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Reflorestar área ampliaria reserva de água em SP

OESP, Metrópole, p. A26
07 de set de 2014

Reflorestar área ampliaria reserva de água em SP
Recuperar 3% da mata nativa reduziria pela metade assoreamento nos Sistemas Cantareira, Alto Tietê, Guarapiranga e Rio Grande

Fabio Leite - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - A recuperação e a conservação de apenas 3% das áreas dos quatro principais mananciais que abastecem a Grande São Paulo reduziriam pela metade o assoreamento dos córregos e rios que alimentam as represas, garantindo mais água e melhor qualidade em tempos de escassez hídrica.
A constatação é de um estudo feito por uma organização ambiental internacional, em meio a polêmicos projetos de transposição e disputas com outros Estados por litro remanescente nos reservatórios que atravessam grave crise de estiagem.
Segundo levantamento feito pela The Nature Conservancy (A Conservação da Natureza, em tradução literal), o reflorestamento de 14,3 mil dos 493,4 mil hectares que formam os Sistemas Cantareira, Alto Tietê, Guarapiranga e Rio Grande diminuiria em 568,9 mil toneladas o aporte de sedimentos despejados nos corpos d'água que alimentam os reservatórios. Juntos, os quatro mananciais representam 98% da capacidade de armazenamento de água para abastecer cerca de 25 milhões de pessoas na Grande São Paulo e na região de Campinas.
"A sedimentação tem impacto direto na quantidade e na qualidade da água dos mananciais. Isso ocorre quando não há cobertura vegetal ao redor dos rios e represas. O solo exposto, além de sofrer erosão e não absorver a água da chuva, provoca o escoamento de terra para corpos d'água, assoreando o leito e diminuindo a vida útil dos reservatórios", explica Samuel Barrêto, coordenador do Movimento Água para São Paulo, criado pela organização ambiental.
Segundo ele, a recuperação dessas áreas, que envolveria, entre outras ações, o pagamento por serviços ambientais a proprietários rurais que possuem nascentes em suas terras, custaria cerca de R$ 200 milhões em dez anos. "É o que chamamos de investimento em infraestrutura verde. São intervenções que não trazem resultados a curto prazo, mas precisam começar agora para dar resultado lá na frente, antes da próxima crise. Em cinco anos, já teríamos um ganho com maior produção e armazenamento de água e menor custo com tratamento e dragagem, em vez de ficar sempre apagando incêndio como fazemos hoje", afirma Barrêto.
O custo do projeto corresponde a 40% do valor previsto para a obra de transposição de água da Bacia do Rio Paraíba do Sul para o Sistema Cantareira, anunciada em março pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB). Orçado em R$ 500 milhões, o projeto visa a socorrer o maior manancial paulista a partir de 2016. A ideia, contudo, iniciou uma guerra pela água com o governo do Rio e cidades do Vale do Paraíba, que são abastecidas pelo rio.
Perda. Dados do movimento indicam que as regiões dos mananciais já perderam 70% da sua mata nativa. A ONG utilizou uma ferramenta que detecta as diferentes formas de uso da terra nas áreas de proteção ambiental e calcula seus impactos no processo de erosão do solo e sedimentação dos rios para indicar as áreas mais críticas que deveriam receber o investimento. Segundo o estudo, 95% da área escolhida no Cantareira, na região de Bragança Paulista, Joanópolis, Atibaia e Nazaré Paulista, é usada para pastagens. Já nos mananciais Alto Tietê, Guarapiranga e Rio Grande, que ficam na Grande São Paulo, 50% das terras são usadas como pasto e 40% para a agricultura.
A ideia da ONG é replicar em São Paulo o modelo que tem dado resultado na cidade de Extrema, no sul de Minas (mais informações ao lado).
Segundo Devanir Garcia dos Santos, gerente de uso sustentável da água e do solo da Agências Nacional de Águas (ANA), se práticas como essas já tivessem sido adotadas em São Paulo, o impacto da seca seria menor. "Essa crise envolve uma série de fatores, como as mudanças climáticas. Mas, se isso já existisse ao longo das bacias, certamente estaríamos sentindo menos essa redução das chuvas porque teríamos uma poupança maior de água no solo."

