O Globo, Rio, p. 9
19 de Mar de 2012
Rejeitado aqui, cobiçado lá fora
Enquanto reciclagem patina no Rio, países da Europa reaproveitam até 79% das embalagens
Emanuel Alencar
emanuel.alencar@oglobo.com.br
Rogério Daflon
daflon@oglobo.com.br
Se a reciclagem não deslancha no Rio, o panorama é bem diferente na Europa, onde há sistemas que funcionam com eficiência há mais de 20 anos. Dados do Gabinete de Estatísticas da União Europeia (Eurostat) mostram que a média de reciclagem de embalagens de papel, plástico, alumínio, vidro, madeira e metal nos 12 países mais populosos do bloco chegou a 60% em 2009 - última parcial divulgada.
A Bélgica lidera o ranking, gerando 1,64 milhão de toneladas dessas embalagens e reciclando 1,29 milhão, um aproveitamento de 79,07%. Holanda (74,86%), Alemanha (73,43%), República Tcheca (68,83%) e Itália (63,97%) completam a lista dos mais eficientes. Na outra ponta, Grécia (43,82%) e Romênia (40,47%) apresentam percentuais mais baixos.
A maior economia do mundo também atinge bons percentuais. Os Estados Unidos recuperaram 46,3% de suas embalagens em 2010, segundo dados da Agência de Proteção Ambiental.
O país produz, anualmente, 200 milhões de toneladas de lixo (três vezes mais que o Brasil). As embalagens representam cerca de metade do volume total de resíduos. No Canadá, o retorno das embalagens é semelhante: 47%.
Portugal conseguiu erradicar lixões
Na Europa, a Alemanha foi a pioneira na implantação de um modelo de reaproveitamento de resíduos. Em 1972, foi editada a primeira lei, estabelecendo o monitoramento do lixo. Vinte anos depois, saía a ordenação sobre embalagens, as bases de um sistema chamado "Ponto Verde".
O comércio foi obrigado a estimular os consumidores a utilizarem sistemas de recolhimento de embalagens. Os custos são pagos através da indústria e do comércio e transferidos para os preços.
Já Portugal vivia, em 1996, uma situação semelhante à do Estado do Rio: cada município contava com lixões a céu aberto (eram 341 ao todo) e não havia um sistema de coleta seletiva estruturado. Investimentos maciços da União Europeia e do governo português - de 1997 a 2006 foi aplicado 1,6 bilhão de euros - foram decisivos para mudar o panorama. O país erradicou os lixões e cumpre as metas estabelecidas pelo Parlamento Europeu.
Na Espanha, em 14 anos, coleta seletiva deu um salto
Priscila Guilayn
granderio@oglobo.com.br
Correspondente - MADRI
MADRI - Na Espanha, a consciência ecológica evolui com rapidez e as três esferas da administração pública (municipal, regional e central) dão resposta aos esforços dos cidadãos para separar em suas casas as embalagens, os papéis e os vidros: 66% do lixo são reciclados, sendo que a média europeia ronda 50%. Em 1998, com a aprovação da lei de embalagens, este percentual estava em 4,8%. Com a implantação do Plano Nacional de Resíduos Urbanos, dois anos mais tarde, que obrigou a construção de plantas de classificação e compostagem, pulou para 34%. Segundo uma pesquisa recente, em 83% das residências consultadas existe o hábito de reciclar.
- Está bem visto reciclar e mal visto não reciclar. A evolução na Espanha tem sido bem rápida, principalmente se levarmos em conta que a reciclagem aqui é voluntária. Não há multas, como acontece em alguns países, para quem não recicla. Na Espanha se soube transmitir as vantagens da reciclagem. É uma conscientização que começa, por exemplo, com as crianças, nos colégios - conta o engenheiro Paco Colomer, pesquisador do Grupo Ingres (Grupo de Engenharia de Resíduos), da Universidade Jaume I.
Alemanha tem 'espiões' do lixo
Reciclagem é vista como mina de ouro por empresas europeias
Graça Magalhães-Ruether
granderio@oglobo.com.br
Correspondente - BERLIM
O que começou no início dos anos 90 como um projeto alternativo e ecológico transformou-se, nas últimas duas décadas, em mania nacional. Os alemães são fanáticos pela triagem do lixo, embora a reciclagem não seja ainda obrigatória. Nos prédios com muitos apartamentos, há os espiões do lixo, que observam se os vizinhos depositam o resíduo certo no tonel certo.
Além dos tonéis colocados nas ruas, cada um para uma cor diferente de garrafa sem casco, como a de vinho ou champanhe (as de cerveja e refrigerante têm casco e são devolvidas nos supermercados), e dos novos recipientes para têxteis, há nas casas, em média, quatro tonéis de cores diferentes, que facilitam a triagem do lixo.
Jornal diz que recicladores são "os novos alquimistas"
O "botar o lixo fora" tornou-se algo complicado, que exige até uma certa leitura, pois o tonel do lixo biológico, verde ou marrom (a cor varia de cidade para cidade), é destinado a resíduos orgânicos, dos detritos do jardim às cascas de frutas, mas apenas as que não foram tratadas com agrotóxicos.
