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A região de águas fartas ganha a cara do sertão

O Globo, O País, p. 12
16 de out de 2005

A região de águas fartas ganha a cara do sertão
Estiagem: Ligação de milhares de moradores da Amazônia com o mundo se dá por barco, transporte inviável com a seca
Povoados que tinham lagos gigantes à sua volta passam a conviver com imensos areais e enfrentam a ameaça da fome

O cenário é desolador. No estado do rio mais caudaloso do planeta, o Amazonas, os moradores fazem fila indiana carregando latas d'água na cabeça, como se estivessem no sertão nordestino. O povoado de Dominguinhos, em Caapiranga, a 170 quilômetros de Manaus, fica à beira do Lago Grande de Manacapuru, que normalmente tem mais de dez quilômetros de extensão e extremidades que em tempos normais juntam-se a rios e igarapés, formando um imenso lençol d'água. Com a seca, o grande lago deu lugar a vastas extensões de areia, pequenos riachos e açudes formados aqui e ali pela água restante.
Os 139 moradores estão isolados e buscam um jeito de ir à cidade vizinha comprar combustível e alimentos. Sem estradas, a ligação com o mundo se dá por barco, a exemplo do que ocorre na maioria dos municípios do Amazonas.
A agricultora Marinês Pinheiro da Silva, de 26 anos, vive numa casa de madeira de uma única peça com a mãe, o irmão e dois filhos. Por causa do isolamento, deixou de produzir farinha de mandioca - não tem como vender o produto. O jeito é pescar. Antes bastava caminhar dez metros e subir na canoa. Agora, caminha uma hora sobre a areia do lago e praticamente recolhe os peixes encurralados em bolsões d'água que ainda resistem à seca. A questão, indaga ela: até quando?
- Temos comida para hoje e amanhã. Depois tem que pescar de novo.
Fome ronda os povoados
Povoados como Dominguinhos, completamente isolado, já começam a enfrentar a falta de alimentos, remédios, combustível e água potável. Pior: mesmo que chuvas torrenciais venham a cair nas cabeceiras dos rios, serão necessárias pelo menos mais duas semanas até que o nível da água suba nos municípios mais atingidos pela mais forte seca dos últimos 50 anos. A meteorologia só prevê chuvas fortes a partir de novembro.
O governo do Amazonas decretou estado de calamidade em 61 de suas 62 cidades, deixando de fora apenas a capital, Manaus. Em sete delas, porém, a situação é mais grave, especialmente na zona rural, onde vivem cerca de 80 mil pessoas. É a população que mais sofre num cenário há muito não visto.
- A alimentação está escassa porque está ficando muito cara. Quem tem mantimentos cobra três vezes o valor. A população está no limite dos recursos estocados. Se a chuva não vier, a situação que já é crítica vai ficar desesperadora - diz o governador Eduardo Braga.
Num dos açudes que ainda restam em Dominguinhos está ancorado, ou melhor, ilhado, o barco do comerciante Antônio Ferreira da Silva, de 42 anos. Dono do único armazém do povoado, ele usa a embarcação para percorrer vilarejos e fazer negócios de todo tipo. O comércio é feito à base do escambo: Silva recebe bananas e mandioca em troca de sabão, óleo de cozinha, café e açúcar. É com o barco que ele vai ao município de Manacapuru, onde compra os produtos no armazém. Por causa da seca, sua última viagem foi em setembro. O estoque deve durar mais um mês.
- Quando acabar, não tem como trazer mais. O jeito vai ser fechar as portas e esperar a chuva - diz Silva.
Dominguinhos já está sem remédios e, na escola, as aulas foram suspensas em setembro, depois que os barcos do transporte escolar deixaram de navegar.

Ajuda começa a chegar a moradores
Governador vai pedir ao TSE que vítimas da seca não votem no referendo

