CB, Mundo, p. 20
04 de Abr de 2007
Ricos vão sofrer menos
Cientistas e economistas dos EUA admitem que nações pobres serão as mais prejudicadas. Desertificação pode provocar êxodo de africanos
Rodrigo Craveiro
Da equipe do Correio
O aquecimento global segue uma lógica cruel e desumana: os mais pobres pagarão caro pelos erros e pela inércia dos mais ricos. A conclusão é de uma análise produzida por economistas e cientistas norte-americanos da Universidade de Yale, do Banco Mundial e do Instituto de Pesquisas sobre Energia Elétrica. O documento, publicado a apenas três dias da divulgação do terceiro relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), prevê que metade das nações mais miseráveis do mundo sofrerá os principais danos provocados pelo aquecimento global. As pessoas mais vulneráveis vivem em países que podem se gabar de pouco terem contribuído para a emissão de dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa.
Robert Mendelsohn, economista da Universidade de Yale de Florestas e Estudos Ambientais, afirmou ao Correio que nações localizadas em baixas latitudes serão mais impactadas. Isso porque, por serem muito quentes, elas experimentarão um aquecimento imediato. "Os países mais frios não sofrerão danos, até que suas temperaturas aumentem", explicou um dos autores do estudo. "As nações mais ricas deveriam ter maior responsabilidade por suas ações. Mas isso é possível?", questionou. Segundo o relatório, os países industrializados são mais resistentes por sua posição geográfica - a maioria está nas regiões de latitude média, com clima nem tão quente nem tão frio. A tese confirma que os maiores poluidores do planeta, situados no Hemisfério Norte, sofrerão conseqüências menos drásticas.
A questão geográfica é recebido com ceticismo pelo neozelandês Kevin Trenberth, chefe do Departamento de Análise Climática do Centro Nacional para Pesquisa Atmosférica e autor do primeiro relatório do IPCC - publicado em 1991. Para ele, a destruição provocada pelo furacão Katrina no sul dos EUA e pela onda de calor na Europa, ambos em 2003, contrariam essa tese. "Foram os piores efeitos do aquecimento global já registrados pela ciência", lembrou.
Trenberth concorda que os pobres pagarão o preço da agressão ambiental por parte dos países ricos. "Isso já vem ocorrendo", alertou. "Podemos admitir que a seca na África é provocada pelas mudanças climáticas, causadas em grande parte pelas nações ocidentais", exemplificou. O cientista neozelandês defende uma contribuição efetiva dos mais poluidores para se reduzir a emissão de gases. No entanto, Trenberth vê os interesses próprios como principais entraves a um mecanismo de contenção do aquecimento. "O fenômeno é global e um país jamais poderá consertá-lo sozinho."
Derrota
Os Estados Unidos, maiores poluidores do mundo, acenam com uma mudança de retórica. O presidente George W. Bush afirmou ontem que encara o aquecimento global com seriedade. "Levo muito a sério este problema. Disse que era um problema grave. Reconheci que o homem contribuía para os gases de efeito estufa", disse. A declaração foi uma resposta à derrota imposta ao governo pela Suprema Corte na noite de segunda-feira. A máxima instância judiciária norte-americana determinou que a Agência de Proteção Ambiental (EPA, pela sigla em inglês) deveria considerar os gases como poluentes e se ocupar do tema. "A decisão da Suprema Corte simplesmente aceitou que os gases de efeito estufa são poluentes e podem ser regulados. Incrivelmente, quatro de nove juízes discordaram", comentou Mendelsohn.
As previsões relacionadas ao aquecimento global são cada vez mais catastróficas. Segundo Sherif Rahmani, ministro argelino do Desenvolvimento, a desertificação na África obrigará 65 milhões de africanos a buscar refúgio em países ocidentais nos próximos 18 anos. "Até 2025, 65 milhões de refugiados baterão às portas do Ocidente, empurrados pela desertificação", admitiu. Por sua vez, o relatório do IPCC afirmará que as mudanças climáticas colocarão em risco a existência de várias espécies da fauna e da flor, como corais e ursos polares. "É muito provável que a mudança climática signifique a extinção de várias espécies e uma redução da biodiversidade dos ecossistemas", segundo o rascunho do relatório obtido pela agência France-Presse.
Brasileiros preocupados
Mais de dois terços da população mundial (68%) estão incomodados com o aquecimento global, de acordo com uma pesquisa de opinião divulgada ontem. A sondagem, realizada pela emissora britânica BBC World, consultou mais de 14 mil pessoas em 21 países. E comprovou que os brasileiros (87%) são os mais preocupados com a questão, seguidos pelos sul-africanos (82%). Na outra ponta do espectro de ansiedade estão os norte-americanos (dos quais 57% se preocupam com a questão) e os indianos (59%). Dois terços de todos os entrevistados acreditavam que os EUA tinham mais culpa pelo problema.
CB, 04/04/2007, Mundo, p. 20
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