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Resignação em meio ao esgoto

O Globo, O País, p. 16
19 de Ago de 2010

Resignação em meio ao esgoto
Moradoras do Rio contam como vivem sem saneamento e água; apenas 52,48% das casas do país têm coleta

Carolina Benevides

É com orgulho que a aposentada Neuza Maria Ferreira, de 66 anos, conta que conseguiu juntar tijolos e telhas, encontrar um vaso sanitário e construir um banheiro nos fundos da casa. O que Neuza, moradora de Itambi, em Itaboraí, no Rio de Janeiro, reluta a contar é que o banheiro não tem descarga. Vivendo há mais de 40 anos na casa número 1 da Rua Iamagata, cortada pelo Rio Itambicu, Neuza nunca viu a coleta de esgoto chegar ao local e também não tem acesso à água potável.

- Para beber, a gente pega água na casa de um vizinho.

Para tomar banho, cozinhar, lavar louça e roupa e jogar na privada, eu puxo do rio mesmo. É água suja, o rio tem cachorro morto, cavalo, todo esgoto cai lá. A gente toma banho e fica se coçando - conta Neuza, que divide a casa com uma das cinco filhas, já casada, e o neto de 1 ano e 4 meses.

Como Neuza, 13 milhões de brasileiros vivem sem banheiro, fazendo com que o país ocupe o nono lugar do "ranking da vergonha", segundo dados do Unicef.

O número de pessoas sem coleta de esgoto também impressiona: em 2008, apenas 52,48% dos domicílios do país contavam com o serviço. Quando o assunto é água tratada, os números são um pouco melhores: em 2008, 82,31% das moradias contavam com canalização interna, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE.

Filha caçula de Neuza, Walesca, de 23 anos, nasceu na casa da Rua Iamagata. Lá cria o filho Jhony e toma conta da sobrinha, Vitória, de 4 anos. Descalça, com os pés no esgoto que corre no quintal e com o menino no colo, ela conta que já nem sente o mau cheiro que toma conta do local. Diz ainda que aprendeu cedo a conviver com mosquitos e ratos:
- Os ratos entravam na casa, passavam por cima da gente, iam para as panelas. Dava nervoso, eu tinha medo de pegar uma doença, mas graças a Deus nunca peguei.

Medo de rato, Neuza diz que nunca teve:
- Acostumei, eles sempre estiveram aqui, mesmo quando o rio era limpo e a gente podia lavar roupa lá. É melhor agora que tenho um gato para correr atrás deles, mas não ficava agoniada. O que dá agonia são os mosquitos. Não dá para dormir se a gente não acender caixa de ovo para espantar. E medo mesmo eu tenho de sanguessuga e de bicho do pé.

Analfabeta, Neuza nunca se preocupou com que os filhos estudassem. Dos cinco, Walesca foi a única a concluir o ensino fundamental, mas ela largou a escola quando decidiu se casar, há quase três anos:
- Vivo do Bolsa Família, e minha mãe recebe aposentadoria. Meu marido faz alguns biscates, mas não penso em voltar à escola.

Preocupação com a saúde, mãe e filha, com a pele marcada pelas picadas de mosquito e cheia de manchas, também não têm muita.

- Meus netos, que moram aqui perto, vivem com dor de barriga, e acho que é por causa da água e do esgoto. Eles colocam na boca brinquedos que ficam no quintal e pisam descalços no chão. Eu não piso. Já disse, né? Tenho medo de bicho de pé - conta Neuza.

Sem nunca ter cruzado a ponte que leva à capital do Rio, Neuza e Walesca têm como sonho trocar a casa por uma outra mais perto da estrada:
- Lá também não tem esgoto e água, mas a iluminação na rua é melhor e estamos mais perto dos ônibus. Não passa nenhuma linha aqui - diz a mãe.
Vista "horrível" e mau-cheiro
A pouco mais de uma hora de Itambi, na comunidade Novo México, em Tribobó, São Gonçalo, a família da cearense Quitéria Martins Farias, de 65 anos, também convive com a falta de coleta de esgoto e de água tratada.

Moradora da região desde que trocou o Ceará pelo Rio, em 1978, com nove filhos - o décimo já nasceu em Novo México -, Quitéria vive uma situação inusitada: ao abrir a janela do quarto, dá de cara com o Rio das Pedras, completamente poluído, onde os canos deságuam esgoto semparar Se olhar pelo basculante da cozinha, a vista é a mesma: "horrível".

- Se ficar na janela, a gente vê o esgoto caindo e rato subindo pelos canos. E ainda tem a catinga, que só some quando chove. Todo dia, lá pelas 17h30m, fecho a casa para evitar mosquitos - conta Quitéria.

A falta d'água também incomoda:
- Aqui, a água é clandestina. É mais fácil resolver problema de água que de esgoto, e conseguimos dar um jeito. Mas ainda falta, há uns três meses faltou direto. Sei que ainda tenho que ter disposição para carregar balde de água.

Uma das fundadoras da comunidade - quando chegou existiam apenas cinco casas -, Quitéria viu de perto as mudanças na região. O rio, antes limpo e usado para lavar roupas e tomar banho, virou "um valão", e o número de casas não para de crescer - já são mais de cem.

Mesmo com todas as mazelas - "até para ir ao posto de saúde a gente tem que pisar na lama"-, ela só cogita sair do Novo México se "toda a família aceitar voltar para o Ceará":
- Sozinha ou só com alguns eu não vou. Digo que dos piores lugares, esse aqui é o melhor, porque pude criar meus filhos em paz.

Universalização está prevista para 2053
Antecipar, só com mais investimentos

A falta de planos municipais de saneamento e de fiscalização é, para André Castro, presidente do Instituto Trata Brasil, o principal problema de um setor que avança a passos lentos.

Segundo ele, a universalização da coleta de esgoto no Brasil, se mantidos os investimentos feitos em 2008 - R$ 6,2 bilhões -, só será atingida em 2053: - E é preciso levar em conta que talvez a coleta nunca chegue para alguns. O governo, que deveria cobrar, acaba de ampliar o prazo para a elaboração dos planos municipais e deixou de penalizar quem não se planejou. Entendo que cortar a verba dos municípios acarretaria mais atraso, mas o governo deveria ter criado medidas compensatórias para incentivar quem fez o plano e não ter deixado no ar a sensação de que tanto faz cumprir a lei. Desse jeito, vamos continuar avançando numa velocidade abaixo da necessária.

Para Ralph Lima Terra, vice-presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), se o país quiser universalizar tratamento e coleta de esgoto e a água potável até 2030, terá de investir R$ 13,5 bilhões por ano. Em 2009, segundo ele, foram R$ 6,85 bilhões: - Já foi superior aos dos anos anteriores, mas aquém do necessário. Nesse ritmo, levaremos 40 anos. É preocupante, porque nos lugares mais afastados é a natureza quem trata. (Carolina Benevides)

O Globo, 19/08/2010, O País, p. 16

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