Ao lado do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Jorge Félix, o governador do Amazonas, Eduardo Braga (PMDB), entregou ontem o primeiro lote de cestas básicas para municípios com problemas de abastecimento em Manaquiri, a 70 quilômetros de Manaus. A medida tem também caráter preventivo, pois a falta de alimentos tende a se agravar nas próximas semanas, caso a seca se prolongue.
Braga anunciou que vai pedir ao Tribunal Regional Eleitoral e ao Tribunal Superior Eleitoral que a população das áreas do estado mais atingidas pela seca sejam dispensadas de votar e pagar multa no referendo sobre a venda de armas no próximo domingo. Como não há estradas, muitos moradores da zona rural estão isolados depois que lagos e riachos secaram.
- Não há condições de vocês irem votar. Vamos fazer um apelo para que haja anistia da multa de R$4 (para quem não justifica a ausência no dia de votação) - disse o governador a moradores do povoado de Inajá, a 27 quilômetros da sede de Manaquiri, um dos municípios mais atingidos pela estiagem.
O principal desafio é levar mantimentos e remédios até os povoados isolados, o que esbarra na penúria financeira do Exército. O Ministério da Integração Nacional repassou R$1 milhão ao Exército, mas o dinheiro é suficiente só para o início dos trabalho. Cada hora de vôo de helicóptero custa cerca de US$5 mil.
Os deputados federais Fernando Gabeira (PV-RJ) e Pauderney Avelino (PFL-AM), integrantes da comitiva, apoiaram a dispensa de votação.
- Vou avaliar o caso na segunda-feira, mas uma resolução do próprio TSE deve resolver o problema - disse Avelino.
A pé, os moradores do povoado levam 12 horas para chegar a Manaquiri. De barco, quando o rio está cheio, são três horas.
Secretário manda exibir marca do governo nas sacolas
Braga distribuiu cinco cestas básicas a moradores de Inajá. Em Manaquiri, repassou uma carreta cheia de alimentos ao prefeito Jair Souto. Cada cesta tem 25 quilos de comida, acondicionada numa sacola com o logotipo da operação estadual contra a seca "SOS Interior- Ação emergencial do governo do estado", a bandeira do estado e a inscrição "Governo do Amazonas". Serão distribuídas 50 mil cestas compradas com recursos estaduais e outras 50 mil doadas pelo governo federal.
- Mostra o selo - disse o secretário de Saúde de Amazonas, Wilson Alecrim, orientando moradores que transportavam as cestas para que o logotipo do governo estadual ficasse visível para as câmeras.

Críticas à mídia na cobertura sobre o Norte
Tese mostra que imprensa do Sudeste retrata mal a região
Quando o inverno começa nas demais regiões do Brasil, é verão na região Norte. Segundo o pesquisador paraense Paulo Oliveira, essa informação passa despercebida no noticiário e contribui para criar uma imagem errada sobre o Norte do país. A cobertura da imprensa do Sudeste sobre a região amazônica é o assunto da tese de mestrado que ele defendeu na Escola de Comunicação da UFRJ. "Amazônia, mitos e realidade" mostra que o desconhecimento sobre o Norte se deve em grande parte à falta de informação na mídia.
- As maiores agências de notícias estão no Rio e em São Paulo, e a imagem produzida por elas sobre a região Norte não corresponde à realidade do local - diz.
No noticiário recente sobre a redução do volume de água dos rios da Amazônia, o pesquisador defende que se use a palavra estiagem para tratar do fenômeno e não seca:
- O que temos lá agora é a estiagem, a queda do volume de água dos rios.
O pesquisador cita ainda as notícias meteorológicas veiculadas na TV.
- A moça do tempo diz que vai começar o inverno em quase todo o Brasil, e não informa que no Norte, que representa quase a metade do país, é o contrário.
Oliveira critica ainda a falta de reportagens nos cadernos de turismo informando que a melhor época para se visitar a Amazônia é em junho, por causa do verão lá.

Nível dos rios baixa, frete sobe

Donos de barcos na Amazônia querem aumentar de 15% a 30% o valor do frete por causa da seca que deixa o nível do rios cada vez mais baixo. Para não encalharem, embarcações de carga navegam com menos da metade da capacidade.
- Ninguém pode transportar 60% a menos e continuar cobrando o mesmo preço. Desse jeito, vamos quebrar - diz o presidente do Sindicato das Empresas de Navegação, Paulo Alecrim.
Os empresários também pressionam o governo do Amazonas a conceder isenção de ICMS.
O transporte de passageiros também enfrenta problemas. Barcos de grande porte que operam a linha Manaus-Porto Velho (RO) estão há quase três meses parados por causa da seca no Rio Madeira. Um deles é o Almirante Moreira VII, com lugar para 240 pessoas. O administrador do barco, Geraldo Moreira, diz que normalmente ele fica um mês parado por causa da seca. Desta vez, porém, o problema é maior.
- A seca deste ano é recorde. Estamos substituindo os barcos grandes por menores. Vamos na frente, de lancha, para balizar o caminho. Dá muito trabalho e estamos perdendo dinheiro - diz Moreira.

O Globo, 16/10/2005, O País, p. 12

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