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Região Amazônica tem perigos no ar, na terra e no rio

Estado de Minas (Belo Horizonte - MG) - www.em.com.br
Autor: Daniel Camargos
18 de mar de 2015

Santarém (PA) - A metáfora que a técnica em enfermagem Josélia Maia Barros encontra para definir como se sente voando em pequenos aviões pela região amazônica é a de estar dentro de uma caixa de fósforos: "Pega uma caixinha e balança. É essa a sensação". Josélia trabalhou por seis anos, entre 2004 e 2010, para a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), órgão vinculado ao Ministério da Saúde, atendendo a população da terra indígena Nhamundá Mapuera, que abriga 11 etnias, com predominância dos Wai-Wai, na divisa do Pará com Roraima. Como ela, um verdadeiro exército de profissionais da área de saúde corta os céus da Amazônia em pequenas aeronaves para levar o mínimo de assistência à população ribeirinha e para tribos isoladas. Josélia era amiga de Rayline Sabrina Brito Campos, a técnica de enfermagem morta há exatamente um ano em acidente aéreo que deixou mais quatro vítimas.

Na edição dessa terça-feira (17), o Estado de Minas reconstituiu os dias que antecederam o desastre, o drama pela busca dos corpos e a alegria da família Brito pelo nascimento da sobrinha de Rayline, batizada em homenagem à tia. O acidente que matou cinco pessoas não representa uma exceção no padrão das viagens pela maior região do Brasil. De acordo com dados do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), vinculado à Força Aérea Brasileira (FAB), somente no ano passado, no Pará, foram 10 acidentes aéreos, 21 nos estados da Região Norte.

Depois de passar por vários sustos nas viagens de avião entre Oriximiná e Cachoeira Porteira, Josélia desistiu de viajar nos aviões. A alternativa escolhida foi subir o Rio Trombetas em pequenas embarcações guiadas pelos índios. A viagem que durava menos de duas horas de avião poderia chegar até a três dias, parando em aldeias às margens do rio para dormir. "O que eu envelhecia viajando 1h45m de avião eu não envelhecia passando três dias subindo o rio de barco", compara.

Josélia recorda a ocasião em que estava num avião monomotor de cinco lugares a caminho da reserva Nhamundá Mapuera e quase aumentou a estatística de acidentes. "Foi um temporal muito forte e o avião começou a 'jogar' bastante. Subiu, subiu, subiu e de uma hora para outra começou a descer", descreve a técnica em enfermagem. "Só não morremos porque teve a mão de Deus", acredita. Além da intervenção divina, ela atribui a sobrevivência ao piloto, que, com habilidade, conseguiu evitar a tragédia. "Quando encontro ele na rua, nos abraçamos como se fôssemos da mesma família", conta.

O emprego atual de Josélia na Casa de Saúde Indígena (Casai), em Santarém, cidade com 300 mil habitantes no Oeste do Pará, é o mesmo a que Rayline se candidatou três dias antes da tragédia, quando estava voando de Itaiatuba para Jacareacanga a caminho da tribo mundurucu Sai Cinza, onde atenderia os indígenas. Foi o chefe da Casai, o biólogo Joaquim Martins da Silva, que recebeu o pedido de emprego. Joaquim disse que faria tudo para ajudá-la, mas foi surpreendido pela tragédia.

O medo de que perderia a vida em um acidente foi um dos motivos que levou Josélia a deixar de atender os índios na aldeia. Ela conta que adorava o emprego e chegou, inclusive, a aprender a língua nativa waiwai, mas os temores da locomoção e também o fato de ter uma filha que exige cuidados de saúde a levaram a trocar de função. "O salário não paga o esforço, mas a recompensa é ver a assistência que prestamos a pessoas que necessitam na sociedade", avalia a técnica em enfermagem. Além do salário pouco motivador (R$ 2.006 por mês), a falta de estrutura também é um problema enfrentado. "Uma índia precisava ser levada para um hospital, pois estava com problemas para fazer o parto. Não podíamos chamar a aeronave, pois havia um problema no convênio entre a empresa e o governo", recorda Josélia. O atraso deixou a criança com sequelas.