O tonel azul é para papéis, o amarelo, para embalagens e plásticos, já o cinza (ou preto) é para o "resto do lixo". Até 2015, quando entra em vigor a obrigatoriedade da reciclagem, lei que já foi aprovada pelo parlamento, as residências vão receber mais um tonel, o laranja, que deverá facilitar a reciclagem de aparelhos pequenos, como celulares.
Na Europa, o lixo é visto cada vez mais como uma mina de ouro. No inicio dos anos 90, eram principalmente as companhias de limpeza públicas municipais que prestavam serviços no setor. Hoje, grandes empresas privadas, como a Alba, a Aurubis, na Alemanha, a Boliden AB, da Suécia, ou a Umicore, da Bélgica, faturam milhões com $reciclagem. A Boliden AB teve, em 2011, um volume de negócios de 4,5 bilhões de euros, enquanto a Aurubis registrou um crescimento de 35%, passando para 13,3 bilhões de euros.
"Os recicladores do lixo são os alquimistas dos tempos modernos", escreveu o jornal "Financial Times Deutschland", que prevê para o setor do lixo um clima de corrida ao ouro. Apesar do desenvolvimento da reciclagem, que atingiu um percentual de 64%, há ainda produtos com matéria-prima valiosa que são desperdiçados no "resto do lixo".
O exemplo do Japão
Do batom à bolinha de pingue-pongue, tudo deve ser descartado no lugar certo
Claudia Sarmento
granderio@oglobo.com.br
Correspondente - TÓQUIO
Tóquio é uma das cidades mais limpas do mundo, mas nem adianta procurar latas de lixo nas ruas, a não ser em frente às lojas de conveniência. O lixo é um problema de cada cidadão e se desfazer dele adequadamente é lei. O certo, portanto, é levá-lo para casa e separá-lo para a coleta. A divisão dos resíduos varia de uma região para outra e pode englobar mais de dez categorias, de tampinhas a eletrodomésticos (só os pequenos aparelhos, até 30 centímetros, pois os grandes devem ser recolhidos por um serviço especial). É bastante trabalhoso. Mas funciona.
O Japão é um exemplo mundial no campo da reciclagem. Em 2010, 77% dos materiais plásticos foram reciclados. A reutilização de garrafas PET chega a 72% (até 1995, não passava de 3%) e a de latas está em torno de 88%. Com 128 milhões de pessoas e pouco espaço para aterros, principalmente em metrópoles como Tóquio, o país incinera 80% do lixo que produz. Desde a década de 90, vem investindo também em métodos menos poluentes para diminuir a emissão de gases tóxicos que saem das centrais de incineração.
O Japão produz uma grande quantidade de lixo - cerca de 52 milhões de toneladas vindas apenas de domicílios -, mas cada cidade já tem suas leis para a reciclagem. Não basta pensar apenas nos conceitos de incinerável ou não. O processo está num estágio bem mais avançado que isso.
- A maneira como você cuida do lixo é fator fundamental na relação com os vizinhos. Os próprios moradores fiscalizam a separação, ficam sempre de olho para ver quem não está fazendo a coisa certa - conta a brasileira Sueli Gushi, que vive na região metropolitana de Tóquio.
A única maneira de aprender é seguindo um manual. O plástico exige maiores cuidados, tendo que ser dividido nas seguintes categorias: tubos; garrafas (mas não as PETS, que devem ser tratadas separadamente); tampas; caixas; sacolas e filmes; recipientes e copos; bandejas e itens que não se encaixarem em nenhuma dessas divisões, como colheres, cabides e pratos. Tudo tem que ser lavado e colocado em sacos transparentes para serem recolhidos uma vez por semana.
Na cidade de Yokohama, a meia hora da capital, os moradores recebem uma lista de instruções com quase 30 páginas. O detalhamento abrange mais de 500 itens. Quando a prefeitura iniciou a campanha, foi criticada pelo radicalismo. Até para se livrar de um batom, o morador precisava consultar o manual: o tubo devia se juntar à pilha de "metais pequenos" (que inclui também frigideiras menores do que 30 centímetros, por exemplo), mas antes o conteúdo que restara tinha que ser retirado e levado para o saco de restos incineráveis, onde também se encaixam bolinhas de pingue-pongue.
Apesar da trabalheira, a população - acostumada às regras rígidas de uma sociedade onde o coletivo está acima do individual - aderiu. Entre 2001 e 2009, o volume de lixo que não pode ser reciclado caiu 42%.
Em Odaiba, um dos bairros mais modernos de Tóquio, com prédios futuristas de cara para a baía, o reaproveitamento do lixo é de 100%. Os detritos não biodegradáveis são enviados diretamente para uma usina de processamento através de uma extensa rede. A energia produzida é utilizada pelos prédios da própria região. Já a parte biodegradável vira fertilizante.
O Globo, 19/03/2012, Rio, p. 9
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.