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Riqueza ambiental ameaçada

CB, Ciência, p. 20
17 de fev de 2010

Riqueza ambiental ameaçada

Cristina Andrade

Criada há quatro anos para estabelecer metas e definir os principais locais do país a receberem investimentos, a Aliança Brasileira para Extinção Zero (B.A.Z.E.) está prestes a divulgar levantamento no qual indicará áreas que abrigam espécies únicas de animais ameaçados de extinção e que exigem atenção. O anúncio vem em boa hora: a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2010 o ano da biodiversidade e pretende não apenas ampliar a discussão sobre a conservação da diversidade biológica no mundo, mas rever metas de conservação estabelecidas na Rio Eco 1992, além de verificar o que foi feito pelas nações nesses 18 anos. Um encontro que vai reunir especialistas de todo o mundo e representantes dos países signatários da Convenção da Diversidade Biológica está marcado para outubro, em Nagoya, no Japão, e promete chamar a atenção para o problema, aprofundando a discussão e apontando soluções.

Composta por várias instituições governamentais e não governamentais, a B.A.Z.E.

usou metodologia internacional e o Livro vermelho da fauna ameaçada de extinção, de 2008, para fazer a escolha dos locais. Entre os objetivos, está o de proteger espécies da fauna que ocorrem em uma única localidade, com reduzido número de indivíduos.

Exemplo disso é o entufão-baiano (Merulaxis stresemanni), descoberto no Norte de Minas Gerais, na localidade de Bandeira.

Endêmico da Mata Atlântica, o pássaro tem sua última população nessa área do estado, que está em processo de transformação em reserva particular do patrimônio natural (RPPN) da organização não governamental Biodiversitas.

A compra do terreno para proteção é uma ação similar a outras previstas pela aliança em diferentes regiões do país. "Esse tipo de ação é o que estamos prevendo que ocorra, com apoio dos integrantes da aliança, como o Ministério do Meio Ambiente (MMA). Conseguimos adquirir a área para fazer o trabalho de preservação e conservação da espécie com a ajuda da American Bird Conservancy", diz a superintendente técnica da Biodiversitas, a bióloga Gláucia Drummond.

Um caso de sucesso de conservação que já dura 15 anos é uma área protegida pela ONG, em parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em Canudos (BA).

Lá, havia 50 araras-azul-de-lear, que estavam criticamente em perigo. Nesse trabalho, foi possível fazer com que a espécie voltasse a viver em seu habitat sem tantos conflitos. Hoje, a população de aves soma mais de mil indivíduos. "Esse é um resultado emblemático. A arara-azul-de-lear está em perigo, mas teve um aumento significativo em sua população e melhorou sua condição de conservação", acrescenta Gláucia.

Conscientização Para o biólogo da ONG Conservação Internacional Adriano Paglia, o ano da biodiversidade estabelecido pela ONU é importante, pois vai permitir que haja uma discussão direcionada sobre o tema. Segundo ele, nos últimos anos houve um debate importante sobre as mudanças climáticas, mas "a biodiversidade no planeta vem se erodindo de maneira mais palpável e preocupante".

"Acho importante para provocar essa conscientização geral e rever o que foi acordado em 1992, no encontro no Rio de Janeiro.

É importante avaliar o que foi proposto, o que de fato foi feito e em que podemos melhorar. Além disso, vamos avaliar o status de conservação da fauna e da flora, usando as listas oficiais. O Brasil tem uma lista polêmica. Na da flora, foram levantadas por pesquisadores 1,5 mil espécies em risco de extinção, embora o MMA tenha reconhecido apenas cerca de 500. Outro objetivo mais ambicioso que vejo com esse debate é reduzir os números de ameaças de extinção, pois muito pouco tem sido feito nesse sentido", diz Paglia.

Outra questão importante levantada pelo biólogo são os ataques sistemáticos à legislação ambiental brasileira. "A discussão do novo Código Florestal é fundamental, mas ela está colocada de uma forma complicada, pois é perigoso reduzir áreas de preservação permanente e transferir aos estados a responsabilidade, que hoje é da União, de definir a porcentagem de reserva legal a ser feita em cada propriedade.

