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Rio aposta em um novo ciclo da borracha

O Globo, Economia, p. 38
16 de Jan de 2005

Rio aposta em um novo ciclo da borracha
Estado tem 260 hectares em 18 seringais prontos para produzir. Governo e Firjan investem em revitalização

O Rio está apostando em um novo ciclo da borracha. Um levantamento feito pela Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro (Pesagro-Rio), órgão do governo do estado, identificou a existência de 18 seringais em diferentes regiões, prontos para produzir borracha para a indústria de pneus e produtos cirúrgicos, entre outros setores. O potencial do estado, que oferece condições climáticas favoráveis à cultura, estimulou a criação de um projeto, patrocinado pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), que visa à plantação de novos seringais.
- No Rio há 260 hectares plantados e não utilizados. São 110 mil árvores prontas para produzir e que podem gerar 30 toneladas de borracha por mês. Procurei a cooperação da Faperj, que destinou R$400 mil à criação de um centro de referência em Silva Jardim, onde já foi implantado um viveiro para a produção de mudas de alta produtividade e um jardim clonal (de clones de plantas) com material genético de espécies asiáticas e sul-americanas para melhoramento da heveicultura (cultura de seringueiras) no estado - explica Mário Ramos, vice-presidente da Firjan e idealizador do projeto.
Segundo ele, o Brasil consome 300 mil toneladas anuais de borracha, mas produz apenas cem mil em 220 mil hectares em condições de extração. O país paga por ano US$240 milhões na importação do produto natural e sintético. São Paulo lidera a produção brasileira, com 50% do total, seguido de Mato Grosso, Bahia, Espírito Santo e Minas Gerais. O quilo da borracha brasileira vale hoje cerca de R$4, preço considerado bom pelos produtores.
- O projeto para o Rio é de longo prazo, já que é necessário esperar sete anos, do plantio à produção. Cada árvore produz, em média, durante 28 anos, e depois disso a madeira é usada na fabricação de móveis. Além disso, é uma cultura que não agride o solo - diz Ramos.
Fazendeiro tem 22 mil árvores sem produção
O objetivo do programa é, inicialmente, atender às 25 pequenas e médias indústrias do setor de transformação nas áreas cirúrgica e petrolífera do estado e a grandes empresas do segmento de pneus como a Michelin, que tem fábrica no Rio.
Ex-piloto de aeronaves, Rivadávia Torres da Silva deixou o emprego e a vida urbana nos anos 80 com o sonho de se tornar um homem do campo. Comprou uma fazenda de 160 hectares em Vargem Grande, distrito de Silva Jardim, hoje uma das 18 áreas identificadas na pesquisa da Pesagro. Plantou 22 mil mudas de seringueira que nunca foram exploradas.
Ele é um dos órfãos do Programa de Incentivo à Produção de Borracha Vegetal (Probor), do governo federal, iniciado nos anos 70 e que acabou por falta de recursos. O Probor foi lançado com a promessa do plantio de 350 mil hectares em todo o Brasil, uma espécie de reedição do ciclo da borracha, que movimentou o país no fim do século XIX e princípio do século XX. Mas a escassez na liberação dos recursos e a extinção da Superintendência da Borracha (Sudhevea), entidade encarregada de prover o Probor, deixou gente como Rivadávia com um tesouro improdutivo.
- Nunca sangrei as seringueiras e tive que recorrer ao plantio de bananas e à criação de coelhos para laboratórios para sobreviver. Depois de 20 anos, quero acreditar que vai dar certo -- diz Rivadávia.

O pesquisador da Pesagro Aldo Bezerra está otimista e diz que o Rio tem potencial para ser um grande produtor:

- Empresas e pessoas físicas já estão interessadas. As regiões Norte, Noroeste e Centro-Sul fluminense são áreas próprias para o cultivo. Há também o interesse de empresas de São Paulo que querem comprar terras no estado para plantar seringais e, posteriormente, abrir fábricas de processamento da borracha por aqui.

Produção garante renda de R$5 mil anuais por hectare

Por enquanto não há programa de financiamento para o plantio, mas Aldo acredita que é uma questão de tempo. Hoje, o custo de implantação de um hectare de seringueira gira em torno de R$4 mil, sendo necessários outros R$4 mil para a manutenção até o sexto ano da cultura. No sétimo ano começa a sangria, e até o nono só há o retorno do investimento. A partir do sétimo ano, cada hectare produz 1.500 quilos de borracha natural, com renda de R$5 mil por hectare ao ano.

Curso ensinará produtor a sangrar árvores
Aulas serão em Silva Jardim
A partir de amanhã o centro de referência do projeto de revitalização de seringais, em Silva Jardim, vai se transformar em uma sala de aula ao ar livre. Trabalhadores rurais e produtores vão participar do primeiro curso de capacitação de sangria em seringueira do estado. Segundo Aldo Bezerra, pesquisador da Pesagro e coordenador do curso, grande parte das aulas será prática, e o objetivo é formar 16 profissionais na primeira turma.
- Os trabalhadores rurais vão aprender a técnica de sangramento da seringueira, a marcação das árvores, coleta e acondicionamento da produção e o uso correto de produtos químicos. É uma mão-de-obra especializada e necessária para dar início ao processo de revitalização do setor no Estado do Rio.
Segundo Bezerra, um trabalhador capacitado pode ganhar de R$700 a R$900 por mês. O trabalho em geral é pago com salário fixo mais comissão por produção.

O Globo, 16/01/2005, Economia, p. 38

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