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Ribeirão Preto foi berço de projeto de intercâmbio entre crianças xavantes e famílias paulistas

G1 - https://g1.globo.com
31 de ago de 2019

A "Estratégia Xavante" viabilizou união entre famílias do interior e meninos de tribo do Mato Grosso. Quando adultos, voltaram para as aldeias para liderar tribos.

A relação entre os povos indígenas e os moradores de outras partes do Brasil se mantém há centenas de anos, mas, na década de 1980, o líder xavante Cacique Apoena, da Aldeia Pimentel Barbosa (MT), pôs em prática uma estratégia para preparar os futuros líderes a lidar com os costumes e complexidades da convivência com os brasileiros de outras regiões do país.

Oito crianças foram enviadas para Ribeirão Preto (SP), entre elas, os netos do cacique.

Na cidade, além de conhecer o " mundo novo", elas foram adotadas por famílias, muitas delas se deslocavam frequentemente ao Mato Grosso (MT) para pescarias.

Desta relação surgiu uma amizade entre os povos, que viabilizou o projeto de preparar as crianças para retornar às tribos, quando fossem adultas e preparadas para liderança.

A história da "Estratégia Xavante" é contada no primeiro episódio do especial "Nossa Gente", da EPTV, que completa 40 anos em 2019.

O especial mostra as diferentes origens da população da área de cobertura do grupo no interior de São Paulo e no Sul de Minas Gerais.

As reportagens exibidas até setembro retratam a miscigenação representada pelos indígenas, imigrantes, negros e caipiras.

O início

Em Ribeirão Preto, os meninos xavantes ficaram conhecidos como "Os meninos de Ribeirão Preto". A chegada deles foi destaque nos telejornais da EPTV na época.

Hoje, os índios que participaram do intercâmbio são líderes de 16 aldeias. Sobre o aprendizado do programa "Estratégia Xavante", o líder Jurandir Siridiwê disse não ter dúvidas sobre os ganhos para toda a comunidade.

"Sim, estaríamos muito vulneráveis, não entenderíamos a artimanha de fora", aponta.

O empresário Sérgio Fofanoff, já falecido, foi uma das pessoas que adotou um indígena para participar do programa.

Ele adotou Tsetetó, que passou a ser tratado como se fosse filho dele. O menino ainda ganhou um irmão na cidade grande. Hoje, o empresário e cavaleiro Serguei Fofanoff Guega lembra do tempo em que dividia a casa com o irmão indígena.

" Foi uma convivência de 20 anos como irmão mesmo. Até quando nós éramos pequenininhos minha mãe comprava roupas iguais para a gente, como irmãos gêmeos", lembra Guega.

O empresário, que também é cavaleiro e foi medalhista olímpico de ouro pelo Brasil, frequenta anualmente a aldeia onde está o irmão.

Uma das lembranças mais marcantes da convivência com os indígenas foi na aldeia, ainda criança, quando acampou com cerca de 300 índios às margens do Rio das Mortes, no Mato Grosso.

"Os índios, tudo criancinha, acordavam cantando na beira do Rio das Mortes, que tem um barranco muito alto. Aquele barranco dava um eco muito alto na mata. Nosso despertador era os índios cantando", lembra.

Para Tsetetó, a experiência em Ribeirão Preto foi muito rica. "Foi muita informação. Foi por isso que a gente está aqui até hoje. O sentimento não importa a distância que tá, mas sempre estamos juntos espiritualmente", disse o indígena.

Outro pai adotivo de crianças da aldeia do Mato Grosso foi Carlos Augusto Manço, desenhista aposentado da Universidade de São Paulo (USP) e pintor nas horas vagas.

Ele adotou dois meninos. Para ele, a experiência entre os povos foi positiva, mas revela alguns dilemas.

Depois da convivência, os indígenas passaram a lavar roupa nas margens dos rios, que podem levar poluição.

O casal Roberto Oliveira e Vilma de Oliveira também adotaram uma criança. O Canãbre Siware. O menino aprendeu rapidamente a língua portuguesa e acabou se integrando mais rápido na escola em Ribeirão. O garoto apareceu em muitas reportagens da EPTV ao longo dos anos. Em uma delas, no Dia do Índio, comentou o que gostaria de ganhar como presente.

"Mais respeito para os índios, e procurar saber mais o que eles são na verdade", disse.

Assim que se formou no curso técnico de enfermagem, Canãbre estava pronto para se tornar cacique na aldeia. Porém, ele faleceu em um acidente durante uma caçada na aldeia.

Mas a história do casal de Ribeirão com os índios não parou por aí. Eles se tornaram avós adotivos. Eles levaram para Ribeirão Preto os dois filhos de Canãbre. Chegaram ao interior Paulista Siwari e Canãbre, que recebeu o mesmo nome do pai.

"A nossa família só existe por causa deles", disse Vilma.

Os dois indígenas já retornaram para a aldeia no Mato Grosso, onde convivem com energia elétrica, posto de saúde, sala de aulas e a tradição do arroz socado por mulheres. A aldeia ainda tem roda de confraternização entre índios, corridas de buriti- o esporte em que os índios carregam toras de buriti-, e o futebol. O celular está cada vez mais presente.

Sobre a prática dos costumes de outros povos não indígenas, como o uso dos smartphones, o cacique Jurandir Siridiwê pondera. "Não tem limites".

Já os filhos de Canãbre, que podem ser tornar caciques em breve, dizem que a convivência no interior paulista deram a eles boas experiências.

Eles explicam que gostariam de ensinar aos amigos e familiares a serem mais pontuais e organizados

https://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2019/08/31/ribeir…

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