É preciso diálogo entre os setores ambiental e produtivo. O que não pode é radicalização de opinião nem lobby muito forte, pois os danos poderão ser muito grandes", acrescenta.

Para saber mais
Pela preservação

As listas vermelhas são documentos que indicam as espécies ameaçadas de extinção e formam importante instrumento de política ambiental, pois possibilitam o estabelecimento de programas prioritários para a proteção da biodiversidade. As informações desses documentos fornecem subsídios para a formulação de políticas de fiscalização, criação de unidades de conservação e definição sobre a aplicação de recursos técnicos, científicos, humanos e financeiros em estratégias de recuperação da fauna ameaçada.

Para se ter uma ideia da lista sobre a fauna no Brasil, 627 espécies foram classificadas em uma das três categorias de ameaça (criticamente em perigo, em perigo e vulnerável).Os vertebrados somam 67% do total de espécies indicadas, englobando 13% das espécies brasileiras de mamíferos.

A Mata Atlântica é o bioma que apresenta maior número de espécies ameaçadas ou extintas, com 383, seguida pelo cerrado (112), bioma marinho (92), campos sulinos (60),Amazônia (58), caatinga (43) e pantanal (30). Isso significa que, em conjunto, Mata Atlântica e cerrado respondem por mais de 78% das espécies da lista.

No trabalho de listar as espécies ameaçadas no Brasil, a Fundação Biodiversitas indicou ainda, com a ajuda de 300 pesquisadores e especialistas do país, 1.495 plantas. O Ministério do Meio Ambiente, porém, só reconheceu 472. Os critérios usados seguiram a IUCN (sigla em inglês para União Internacional de Conservação da Natureza).

Devastação tem consequência direta para o homem
Para o biólogo da Conservação Internacional Adriano Paglia, debater biodiversidade em 2010 vai ser positivo.

"Acho que precisamos discutir para que serve a biodiversidade, qual é a consequência para o ser humano quando uma espécie desaparece ou uma floresta é derrubada. Se uma árvore ou floresta protegia nascentes, a garantia de qualidade microclimática naquela área vai ser comprometida, assim como os serviços ambientais que a natureza fornece ao homem, como madeira para fazer móveis ou plantas para medicamentos. Se insetos polinizadores desaparecem, por pressão em seu habitat, o impacto disso sobre a produção agrícola vai ser negativo e, consequentemente, há perda econômica. Por isso o debate é tão importante", diz.

Como a agenda proposta pela ONU é internacional, Gláucia Drummond, da Biodiversitas, acredita que a tomada de decisões seja mais efetiva. Ela explica que a Convenção da Diversidade Biológica estabeleceu a data de 2010 para que fossem avaliadas as metas colocadas lá atrás, com a análise baseada em um tripé: conservação, desenvolvimento sustentável e repartição de benefícios. Mas, de acordo com Gláucia, há muitos gargalos na execução da proposta.

"São dificuldades de implantação, principalmente no que diz respeito à repartição dos benefícios da biodiversidade.

Se há uma área protegida, que fornece ampla vantagem para favorecer a qualidade de vida de determinada comunidade, como incentivar a manutenção dessas áreas? Como fazer com que sejam mantidas, como usar os recursos naturais da flora e da fauna sem degradá-los e ajudando as comunidades locais a ter fonte de renda? Como repartir isso para quem é beneficiado apenas ou para quem protege? Ainda não conseguimos uma organização clara do funcionamento disso, a não ser em caso de grandes empresas que já desenvolvem alguns projetos", pontua.

Questionada sobre a disseminação de informações no Brasil sobre as listas vermelhas e sobre a importância da biodiversidade, Gláucia diz que ainda é preciso fazer mais. "A população, de maneira geral, tem pouca informação, mas algo positivo está ocorrendo, que é o fato de os ministérios do Meio Ambiente e da Educação aprovarem, recentemente, a publicação de 30 mil unidades do Livro vermelho da fauna ameaçada de extinção. Eles vão chegar às escolas de ensino médio, aos estudantes.

A formação de redes de mobilização nas comunidades, para conhecer a realidade e cobrar ações efetivas de seus governos, é muito importante para esse trabalho." (CA)

CB, 17/02/2010, Ciência, p. 20

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