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Relatório denuncia lobby trilionário para mineração em terras indígenas no Brasil e transformar Amazônia em ‘zona de sacrifício’

Brasil de Fato - www.brasildefato.com.br
Autor: Rodrigo Chagas
08 de Abr de 2026

Entre 2016 e 2024, US$ 493 bilhões (cerca de R$ 2,5 trilhões) foram direcionados por grandes bancos a empresas de mineração ligadas à transição energética. Em relatório divulgado durante o Acampamento Terra Livre (ATL), a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) afirma que esse fluxo sustenta a pressão para liberar mineração em terras indígenas no país.

Segundo a entidade, a corrida por minerais estratégicos tem sido usada como argumento para flexibilizar regras e avançar sobre territórios tradicionais, em um processo que envolve bancos internacionais, grandes mineradoras e sua atuação direta sobre o Estado brasileiro.

Entre os principais beneficiários estão empresas como Vale, BHP e Glencore, apoiadas por investidores como BlackRock, Vanguard e Capital Group. Para a Apib, essa cadeia transfere riscos ambientais e sociais para territórios indígenas enquanto concentra ganhos nessas corporações e fundos.

O relatório aponta que a mineração vem sendo apresentada por essas empresas e investidores como condição para a transição energética. A exploração de minerais críticos é tratada como indispensável para tecnologias de baixo carbono, o que reposiciona países como o Brasil como fornecedores dessas matérias-primas e amplia o interesse sobre seus territórios.

"Não há saída possível para a emergência climática que passe pela destruição de nossas terras", afirma o documento.

Pressão trilionária opera mundialmente e por dentro do Estado brasileiro

A denúncia da Apib se apoia, entre outros estudos, no relatório Mining & Money, da Coalizão Florestas & Finanças, que calcula em US$ 493 bilhões o volume de crédito destinado, entre 2016 e 2024, a empresas de mineração voltadas aos chamados minerais de transição. O mesmo estudo aponta que, no mundo, quase 70% das minas desses minerais se sobrepõem a terras indígenas ou comunidades tradicionais, e 71% estão em regiões de alta biodiversidade.

A Apib descreve uma atuação coordenada de mineradoras, suas entidades representativas e aliados políticos sobre os três Poderes.

No Congresso Nacional, a mineração em terras indígenas aparece associada a projetos que flexibilizam regras ambientais e restringem direitos territoriais. A Apib cita a atuação de frentes parlamentares ligadas ao agronegócio e à mineração, como a Frente Parlamentar da Mineração Sustentável (FPMin), a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e a Frente Parlamentar Evangélica (FPE).

No Supremo Tribunal Federal (STF), a disputa se dá na interpretação de direitos constitucionais. Segundo o relatório, interesses do setor mineral atuam em processos e debates na Corte em busca de decisões que abrem caminho para a exploração em territórios indígenas.

No Executivo federal, políticas e programas passam a tratar a mineração como estratégica. O relatório aponta a atuação do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), que reúne empresas como Vale, na interlocução com o governo e na defesa da expansão da atividade. Para a Apib, essa articulação ajuda a consolidar a mineração como prioridade dentro da máquina pública.

Territórios indígenas sob pressão e disputa política aberta

A expansão da mineração avança sobre áreas de alta biodiversidade e territórios tradicionais. No Brasil, a Amazônia aparece como eixo central dessa pressão.

O relatório aponta que, só na Amazônia, há mais de 5 mil requerimentos minerários em aberto. Desse total, mais de 1,3 mil incidem sobre terras indígenas, seja em áreas de sobreposição direta ou em um raio de até 10 quilômetros, incluindo 390 casos de sobreposição total.

A sobreposição entre projetos de mineração e territórios tradicionais, segundo a Apib, não é pontual, mas parte de um padrão que se repete em diferentes países. É nesse contexto que a entidade utiliza a expressão "zonas de sacrifício" para descrever áreas destinadas à exploração intensiva de recursos, com impactos concentrados sobre populações locais.

A publicação do relatório ocorre em um momento de mudança na política indigenista. O Ministério dos Povos Indígenas passa por transição com a saída de Sônia Guajajara e a posse de Eloy Terena. Ao mesmo tempo, levantamento obtido pelo Brasil de Fato mostra que 110 terras indígenas já concluíram etapas técnicas e aguardam decisões do Estado brasileiro para avançar na demarcação.

Para o movimento indígena, a pressão de empresas e a demora do próprio Estado em concluir processos demarcatórios fazem parte de uma mesma disputa sobre o destino desses territórios.

No relatório, a Apib sustenta que os territórios indígenas não são obstáculos para a transição energética, mas parte da resposta à crise climática. A entidade cita sua proposta de Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) Indígena para defender que demarcação e proteção territorial devem ser tratadas como política climática, em contraposição à narrativa de que a mineração seria saída para a transição energética.

Realizado entre os dias 5 e 11 de abril, o Acampamento Terra Livre reúne milhares de indígenas em Brasília e tem a demarcação como uma de suas principais pautas.

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