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Rio São Francisco: sonho de um povo que quer água também

O Tempo - https://www.otempo.com.br/
18 de Abr de 2023

Rio São Francisco: sonho de um povo que quer água também
Xakriabá lutam por homologação de 43 mil hectares para poderem viver às margens do Velho Chico

POR QUEILA ARIADNE
PUBLICADO EM 18 DE ABRIL DE 2023 | 06H00

Quem descobriu o Brasil? A resposta que costuma vir tão automaticamente não traduz a realidade indígena. "Na escola, a gente era obrigado a dizer que foi Pedro Álvares Cabral, senão perdia ponto. Mas percebemos que estava errada era a pergunta, que deveria ser: 'Quem invadiu o Brasil?'", questiona o cacique do povo Xakriabá Domingos Nunes de Oliveira, 49. Ele lembra que, quando os colonizadores chegaram, os indígenas já estavam lá. E, desde então, vêm sendo obrigados a lutar pela própria terra. E pela água também.

É que, ao longo de séculos, os Xakriabá foram sendo expulsos das margens do rio São Francisco e, agora, lutam para retomar a área que lhes foi tirada por fazendeiros, grileiros e posseiros no Norte de Minas.

"O sonho da gente não é só a terra. É a água também. Hoje, só temos uma nascente aqui dentro, sendo que temos o rio São Francisco limitando com o território. É onde está nossa reivindicação", ressalta o cacique Xakriabá João Batista dos Santos, 63, que representa as aldeias Vargem Grande e Caraíbas, em Itacarambi.

Agora, a esperança de reaver esse pedaço de terra, e também da água, aumenta. O Ministério dos Povos Indígenas (MPI) já anunciou um pacote de homologação de 14 terras indígenas para este mês de abril. Nenhuma é em Minas, mas a ministra da pasta, Sonia Guajajara, sinalizou que em breve haverá uma nova rodada de homologações. "Sobre as demais terras a serem demarcadas além dessas, reiteramos que a demarcação de terras é uma das prioridades deste ministério, então há, sim, a intenção de demarcar outros territórios, porém, quando apropriado, divulgaremos quando e quais serão essas terras", informou o MPI, por meio de nota.

Luta constante
O massacre de 1987, com os assassinatos de Rosalino Gomes e de outras duas lideranças, é um marco para a conquista territorial Xakriabá. No entanto, os conflitos começaram muito antes. No século XVIII, os bandeirantes avançaram sobre terras indígenas.

Segundo pesquisa histórica do Instituto Socioambiental (ISA), eles foram aldeados, forçados a falar português e a seguir os costumes europeus. Nessa época, Januário Cardoso de Almeida, filho de Matias Cardoso, doou uma terra para garantir que os Xakriabá não se espalhassem. A doação foi registrada em dois cartórios: o de Januária e o de Ouro Preto. Em 1850, a legislação mudou, e as terras voltaram a ser devolutas.

Os indígenas, mais uma vez, foram expulsos. Mas nunca deixaram de lutar. Em 1979, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) demarcou o território. Mesmo com a posse reconhecida, não era possível obrigar os fazendeiros a deixar as terras, pois não tinham homologação. Ela só veio oito anos depois, mas só reconheceu 46.415 hectares nos arredores da aldeia onde aconteceu o massacre, hoje chamada Itapicuru. Isso é menos da metade da área de direito. Em 1995, foram reconhecidos mais 6.798 hectares, regularizando a Aldeia Tenda Rancharia, cuja homologação veio em 2000. Faltam 43.357 hectares a serem homologados. São eles que levarão os Xakriabá de volta às margens do São Francisco.

"Nós sempre estivemos neste espaço. Com as invasões, nosso povo foi sendo dizimado, e foram tirando a gente dos lugares mais férteis. Em 1728, com a doação, as terras foram delimitadas, mas isso aconteceu só para não deixar que os indígenas saíssem para fazendas alheias. Depois os fazendeiros continuaram invadindo. Em 1969, já tinha uma grande luta pela demarcação. Cacique Rodrigão e meu pai saíram em busca de soluções. Em 1985 e 1986, as brigas foram acirradas. Até que veio o massacre em 1987", lembra Domingos.

Quase 40 anos depois da chacina, a população Xakriabá cresceu. "Hoje somos mais de 12 mil indígenas lutando para sobreviver. Mas, sem um território capaz de dar um suporte para isso, fica inviável manter nossa cultura, nossas tradições. E sem água a gente não consegue sobreviver", afirma o cacique.

Segundo pesquisa histórica do Instituto Socioambiental (ISA), eles foram aldeados, forçados a falar português e a seguir os costumes europeus. Nessa época, Januário Cardoso de Almeida, filho de Matias Cardoso, doou uma terra para garantir que os Xakriabá não se espalhassem. A doação foi registrada em dois cartórios: o de Januária e o de Ouro Preto. Em 1850, a legislação mudou, e as terras voltaram a ser devolutas.

Os indígenas, mais uma vez, foram expulsos. Mas nunca deixaram de lutar. Em 1979, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) demarcou o território. Mesmo com a posse reconhecida, não era possível obrigar os fazendeiros a deixar as terras, pois não tinham homologação. Ela só veio oito anos depois, mas só reconheceu 46.415 hectares nos arredores da aldeia onde aconteceu o massacre, hoje chamada Itapicuru. Isso é menos da metade da área de direito. Em 1995, foram reconhecidos mais 6.798 hectares, regularizando a Aldeia Tenda Rancharia, cuja homologação veio em 2000. Faltam 43.357 hectares a serem homologados. São eles que levarão os Xakriabá de volta às margens do São Francisco.

"Nós sempre estivemos neste espaço. Com as invasões, nosso povo foi sendo dizimado, e foram tirando a gente dos lugares mais férteis. Em 1728, com a doação, as terras foram delimitadas, mas isso aconteceu só para não deixar que os indígenas saíssem para fazendas alheias. Depois os fazendeiros continuaram invadindo. Em 1969, já tinha uma grande luta pela demarcação. Cacique Rodrigão e meu pai saíram em busca de soluções. Em 1985 e 1986, as brigas foram acirradas. Até que veio o massacre em 1987", lembra Domingos.

Quase 40 anos depois da chacina, a população Xakriabá cresceu. "Hoje somos mais de 12 mil indígenas lutando para sobreviver. Mas, sem um território capaz de dar um suporte para isso, fica inviável manter nossa cultura, nossas tradições. E sem água a gente não consegue sobreviver", afirma o cacique.

https://www.otempo.com.br/especiais/indigenas-de-minas-vozes-e-faces/xa…

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