou uma solução semelhante ao tarifaço brasileiro de 2001-2002, aumentando o preço do gás (13%), que lá é usado também em veículos. Agora, a Argentina tenta comprar até 500 megawatts do Brasil, país para o qual vendeu 1.000 megawatts durante o racionamento de 2001-2002. 0 negócio exige meticulosos acertos de preço e envolve o cálculo preciso de riscos, especialmente à região Sul do Brasil. A única forma de ajudar a Argentina é exportando energia das termelétricas do Sul, que têm como função garantir o abastecimento da região em um momento em que os reservatórios das hidrelétricas brasileiras estão baixos por causa da estiagem.
Apagão
0 Brasil pode enfrentar um novo 11apagão" em 2006 ou 2007 se a economia crescer 3% ao ano sem investimentos adequados em geração, transmissão e distribuição de energia. Estudo do corpo técnico do programa Infra 2020 da Abdib e da consultoria Alcântara Machado indica que o país precisa de pelo menos cinco mil megawatts novos ao ano para escapar de uma crise de abastecimento. Na média dos próximos cinco anos, porém, o acréscimo médio anual estimado é de 2,5 mil megawatts - metade do necessário. Segundo o estudo, o Brasil precisa investir US$ 82,3 bilhões no setor de energia elétrica até 2020 para acompanhar a demanda e garantir o crescimento da economia. São US$ 4,8 bilhões ao ano, o dobro do que iniciativa privada e governo planejam investir.
0 potencial de crescimento , de consumo, em um eventual ciclo de aceleração econômica, , é outro fator de apreensão.: Atualmente, o brasileiro consome pouca energia: enquanto na j; Noruega o gasto per capita é de 26 mil quilowatts por hora, no C Brasil chega a dois mil, abaixo até mesmo da média mundial de 2,2 mil. Historicamente, um ciclo de elevação de poder aquisitivo resulta em compra de bens duráveis que dependem de energia para funcionar, como ocorreu com geladeiras e freezers durante os primeiros quatro anos do Plano Real.
Proinfa
Há, porém, boas notícias. A chamada pública do Programa de Incentivo às Fontes Alternativas 4 de Energia Elétrica (Proinfa) recebeu projetos de geração no volume de 6,6 mil megawatts, o dobro do limite que a Eletrobrás está autorizada a contratar. Mais da metade dos projetos, 3.681,58 megawatts, foram de energia eólica. Agora, a Eletrobrás selecionará os projetos, que devem entrar em operação até dezembro de 2006. Durante a instalação, serão investidos cerca de R$ 8,6 bilhões nos empreendimentos sendo cerca de R$ 4 bilhõess de contratação de máquinas e equipamentos.

CB, 23/05/2004, p. 10

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