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A revolução verde

Veja, Ambiente, p. 84-89
09 de Fev de 2005

A revolução verde
Em muitos países, o meio ambiente está obtendo vitórias e a área de florestas, em vez de diminuir, cresce sem parar

Ronaldo França

O desmatamento continua sendo o grande vilão do meio ambiente no mundo. Ele arranca 15 milhões de hectares de florestas por ano - uma área igual a cinco vezes o tamanho da Bélgica. Menos árvores significam graves danos ambientais, como diminuição dos mananciais de água, inundações, deslizamentos de encostas e aumento da temperatura global. Um sexto do estrago ocorre no Brasil, onde o ritmo da derrubada de árvores na Amazônia se acelerou nos últimos três anos. Em 2004 foram ceifados 2,3 milhões de hectares de floresta. Por ser um problema crônico, que se repete apesar da grita da sociedade, a impressão que se tem é a de que a devastação é inevitável, um caso quase sem solução. Mas, felizmente, não é bem assim. As florestas voltaram a crescer em vários países. Como é um movimento lento, que ocorreu, na maioria dos casos, ao longo do último século, não foi alardeado. Mas os dados não mentem. Países como França, Portugal, Alemanha, Reino Unido e Polônia estão recuperando sua cobertura florestal em um processo consistente. E o mais animador é que a recuperação da área verde não é resultado de privação do uso da floresta e de seus produtos. Ao contrário. O que está ocorrendo é a descoberta de que quando se conjuga uma ação governamental sólida com a economia se tem uma eficiente arma contra o desmatamento.
Há casos de completa restauração. No início do século XIX, a Suécia estava devastada. Restava apenas o solo pedregoso. Hoje tem 74% do território coberto por matas. Nos últimos quarenta anos, vários países conseguiram expandir suas florestas. No Reino Unido, esse crescimento foi de 62%. Em Portugal, de 80%. Na França, de 32%. Os números são da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que mantém o mais abrangente banco de dados sobre o assunto. "O desenvolvimento da atividade econômica é um dos fatores que mais influenciam o reflorestamento nos países europeus", confirma o diretor de florestas do Ministério do Meio Ambiente, Tasso de Azevedo. Pode-se argumentar que são países cuja área florestal era reduzida e que, portanto, o crescimento não é significativo. É o que parece à primeira vista, quando se constata que o reflorestamento da França, em quarenta anos, equivale, em números absolutos, ao que o Brasil derruba em um ano e meio. Mas está errado. Primeiro, porque a recuperação das matas, seja em que medida for, é sempre uma boa notícia. A outra razão é que os países do Hemisfério Norte têm muito mais dificuldade de fazer crescer suas florestas do que os países tropicais, onde as condições climáticas favorecem o desenvolvimento das árvores.
A Europa destruiu, ao longo dos séculos, quase toda a sua cobertura vegetal. A madeira sempre foi companheira da humanidade e da civilização. Sem ela não haveria a domesticação do fogo. Também não teriam existido as grandes navegações nem os andaimes para a construção dos grandes monumentos, e não haveria muitos sobreviventes ao inverno no Hemisfério Norte. A madeira que queimou nas caldeiras foi o combustível da Revolução Industrial. Ela ainda é vital como fonte de energia no mundo inteiro. Representa 14% da matriz energética mundial. Nos países mais pobres da África, chega a 80%. Seu uso econômico não é, portanto, uma novidade. O paradoxo é que, justamente por isso, ao longo do tempo as florestas passaram a ser vistas como entrave ao desenvolvimento. Mato virou sinônimo de algo que precisa ser eliminado em nome do progresso, seja para a instalação de uma propriedade rural, seja para a fundação de uma cidade.
Essa é a idéia que começa a mudar. E por um motivo bem concreto. A madeira é uma matéria-prima que pode alcançar rentabilidade altíssima, e outros produtos florestais vêm ganhando espaço no mercado como matéria-prima para a indústria alimentar, farmacêutica ou de cosméticos - e um dos exemplos é o sucesso mundial da cadeia inglesa The Body Shop, marca-símbolo do uso politicamente correto de insumos de base florestal. Em quase todos os lugares onde ocorreu, a volta das florestas coincide com o aumento de produtividade da agricultura. A introdução de fertilizantes nas lavouras, a mecanização e o desenvolvimento da tecnologia fizeram com que a mesma quantidade de produtos fosse obtida em terrenos cada vez menores. Nas áreas agrícolas abandonadas, a mata voltou a crescer. "Basta deixar a terra em paz que a floresta retoma seu lugar", afirma Roberto Smeraldi, diretor da ONG Amigos da Terra. Esse argumento é parte da explicação do fenômeno. A crescente rentabilidade do negócio de cultivar árvores, esta, sim, uma ajuda direta da economia à natureza, é o novo e bem-vindo fator de reflorestamento e da exploração racional das florestas.
