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Reserva indígena: Vale do Javari, no Amazonas, agoniza com malária e hepatite

O Globo Online
24 de mai de 2008

ALDEIA SÃO SEBASTIÃO, VALE DO JAVARI (AM) - A reserva indígena Vale do Javari, área do tamanho de Santa Catarina localizada no Oeste do Amazonas, agoniza com a malária, a hepatite e índices de mortalidade infantil só comparáveis aos do Afeganistão e de países miseráveis e conflagrados na África. A reserva abriga 3.700 índios, espalhados em 50 aldeias. Há um número desconhecido de tribos isoladas na região, onde o impacto das doenças é ignorado. É o que mostra reportagem de Demétrio Weber, enviado especial, na edição deste domingo em 'O Globo'. (Agentes da Funasa prestam assistência na aldeia. Veja fotos)

A dificuldade de acesso e de remoção de pacientes graves e a falta de estrutura para a atuação dos agentes de saúde não são os únicos problemas. A Fundação Nacional de Saúde (Funasa), órgão do Ministério da Saúde responsável pelo atendimento indígena, não tem médico algum na região, só enfermeiros e auxiliares. Vale repetir: não há médico nos 8,5 milhões de hectares da terra indígena Vale do Javari.

A taxa de mortalidade infantil na reserva, no ano passado, foi de 123,07 óbitos de menores de 1 ano para cada mil bebês nascidos vivos, índice cinco vezes maior do que a média nacional entre não-índios (22,6, em 2006) e duas vezes e meia acima da média indígena (48,5). Apenas o Afeganistão e seis países africanos, entre eles Serra Leoa, Angola e Libéria, têm taxas maiores, entre os 194 países e territórios monitorados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Mas nenhum supera a aldeia de Massapê: 277,7.
'Antes, a gente morria de velho'

A malária, doença transmitida por mosquito, debilita toda a população. As crianças são as principais vítimas. Segundo a Funasa, os casos de malária superaram o número de habitantes da reserva em 2007, o que significa que pessoas foram infectadas mais de uma vez no ano. Já a hepatite B atingia 7,7% dos moradores, dos quais boa parte não recebe tratamento.

A Funasa lançou em abril uma operação com apoio das Forças Armadas, ao custo de R$ 3 milhões. Até junho, helicópteros levarão os agentes às tribos, onde barcos e soldados dão apoio logístico. Médicos foram recrutados em outras cidades. Entre 15 e 19 de maio, 'O Globo' acompanhou a incursão em três aldeias dos marubos: Maronal, São Sebastião e Fonte Boa.

Em São Sebastião, 38% dos índios estavam com malária, incluindo o cacique Maiãpa, de 62 anos, cujo nome civil é Said Reis, e o agente indígena responsável pelo posto local da Funasa, Uaképa, ou Américo Miguel Doles.

- A malária já matou muita gente. Antes, se morria de velho ou de mordida de cobra - disse o cacique Maiãpa, que se tratava da segunda malária no ano.
O primeiro sutiã a gente nunca esquece

Usar sutiã virou moda entre as índias marubos, no Vale do Javari. Elas dizem que o acessório é o melhor remédio para seios caídos. Vaidosas, estão encantadas com o efeito da combinação de sutiãs e colares coloridos de miçangas.

- Antigamente, não usávamos porque não conhecíamos. Depois que tivemos contato com não-índios, todo mundo se interessou. Acho bonito. Deixa tudo assim no lugar, inclinado, normal - diz a índia Viñawa Marubo, que tem o nome civil de Amélia Barbosa da Silva.

Aos 35 anos, ela é mãe de cinco filhos e conta que não usava sutiã na juventude. Viñawa é professora de ensino fundamental numa outra aldeia, a São Sebastião, e recebe salário do governo do Amazonas.

As demais mulheres produzem colares e pulseiras para comprar sutiãs, saias e batom. A bijuteria é vendida nos municípios mais próximos: Atalaia do Norte (AM), a cerca de 450 quilômetros em linha reta, e Cruzeiro do Sul (AC), a 250. A viagem de barco demora dias. Outra opção é trocar com as agentes de saúde que visitam as aldeias.
'Aqui é Brasil também'

O cacique geral dos índios marubos, Ivinimpapa, diz que seu povo não é "bicho de zoológico" para posar em fotografias e cobra mais atenção do governo, especialmente a continuidade dos programas de saúde. Segundo ele, sua tribo vive esquecida no meio da floresta e sofre com doenças de "homem branco".

- Não estamos aqui como bichos de zoológico à disposição para tirar fotos. Queremos trabalho do governo. Outras pessoas já vieram só para passear - reclamou ele no último dia 17, quando uma equipe da Funasa prestava atendimento médico aos moradores.

Ivinimpapa, de 70 anos, perdeu irmão, cunhado, sobrinho e tio para a malária, a hepatite e a tuberculose. Ele próprio teve malária quatro vezes.

- O que dá mais medo no povo marubo é a hepatite, porque já vi morte assim que provoca sangue na boca. As crianças sofrem muito com a malária - diz o cacique, que lidera 1,3 mil índios marubos, a etnia mais populosa do Vale do Javari.

Indagado sobre o que gostaria de dizer ao presidente Lula, respondeu:

- Ia dizer que o povo marubo também é brasileiro e precisa do governo. Aqui é Brasil também. E o governo tem que se orgulhar disso.
Funasa cria operação de emergência para atender índios

A operação emergencial lançada pela Funasa para prestar atendimento na terra indígena Vale do Javari, com apoio das Forças Armadas, tenta resolver um problema que se agrava há décadas, com repercussão internacional negativa para o Brasil. Até junho, as equipes de saúde esperam examinar todos os 3.700 índios da reserva, fazendo um mapa das doenças e das condições de nutrição. Depois disso, o desafio será garantir a continuidade das ações.
Salário de R$ 10 mil não atrai médicos

O chefe do Serviço de Assistência da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Atalaia do Norte, o índio Beto Marubo, diz que o abandono dos indígenas na região se transformou num caso de polícia:

- A política indígena está uma salada, não há foco. O Vale do Javari é problema de polícia. Tem que investigar, chamar a CGU (Controladoria Geral da União). Gastam errado, os recursos não vão para a saúde - disse Marubo.

Temendo contrair malária, o diretor de Saúde Indígena da Funasa, Wanderley Guenka, e os demais profissionais de saúde aplicavam repelente contra mosquitos o tempo todo. Ele reclamou da burocracia, inclusive das exigências de licitação que emperram até a compra de computadores e a instalação de internet nas comunidades indígenas - o que ajudaria a comunicação das equipes de saúde.

Guenka considera um sonho conseguir médicos para atuar no Vale do Javari. O salário oferecido é de R$ 10 mil, mas não atrai interessados. O diretor defende que médicos formados em universidades federais sejam obrigados a trabalhar em áreas indígenas, como contrapartida pelo curso gratuito. Também médicos que prestam serviço obrigatório para as Forças Armadas, segundo ele, deveriam atuar no Vale do Javari.

O presidente da Funasa, Francisco Danilo Forte, disse que o orçamento da fundação este ano é de R$ 4,5 bilhões, dos quais R$ 280 milhões para a saúde indígena. Segundo Forte, a malária e a hepatite são doenças endêmicas na Amazônia:

- Na área de floresta não tem como erradicar a malária, mas aprender a conviver com ela. (Erradicar), só se acabar com a floresta.

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