Extrema, em Minas, é exemplo de infraestrutura verde para o mundo
Programa adotado pelo município mineiro foi premiado pela ONU; plano de conservação já existe em 20 cidades

Fabio Leite - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Oito anos após o primeiro plantio de mudas, o município de Extrema, ao sul de Minas Gerais, na divisa com São Paulo, é a prova de que o investimento em infraestrutura verde dá resultado. Enquanto trechos degradados de grandes rios como o Tietê praticamente secaram diante da pior crise de estiagem dos últimos 84 anos, cerca de 700 afluentes do Rio Jaguari que foram cercados e reflorestados na cidade mineira continuam drenando água para o principal manancial que alimenta o Sistema Cantareira.
"Muitos córregos e riachos que cortam pastos e ainda não receberam uma cobertura florestal desapareceram com a seca, enquanto que nos corpos d'água onde já fizemos o reflorestamento a vazão da água caiu 40%, mas eles continuam alimentando o Jaguari, que vai lá para São Paulo", afirma o secretário do Meio Ambiente de Extrema, Paulo Henrique Pereira, responsável pelo projeto "Conservador das Águas", premiado pelo Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (ONU/Habitat).
Desenvolvido em parceria com os governos estadual, federal e entidades não governamentais, o projeto tem como foco o cercamento para o reflorestamento e recuperação das áreas lindeiras aos corpos d'água e utiliza o pagamento por serviços ambientais a proprietários rurais para estimular a difusão da prática. Segundo Pereira, já existem hoje 170 proprietários cadastrados, que recebem R$ 221 por hectare/ano para preservar córregos e riachos. Atualmente, são cerca de 7.300 hectares sob proteção, que abrigam cerca de 700 nascentes e custam R$ 60 mil por mês ao município. Todas elas deságuam em afluentes ou diretamente no Rio Jaguari, que nasce mais ao norte de Minas, em Sapucaí-Mirim, e vai até Bragança Paulista, a cerca de 100 quilômetros de São Paulo, onde forma a maior represa do Cantareira com o reservatório Jacareí.
Expansão. Segundo Devanir Garcia dos Santos, gerente de uso sustentável da água e do solo da Agência Nacional das Águas (ANA), parceira do projeto, o "Conservador das Águas" já é realidade em outras 20 cidades, incluindo Joanópolis e Nazaré Paulista, no Sistema Cantareira, com mais de 1,2 mil produtores recebendo por serviços ambientais prestados e 40 mil hectares recuperados.
"A ideia é usar pagamento por serviços ambientais como forma de implementar boas práticas, convencer o produtor a adotar boas práticas. Mas, além disso, nós adotamos outras práticas mecânicas, como a construção de bacias de contenção ao redor das estradas e terracionamento (espécie de degrau) nos morros. Tudo para evitar que o impacto da chuva no solo arraste sedimentos e para que a água tenha mais tempo para infiltrar no solo", explica.

Governo diz que desmate acabou e recuperará espaços

A Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo afirmou, em nota, que "não há verificação de desmatamento em áreas de mananciais", mas disse que nos últimos quatro anos aplicou 5,5 mil autos de infração ambiental relacionados ao desmate em cidades nas áreas dos Sistemas Cantareira e Alto Tietê.
"São Paulo é uma das únicas regiões em desenvolvimento do mundo que têm tido incrementos sucessivos de cobertura vegetal nativa, até ciliar. Detectou-se que 17,5% do território paulista possui vegetação nativa e desde 2010 foram mapeados 184.500 novos fragmentos de vegetação com área mínima de 0,25 hectares." / F.L.

OESP, 07/09/2014, Metrópole, p. A26

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