O mercado mundial de produtos florestais fatura 132 bilhões de dólares ao ano, o que o situa entre os dez principais negócios do planeta. Graças a técnicas de manejo florestal e ao incremento da tecnologia, as florestas se tornaram em vários casos extremamente lucrativas. A Alemanha, que criou a primeira escola de engenharia florestal em 1715 e inventou o conceito de manejo florestal no fim do século XIX, deu a melhor contribuição ao desenvolvimento econômico do setor. O país foi o primeiro a entender a importância de fazer a extração de madeira respeitando os limites da natureza. Ao longo do século XX, esse conceito se disseminou, na esteira da conscientização ambiental. A Finlândia é o caso mais notável de desenvolvimento comercial do setor - empenhou-se em recuperar suas florestas no século XIX, investiu em tecnologia como nenhum outro país e colheu ganhos de produtividade notáveis. Um exemplo: ao entrar na serra, a tora já foi radiografada para evitar que metais encravados na árvore, como balas atiradas por caçadores, quebrem o equipamento.
Desempenhos desse tipo não existiriam sem a mão dos governos, seja na elaboração de leis de proteção, seja na criação de mecanismos de incentivo. "Quase todos os países europeus contaram com ações governamentais", afirma Olman Serrano, do departamento de florestas da FAO. Nesse aspecto, um dos melhores exemplos é a Costa Rica. O governo adotou uma política de pagamento por serviços ambientais a quem preserva matas em suas propriedades. Uma espécie de bolsa-floresta. O país, que vinha sofrendo os efeitos da devastação acelerada, com grave risco de contaminação dos mananciais de água potável, conseguiu virar o jogo nos últimos dez anos. Ampliou em 25% o tamanho de sua floresta e se tornou um dos maiores destinos de ecoturismo na América Central. Os Estados Unidos são outro exemplo de política ambiental bem-sucedida. O país tinha 420 milhões de hectares de florestas em 1630, época em que os primeiros colonizadores ali chegaram. Era o equivalente a 46% de toda a extensão territorial. No início do século XX, essa área já estava reduzida a 302 milhões de hectares - uma perda de 28%. Desde então, a nação conseguiu manter-se no mesmo patamar, o que não é uma conquista fácil num país cujo processo de urbanização e industrialização foi avassalador. A Lei da Cultura de Árvores foi criada em 1873 e estabelecia que os colonos ganhariam 65 hectares de terras públicas se plantassem árvores em um quarto da terra. A medida foi adotada porque o país, após toda a exploração no período colonial, sofreu ainda as conseqüências da pecuária extensiva, que criou enorme pressão pelo desmatamento. A estratégia do governo americano foi entregar as terras públicas a proprietários privados e estimulá-los a preservar. Dos 302 milhões de hectares de matas que existem hoje, 174 milhões de hectares são propriedade privada, incluindo aí as florestas industriais.
No Brasil, a situação é grave. A Floresta Amazônica já perdeu 15% de sua cobertura original. Da Mata Atlântica, restam apenas 7%. Isso ocorre por uma conjunção desfavorável de fatores. A crise social brasileira faz com que milhares de famílias que não têm alternativa de trabalho usem a terra para sua subsistência. Sem terra própria, buscam chão na floresta. Sem tecnologia, precisam de grandes áreas. Outro problema tem sido a expansão das fronteiras agrícolas, impulsionada pelo aumento recente de preço das commodities no mercado internacional. No Centro-Oeste, a cultura de grãos invadiu a mata como nunca na última década. Mas poucos países têm um ambiente tão favorável para o desenvolvimento econômico do setor florestal. Enquanto um eucalipto leva sete anos para atingir a idade de abate no Espírito Santo, por exemplo, seu equivalente finlandês pode demorar trinta no mínimo para estar no ponto de corte. A rapidez de crescimento do clima tropical é incomparável, bem como a biodiversidade. Enquanto é possível encontrar milhares de espécies de árvores na Amazônia ou mesmo nas regiões de Mata Atlântica, os países europeus contam, quando muito, com vinte tipos.
Na década de 90, as exportações brasileiras de produtos florestais cresceram a uma taxa média de 10% ao ano. Em 2003, 15% do saldo da balança comercial se deveu a esse setor. Não é, portanto, algo que se possa desprezar. Somados todos os investimentos já anunciados no país, nos próximos dez anos serão injetados no setor 19 bilhões de dólares. Sem falar nos aspectos ambientais e sociais envolvidos. Nada menos do que 7,5% da população brasileira economicamente ativa trabalha em alguma atividade ligada ao setor florestal. Somente a cultura da erva-mate, essencialmente florestal, emprega 800.000 pessoas.
No Acre, o governador Jorge Viana, engenheiro florestal de formação, desenvolveu um projeto inovador de manejo da floresta. Em vez de retirar as pessoas da mata para preservá-la, como é comum nas reservas de conservação, os acreanos são estimulados a permanecer ali tirando seu sustento das árvores. "O desenvolvimento econômico da floresta é a força mais eficaz para virar o jogo do desmatamento", afirma Viana. No Amazonas, o governo estadual está inovando ao criar um modelo de financiamento específico para atividades florestais, por intermédio do Banco da Amazônia. São movimentos aparentemente pequenos diante das necessidades. Reverter um processo de desmatamento da magnitude do brasileiro e mudar a mentalidade de empresários, agricultores, bancos e governantes são tarefas para muitos anos. Mas vale a pena persistir. O Brasil tem a segunda maior cobertura vegetal do planeta, atrás apenas da Rússia. Usada corretamente, é um tesouro renovável.

Veja, 09/02/2005, Ambiente, p. 84-89

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