OESP, Economia, p. B8
29 de Abr de 2008
Relator da ONU pede suspensão da produção de etanol por 5 anos
Jean Ziegler volta a atacar biocombustíveis, que segundo ele são os causadores de 'verdadeira tragédia' ao mundo
Jamil Chade
Às vésperas de se aposentar do cargo de relator da ONU para o Direito a Alimentação, o polêmico Jean Ziegler culpa o etanol pela crise de alimentos no mundo e pede uma moratória (suspensão da produção) de cinco anos para o biocombustível. Para ele, o mundo vive uma "verdadeira tragédia" e os biocombustiveis são "intoleráveis".
Depois de quase oito anos no cargo, Ziegler termina seu mandato amanhã, tendo visitado mais de 20 países, entre eles o Brasil. Polêmico por ter denunciado nos anos 90 o sistema bancário suíço, acusado Israel e elogiado a modesta abertura em Cuba, Ziegler agora não poupa críticas ao etanol.
Para ele, os biocombustíveis são "um crime contra grande parte da humanidade", já que provocam a alta nos preços dos alimentos. Sua tese é combatida pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, que disse ao Estado não concordar com a visão de Ziegler.
Segundo o relator, novos modelos de combustíveis precisam ser encontrados para substituir o petróleo e combater a mudança climática. Mas isso não pode "matar as pessoas de fome", ressalva. A solução seria implementar outras fontes de energia e melhorar o transporte público. "O direito à vida e à alimentação é o principal."
Apesar de criticar o etanol, Ziegler concentra suas críticas nos países ricos. O suíço acusa os americanos de destinar 35% da produção de milho às usinas de álcool em 2007. Ele também alerta que a meta da União Européia de ter 5,75% do etanol nos carros até 2010 não é viável.
O próprio governo brasileiro já o criticou e, entre os diplomatas, uma tentativa de retirar o apoio ao relator foi ensaiada. Mas Ziegler acabou modificando sua avaliação para tentar agradar aos brasileiros e disse que o etanol nacional não seria o responsável pelos problemas no mundo (leia mais ao lado).
"O massacre cotidiano da fome não é novo. Mas agora novas classes sociais caíram no abismo da fome em poucos meses." Os mais atingidos foram os países em desenvolvimento, por enquanto. Nos países ricos, uma família destina cerca de 12% da renda à alimentação. Nos pobres, essa taxa já chega a 85%.
Segundo ele, os preços do milho subiram 53% em um ano, ante 87% da soja e 130% do trigo. O arroz teve alta de 74%. Ziegler concorda que restrições às exportações, como fez o Brasil, não colaboram. Mas ele diz entender os motivos dos governos ao tomar tais decisões.
No entanto, o etanol não seria o único responsável. Para Ziegler, a especulação nas commodities teria sido a culpada por 30% da explosão dos preços. etanol e a especulação não são fatalidades."
As políticas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da OMC também são atacadas por Ziegler, que os acusam de contribuir para os grandes exportadores, mas se esquecer da situação dos pequenos produtores.
Rice admite 'conseqüências indesejadas'
FRANCE PRESSE
Destinar terras agrícolas à produção de biocombustíveis pode ser parte da causa da disparada mundial dos preços dos alimentos, admitiu a secretária de Estado americana Condoleezza Rice. "Aparentemente há efeitos, uma conseqüência indesejada dos esforços por obter combustíveis alternativos", disse, em Washington, ao ser indagada sobre a posição do governo George W. Bush sobre a disparada dos preços dos combustíveis.
"Acreditamos que os biocombustíveis seguirão como peça extremamente importante na criação de uma matriz energética alternativa e, obviamente, queremos estar seguros de que não terão efeitos adversos. Essa não é a causa principal do problema." Para ela, outros fatores que estimulam a alta dos alimentos são os problemas de distribuição em regiões como o Sudão e os limites a importações colocados por países como a China.
Os biocombustíveis são vistos como uma forma de reduzir as emissões de gases responsáveis pelo aquecimento global, mas, quando ocupam terras antes destinadas à agricultura alimentar, são culpados pela alta nos preços de alimentos.
Para o álcool brasileiro, elogios
Em carta ao Itamaraty, relator da ONU poupa o Brasil
Lu Aiko Otta
O relator das Nações Unidas para o Direito à Alimentação, Jean Ziegler, que ontem voltou a atacar os biocombustíveis, sabe muito bem a diferença entre o etanol brasileiro e o americano no que se refere à competição com alimentos. Em março deste ano, ele já havia feito publicamente uma ressalva em relação ao etanol de cana-de-açúcar produzido pelo Brasil, dizendo que o produto respeita o direito à alimentação. E em carta enviada ao Itamaraty, no dia 21 de abril, elogiou o programa brasileiro de biocombustíveis.
Embora tenha voltado ontem a atacar os biocombustíveis, classificando-os de "intoleráveis", e tenha defendido uma moratória de cinco anos na expansão do consumo, no texto, ao qual o Estado teve acesso, Ziegler se disse "particularmente impressionado" pelos programas da Petrobrás para produzir biodiesel de mamona e de outros frutos. Esses programas, disse ele, "permitem a milhares de famílias pobres sair da marginalidade".
Ele registra, também, ter sido informado que o Brasil tem 91 milhões de hectares de terras agricultáveis não exploradas. Além disso, o País usa somente cana, "e não alimentos básicos" para produzir etanol. "Esses fatos devem ser levados em conta", diz Ziegler na carta. Em outro ponto, ele traça a diferença entre os programas brasileiro e americano.
"De maneira geral, o que me parece contrário ao direito do homem à alimentação é queimar em grandes quantidades e transformar em agrocarburantes os alimentos, como o fazem, por exemplo, os Estados Unidos." Ele acrescenta que o programa americano recebe subsídios de US$ 6 bilhões ao ano.
O relator da ONU conta que após o início da crise dos alimentos foi convidado a dar entrevistas, mas não falou a órgãos de imprensa do Brasil, "para não criar polêmica com o governo brasileiro". Ele diz ter grande admiração pelo presidente Lula - "e não quero que haja mal-entendido entre nós".
OESP, 29/04/2008, Economia, p. B8
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