OESP, Economia, p. B6
09 de Fev de 2007
Revista destaca etanol brasileiro
José Goldemberg descreve em artigo sucesso da substituição da gasolina pelo álcool
Giovana Girardi
O programa brasileiro do uso de etanol como combustível foi considerado pela revista científica Science da edição de hoje como um caso de sucesso a ser observado, e replicado, por outros países, quando o assunto é energia sustentável.
A revista traz um pacote de artigos com sugestões para resolver o problema de falta de energia no futuro. O assunto mereceu destaque da publicação uma semana depois que o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) divulgou relatório que mostra que é urgente a necessidade de reduzir as emissões de CO2 - resultado da queima de combustíveis fósseis e responsável pelo aquecimento global. A publicação aposta na eficácia do etanol obtido da cana-de-açúcar como alternativa para substituir o petróleo. Para explicar a experiência brasileira, foi convidado o ex-secretário de Ambiente do Estado José Goldemberg. Pesquisador da Universidade de São Paulo, ele defende que a energia do futuro está nos canaviais.
"Novas fontes de energia renovável estão sendo desenvolvidas. Mas desde 1980 estamos lidando com o etanol. Os problemas que tínhamos - como falta de suprimento, pouca eficiência, ou o carro não pegar em dias frios - já foram resolvidos", disse ao Estado. Claro que muita gente se lembra do sufoco passado no fim dos anos 80, quando os produtores boicotaram a produção e faltou álcool. "A população perdeu a confiança, mas hoje, com os carros flexfuel, deixamos de ser reféns."
Atualmente, o álcool substitui 40% da gasolina no Brasil. Para que o País substituísse totalmente a gasolina seria necessário triplicar o cultivo da cana, que hoje ocorre em 2,5 milhões de hectares.
Isso sem desmatar mais floresta nativa? Goldemberg afirma que sim. "Só em São Paulo temos 10 milhões de hectares de pastagem. Esse espaço pode ser remanejado." Ele defende que o modelo seja replicado em países, como Índia, Colômbia e África do Sul. "Para suprir o mundo com 10% de álcool seriam necessários 25 milhões de hectares de plantação."
Para ele, a principal vantagem do álcool brasileiro, em comparação com o de milho (produzido nos Estados Unidos) e o de beterraba (na Europa), é que as plantações de cana em seis meses equilibram o que é emitido de CO² pela queima do etanol.
De olho no produto, empresas investem
Objetivo de estrangeiras é exportar o etanol produzido no Brasil
Jamil Chade, CORRESPONDENTE GENEBRA
Companhias estrangeiras ampliam seus investimentos para exportar etanol brasileiro, no mesmo momento em que a Europa anuncia uma abertura inédita do mercado ao produto nacional. Ontem, a Noble Group, de Hong Kong, anunciou que vai investir US$ 200 milhões na produção e exportação de etanol no Brasil. No mesmo dia, os europeus anunciaram a abertura de seu mercado para que 200 mil toneladas de açúcar possam ser compradas do Brasil, Índia e Austrália sem o pagamento de taxas de importação.
No caso dos asiáticos, o alvo dos investidores foi a usina Petribu Paulista, com capacidade para triturar 2 milhões de toneladas métricas de cana. Ontem, a empresa anunciou que adquiriu a usina em São Paulo por US$ 70 milhões. O grupo asiático ainda comprará a Meridiano. A estratégia na Noble é de ser um dos principais exportadores de etanol do País nos próximos anos. Hoje, o grupo já é responsável por 10% das exportações nacionais.
Além das aquisições no Brasil, a Noble tem investimentos no Caribe e nos Estados Unidos no setor. Com o investimento de ontem em São Paulo, o grupo espera dobrar a capacidade da usina para 600 mil toneladas de açúcar ou 88 milhões de galões de etanol em pouco tempo. Outra expansão está programada para os próximos dois anos.
Enquanto o capital estrangeiro continua entrando no País para produzir etanol, a Europa abre cada vez mais seu mercado ao produto. Ontem, a União Européia anunciou que a importação de 200 mil toneladas de açúcar seria permitida no mercado europeu este ano, sem a cobrança de imposto. Para que essa isenção possa ocorrer, as empresas devem usar o produto para fins industriais, como no setor químico, farmacêutico ou para a fabricação de combustível. O Brasil deve ser o principal beneficiário da medida.
A UE pode abrir o mercado todas as vezes que avaliar que o abastecimento está em perigo ou que os produtores europeus estão abusando dos preços. No caso do açúcar, o objetivo é pressionar os produtores locais para que vendam seus produtos a um preço menor ao setor industrial.
OESP, 09/02/2007, Economia, p. B6
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