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Revolucao biogenetica

OESP, Economia, p.B2
Autor: MING, Celso
21 de Mai de 2004

Revolução biogenética
Os construtores de caixão martelam um prego de cada vez. Nesta semana, foram pelo menos mais rápidos. Pregaram dois em seguida no caixão destinado ao enterro do movimento contra os produtos transgênicos só porque são transgênicos. Mas teimosia e intransigência levam mais tempo para morrer.
Segunda-feira, foi a Food and Agriculture Organization (FAO), organismo da Organização das Nações Unidas para a agricultura, que publicou relatório de 208 páginas sobre "A Situação da Alimentação e da Agricultura em 2003-2004" em que chama a atenção para o papel redentor que a revolução biogenética pode desempenhar na superação da pobreza.
E, quarta-feira, a União Européia, considerada até aqui um baluarte contra os produtos transgênicos, liberou para importações o milho Bt-11, desenvolvido pela multinacional anglo-suíça Syngenta, porque o considerou "tão seguro quanto qualquer milho convencional".
Qualquer agricultor sabe que os produtos transgênicos têm um custo de produção mais baixo. Se isso não fosse verdade, o mercado os rejeitaria. Se têm um custo mais baixo, podem baratear também qualquer programa contra a fome.
Cocaína - Mas isso vem sendo ignorado pelos obscurantistas do nosso tempo, sob a alegação de que nenhum transgênico pode ser considerado mais barato se pode produzir prejuízos à saúde humana ou ao meio ambiente. Eles nunca estão satisfeitos, Não há pesquisa capaz de dissipar cismas desse tipo.
Os ambientalistas brasileiros, os mesmos que se vêm opondo cegamente ao desenvolvimento e à comercialização de produtos transgênicos no País, seguem afirmando que nada disso pode ser aceito, porque o que eventualmente não prejudica o meio ambiente europeu pode fazer estrago aqui no Brasil. E há aqueles que não se contentam com opor obstáculos geográficos. Querem a proibição para sempre dos transgênicos, porque - dizem - o efeito ruim pode aparecer séculos depois.
Jean Marc von der Weid, coordenador da ONG Assessoria e Serviços em Projetos de Agricultura Alternativa, por exemplo, sustenta que "os transgênicos não podem ser produzidos em nenhuma hipótese, mesmo se as pesquisas indicarem ausência de riscos, porque não há como determinar quais serão as conseqüências dos cruzamentos de plantas ou de animais transgênicos com espécies selvagens daqui a cem anos".
Outros radicais, como os líderes dos Sem-Terra e aqueles que em 2001 destruíram um campo de pesquisa da Monsanto, no Rio Grande do Sul, afirmam que o cultivo de transgênicos é como cocaína: "cria dependência de uma multinacional", na medida em que está associado ao uso de um produto, como é o caso da soja RR, que necessita do herbicida Round-UP, da Monsanto.
Paradoxalmente, não parecem comover-se com os estragos provocados pelos agrotóxicos despejados nas culturas convencionais.
E, no entanto, os cientistas da FAO concluíram que, no cultivo dos transgênicos, a aplicação dos defensivos agrícolas têm diminuído substancialmente. Na China, por exemplo, o uso de defensivos agrícolas na produção do algodão transgênico caiu cerca de 25% e "conseqüentemente, o índice de envenenamento dos agricultores que cultivam o algodão transgênico foi reduzido".
Sermões - Se houve um efeito produzido pela ação desses movimentos ambientalistas foi o de fazer o jogo das multinacionais européias. Estas estavam atrasadas em suas pesquisas biogenéticas em relação às multinacionais americanas e à brasileira Embrapa e ganharam tempo com as proibições de consumo, comercialização e cultivo de produtos transgênicos.
Agora que já tem seus produtos na prateleira, a União Européia está mudando sua atitude e já não dá a mesma importância aos sermões dos ambientalistas.
O milho Bt-11, cujo consumo (e não a produção) foi agora liberado na União Européia, é assim chamado porque contém um gene da bactéria Bacillus thuringiensis, que codifica uma proteína que, por sua vez, protege o milho contra o ataque de lagartas. É o mesmo que há anos vem sendo combatido pelos ambientalistas, supostamente por provocar danos à borboleta monarca (Danaus Plexippus). Aqui no Brasil, aguarda liberação da CTNBio há quatro anos.
Na década de 60, o cientista americano Norman Borlaug, a partir de seleções genéticas não-transgênicas, desenvolveu o trigo Sonora 63, resistente a seca e a pragas e, depois, o arroz IR6, de grande produtividade. Em seu tempo, foi atacado por desestabilizar culturas convencionais, mas produziu a Revolução Verde que lhe deu o Prêmio Nobel da Paz.
Os ambientalistas de hoje deveriam tomar consciência de que o futuro se encarregará de responsabilizá-los pelo atraso.

OESP, 21/05/2004, p. B2

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