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Riqueza selvagem

O Globo, Ciência, p. 28
27 de Jun de 2012

Riqueza selvagem
Busca por alimentos antigos saudáveis revela maçã dez vezes mais nutritiva

Renato Grandelle
renato.grandelle@oglobo.com.br

A busca de uma dieta mais saudável fez o homem voltar no tempo. Assim como o caçador da pré-história se transformou no homem moderno, é possível que as plantas de milhares de anos atrás também tenham passado por mudanças. Esta hipótese é investigada por uma pesquisa internacional, que já revelou o potencial de uma antiga variedade da maçã Egremont Russet, cuja quantidade de nutrientes é dez vezes maior do que a encontrada na fruta que ingerimos atualmente. Seus benefícios à saúde, no entanto, não a fizeram popular na indústria moderna, que preferiu apostar em variedades de plantas mais produtivas por hectare.
Novas vitaminas e bebidas a caminho
A Egremont selvagem pode não ter sido o único alimento de alto valor nutricional preterido nos últimos séculos. A pesquisa é liderada pela Unilever em colaboração com o Royal Botanic Gardens e com a Universidade de Cranfield, da Inglaterra. Os cientistas procuram outras variedades de plantas antigas e naturalmente nutritivas. A busca vai durar três anos e abrangerá, além das maçãs, bananas, cebolas, mangas e chás. Há, portanto, representantes de vegetais de clima tropical e temperado.
- Há dez vezes mais floridzina na Egremont do que em variedades modernas de maçãs. Este nutriente afeta a transferência de açúcar do sistema digestivo para o sangue e está ligado ao acúmulo de energia - explica Mark Berry, cientista sênior da Unilever. - Acreditamos que este pode ser apenas um exemplo de um fenômeno mais abrangente. Muitas das variedades estão disponíveis, mas atualmente são subutilizadas. Queremos encontrar exemplos desses cultivos em várias partes do mundo.
Berry reconhece que é cedo para dizer se o plantio das variedades investigadas pelos pesquisadores será economicamente viável. As instituições envolvidas na pesquisa, porém, são ambiciosas. De suas técnicas de bioanálise podem sair novos produtos.
- Se esse estudo identificar plantas atualmente subutilizadas que ofereçam benefícios claros para saúde e nutrição, é provável que elas sejam aplicadas, no futuro, em alimentos e bebidas - revela Berry. - Quando o projeto estiver mais avançado, criaremos protótipos de produtos, como vitaminas, bebidas ou barras nutritivas. Assim, avaliaremos o apelo entre os consumidores, além de atributos como sabor e gosto.
Houve, especialmente nas últimas décadas, um esforço do setor de agronegócios em busca de rendimento - ou seja, cultivar plantas que produzam mais em termos de peso por hectare de terra. Não é, para a saúde, o melhor critério. Afinal, às vezes o peso adicional de uma fruta consiste apenas em água, e não em outros nutrientes.
A prioridade ao rendimento e à aparência fizeram com que alguns nutrientes se perdessem acidentalmente. Como estes requisitos eram inexistentes milhares de anos atrás, hoje há diversos grupos de pesquisa convictos de que o homem, durante sua evolução, distanciou-se da dieta mais apropriada para ele.
- É fascinante pensar que nossos antepassados podem ter se alimentado de forma mais saudável do que a maioria dos seres humanos da atualidade - ressalta Berry. - A dieta do caçador da pré-história seria a mais compatível com nossa fisiologia. Mas são necessários mais estudos clínicos para explorar esta teoria.
Além da redescoberta de variedades selvagens, o levantamento promete analisar as implicações da perda de diversidade na concentração de nutrientes dos alimentos mais consumidos em todo o mundo. O Royal Botanic Gardens investiga como a domesticação das plantas alterou seu valor nutritivo.

O Globo, 27/06/2012, Ciência, p. 28

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