DESAFIOS DA FLORESTA O piloto de avião Fabricyo Sardinha, de 33 anos, é de Santarém e trabalha para uma empresa de táxi aéreo da cidade desde 2001. Para ele, o grande desafio de quem sobrevoa a região é o clima, com muita chuva e temporais constantes. Outro problema, segundo o piloto, é a grande quantidade de pistas que não são homologadas. A alternativa, ele detalha, é voar próximo às margens dos rios, onde a possibilidade de resgate é maior. "O problema de voar sobre a floresta são os animais caso consiga sobreviver em um pouso forçado. Além disso, tem que dar a sorte de conseguir ser resgatado", explica.

O ex-garimpeiro Natanael Alves de Souza também se considera um sobrevivente. No dia 31 de janeiro de 1973 um avião em que estava com o filho de 4 anos e a esposa grávida caiu na floresta, no Sudoeste do Pará, próximo à divisa com o Amazonas. "O avião queimou todo e só sobrou a biquilha", recorda. Ele, a família e o piloto conseguiram escapar antes da explosão. "Fraturei as costelas e todo mundo levou golpes por causa da queda", detalha. O dia é lembrado com precisão por Natanael pois é a mesma data que o cantor Evaldo Braga, o Ídolo Negro, morreu em um acidente automobilístico, em Três Rios, no Rio de Janeiro.

Durante os anos em que viajou pela região, Natanael passou outros apertos. Estava a bordo de um pequeno avião quando o trem de pouso não funcionou; em outra situação, sobreviveu a uma aterrissagem forçada na água. Depois do acidente com a família, o susto foi grande e Natanael deixou o garimpo - e as viagens temerosas de avião -, chegou a ser presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santarém e há alguns anos trabalha para o projeto Saúde e Alegria, uma ONG que atua na região do Rio Tapajós e atende a cerca de 30 mil pessoas em 150 localidades.

A arte-educadora Elis Lucien Rodrigues precisa viajar constantemente de barco pelo Rio Tapajós para chegar até as comunidades ribeirinhas atendidas pela ONG. "Tem que saber navegar, pois o rio parece um mar. As mulheres ficam nervosas, sofrem 'passamentos' como nós dizemos por aqui, mas não tem alternativa", explica. Elis lembra de uma viagem que fez acompanhando uma equipe de televisão, quando estavam no barco e uma tempestade os surpreendeu no meio rio. "A onda estava assim", diz acompanhando um gesto mostrando algo enorme. "Fiquei apavorada e pálida", descreve. De acordo com a Marinha, somente no Rio Amazonas, o maior do país, aconteceram 86 acidentes no ano passado, sendo 31 pessoas morreram e outras 35 ficaram feridas. O número foi maior do que o de 2013 (25 mortes, 22 feridos).

Os riscos para quem vive no Norte do país estão em todos os tipos de transporte. Mineira de Belo Horizonte, a indigenista da Funai, Isabel Saraiva vive no Pará desde 2010. Primeiro morou em Itaituba e depois em Santarém, onde permanece atualmente. Quando morou em Itaituba e precisava ir para Jacareacanga, região com indígenas da etnia munduruku, fazia o trajeto de ônibus, pois à época a Funai, segundo ela, não podia fretar aeronaves.
Percorria 420 quilômetros na Transamazônica. "Quando chovia, o ônibus deslizava demais. Uma vez tive vontade de descer e ficar esperando na estrada", recorda. Os desafios dão medo, segundo ela, mas o trabalho a motiva. "É um público com muita vulnerabilidade", pondera. "Mas teríamos que ter mais estrutura", destaca.

Na edição dessa terça-feira (17), o Estado de Minas reconstituiu em reportagem especial os últimos dias de vida de Rayline Campos, técnica em enfermagem que morreu em acidente aéreo com mais quatro pessoas em 18 de março de 2014. A história comoveu o Brasil pelas mensagens desesperadas que a jovem enviou ao tio pelo celular, poucos minutos antes de morrer: "Tô em temporal e um motor parou, avisa a mãe que amo muito todos...", escreveu Rayline. Um ano depois da tragédia, as investigações sobre as causas da queda do avião ainda não foram concluídas.

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