VOLTAR

Retomada radioativa

O Globo, Mundo, p. 22
11 de Ago de 2015

Retomada radioativa
Reabertura do primeiro reator após acidente de Fukushima deixa Japão apreensivo
Energia nuclear é tema de discussão quatro anos após tragédia

Macarena Vidal Liy, do 'El País'

TÓQUIO - O Japão está se preparando para um processo sem precedentes: o retorno ao uso da energia nuclear depois de uma interrupção absoluta após a tragédia de Fukushima, há quatro anos. O país ligou hoje o primeiro reator da usina de Sendai em Kyushu, no Sul. O primeiro-ministro Shinzo Abe pretende dar continuidade às reativações. Seu objetivo é que em 2030 a energia nuclear represente entre 22% e 24% da matriz energética do Japão. No entanto, pesquisas indicam que 57% dos cidadãos são contra. Especialmente os que deixaram suas casas às pressas naquele fatídico 11 de março.
- É como se você se queimasse e, apesar disso, voltasse a colocar a mão no fogo. Você sabe que é perigoso. O primeiro-ministro não pensa nas as próximas gerações e só quer o benefício a curto prazo - critica Makoto Kazawa, 69 anos.
Antes do acidente em Fukushima, Kazawa tinha uma empresa de secagem de peixes com 18 empregados. Graças a um empréstimo oficial voltou à atividade em Yotsukura, cerca de 200Km de Tóquio, mas não consegue cobrir as despesas.
- Apenas duas ou três pessoas vêm diariamente à loja - lamenta. - E vender para fora é impossível, ninguém quer ouvir falar de produtos de Fukushima.
A Autoridade Reguladora Nuclear do Japão (ARN) garante que todas as precauções com o retorno ao uso da energia atômica serão tomadas. A agência, criada em 2012, estabeleceu novos padrões de segurança muito mais rigorosos, incluindo o estabelecimento de uma série de fontes alternativas de energia e provisões contra os casos mais extremos de terremoto ou tsunami.
- Uma catástrofe como a que ocorreu em Fukushima não se repetirá - afirmou o diretor da agência, Shunichi Tanaka, ao diário "Nikkei Shimbun".
Segurança é maior preocupação
Se tudo correr como planejado, o primeiro reator de Sendai, de 890 megawatts, retomará as operações comerciais em setembro. O processo vai ser repetido em outubro com o segundo reator. Dos 48 reatores nucleares que funcionavam no Japão e foram fechados após o acidente, 25 pediram reabertura. Cinco foram declarados obsoletos e cinco receberam aprovação da NRA, embora os tribunais tenham paralisado a implementação de um deles.
O governo alega que a energia nuclear é imprescindível para a economia. O Japão importa 90% de seu petróleo e, embora aliviado pelos preços mais baixos do combustível, desde o desastre os gastos com energia criaram um grande déficit na balança comercial, que em julho foi de US$ 13,8 bilhões. Seu plano de longo prazo prevê que em 2030 esta energia cubra quase um quarto das necessidades do país. Em 2011, representava 39%.
- Somos um país com poucos recursos energéticos. Precisamos equilibrar custos, segurança e respeito pelo ambiente - disse Masakazu Toyoda, presidente do Instituto de Economia da Energia e apoiador da reabertura dos reatores.
Segundo Toyoda, a indústria nuclear economizou cerca US$ 260 bilhões para o Japão em importações de energia, que vêm sendo desperdiçados a um ritmo de US$ 28 bilhões anuais na compra de petróleo no exterior durante o fechamento das usinas. Ele também alega que o retorno à energia nuclear ajudará o Japão a cumprir as metas de redução de emissões de gases-estufa.
Opositores alegam que os cidadãos e as empresas já se acostumaram a usar menos eletricidade.
- Foi demonstrado que a economia de energia não significa uma perda na qualidade de vida - afirma Tetsunari Iida, do Instituto para Políticas Energéticas Sustentáveis.
No entanto, a grande preocupação dos cidadãos é a segurança. No caso de Sendai, opositores alegam falta de clareza nos planos de evacuação ou em caso de atividade vulcânica na área. Também não se sabe como os reatores reagirão após o período prolongado de inatividade. De acordo com a Associação Nuclear Mundial, todos os 14 reatores que voltaram a funcionar depois de quatro anos de inatividade em diferentes partes do mundo sofreram falhas técnicas ou desligamentos de emergência.

Análise: No Japão, um rumo ao desconhecido
Desastre de Fukushima apagou o que era chamado, então, de renascimento nuclear global

Stephen Stapczynski e Yuriy Humber, da Bloomberg

O Japão está prestes a fazer algo inédito: voltar a ligar um conjunto de reatores nucleares desativados. O primeiro a cumprir os novos padrões de segurança pode ser colocado em operação já na próxima semana.
"Se os reatores estão desligados por um longo período, pode haver problemas com equipamentos há muito tempo inativos e com operadores 'enferrujados'", disse a ex-presidente da Comissão Nuclear Regulatória dos EUA Allison MacFarlane.
Na Suécia, a E.ON Sverige AB fechou a unidade número 1 de sua usina Oskarshamn em 1992 e a reiniciou em 1996. A usina teve seis paralisações de emergência no ano seguinte, e um reabastecimento que deveria ter levado 38 dias durou mais de quatro meses depois que rachaduras no equipamento foram descobertas.
As retomadas das operações no Japão estão sendo acompanhadas de perto, pois o desastre de Fukushima apagou o que era chamado, então, de renascimento nuclear global. O sucesso no Japão pode permitir que o setor volte a dar ênfase às usinas nucleares como geradoras de uma energia livre de carbono antes da cúpula climática internacional de Paris, neste ano, na qual quase 200 países negociarão padrões de emissões mais rígidos.
A Autoridade de Regulação Nuclear do Japão tem feito avaliações de segurança e assegurou que a Kyushu Electric realizou a manutenção exigida para um reinício, disse Tadashi Yamada, porta-voz da autoridade. As normas da reguladora exigem que as operadoras nucleares preparem medidas de segurança, como a construção de uma sala de controle secundária e de muros maiores contra tsunamis.
Os desafios enfrentados pela autoridade reguladora são "absolutamente únicos no mundo", diz John Large, da Large Associates, uma consultoria de engenharia para a indústria nuclear com sede em Londres. "O conjunto completo de usinas de energia nuclear do país permaneceu desativado durante quatro anos e as autoridades precisam estar preparadas para problemas inesperados."
Como podem surgir problemas com reatores inativos há tanto tempo, a autoridade "deve testar todo o equipamento, assim como a operadora, como forma de preparação", diz MacFarlane. Embora "seja uma agência nova, muitos de seus profissionais têm experiência em assuntos nucleares", disse ela.
"As operadoras precisam demonstrar a cultura de segurança de paralisar a inicialização caso encontrem condições inesperadas ou inseguras", afirma Dale Klein, outro ex-chefe da reguladora nuclear, e atualmente conselheiro da Tokyo Electric Power Co., a operadora da usina de Fukushima.

O Globo, 11/08/2015, Mundo, p. 22

http://oglobo.globo.com/mundo/reabertura-do-primeiro-reator-apos-aciden…

http://oglobo.globo.com/mundo/analise-no-japao-um-rumo-ao-desconhecido-…

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.