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A reengenharia da esperança

OESP, Alías, p. J5
Autor: MARTINS, José de Souza
30 de Jan de 2005

A reengenharia da esperança
Sem convergência de interesses, Fórum Social Mundial perde foco e será obrigado a repensar prioridades

José de Souza Martins

Na mensagem que dirigiu aos participantes do Fórum Econômico Mundial, em Davos, o presidente da França, Jacques Chirac, alertou para o fato de que os jovens dos países em desenvolvimento poderão se revoltar se não lhes for oferecida a esperança de um futuro melhor. Não só dos países em desenvolvimento, mas também dos países ricos, ele poderia ter dito.
No Fórum Social Mundial o que conta como fator de animação, em perspectiva oposta, é o mesmo que inquieta os participantes de Davos. Em primeiro lugar, sem dúvida, o fim da esperança, também para as populações materialmente bem servidas dos países ricos. A sociedade atual esvaziou-se de seus conteúdos históricos, suprimiu de seu horizonte a mudança e o novo transformando-os no espetáculo da mudança programada, privou-se da motivação de transformar-se para incluir permanentemente os que ficaram de fora, o Terceiro Mundo, e os que estão chegando, as novas gerações.
De modo desarticulado e carnavalizado, é essa a preocupação que costura a colcha de retalhos da multiplicidade de causas e atores que se reúnem em Porto Alegre. Se em Davos há um sujeito de interesses convergentes, a personificação do dinheiro e do poder, em Porto Alegre não há sujeito definido, uma causa clara. Há um anti-sujeito, sem dúvida. Nisso Porto Alegre perde. A multiplicidade de temas e alternativas que seus participantes estão levantando não converge para a constituição de um agente de transformação social dotado de um projeto político historicamente possível. Mas, se em Davos está o poder do dinheiro e dos governos, em Porto Alegre está a febre sintomática das enfermidades sociais e políticas que as opções de Davos causam e das injustiças que difundem, das insuficiências que geram.
Em Porto Alegre desembarcaram muitos débitos sociais, muitas necessidades não resolvidas, mas não todas nem a maior parte nem as mais decisivas. Porque o canal de acesso ao Fórum Social é um canal sinalizado, controlado e limitado. Há um vocabulário regulador, uma espécie de senha que diz quem é bem-vindo e quem não é. Nesse sentido, há ali pouco ou nenhum lugar para a verdadeira tradição do pensamento crítico e, portanto, das problematizações que nos ajudem a sair deste vale de lágrimas. Como em Davos.
No Fórum Social, o espaço do pensamento crítico é minguado. Um único sociólogo, além da longa viagem internacional para falar em Porto Alegre, foi programado para nada menos do que doze participações para tratar de um vasto campo de questões. Algo quase tão espetacular quanto a sucessão de identidades de Marcos Nanini e Nei Latorraca em O Mistério de Irma Vap.
O Fórum faz bem em proclamar a paz. Mas o que menos há nos subterrâneos do Fórum é a paz desejada. O antiimperialismo junta apenas em relação a um pequeno elenco de temas. Mas não suprime antagonismos como os que há entre o MST e o governo do PT.
O discurso de um sociólogo sobre teologia não propõe uma ponte consistente sobre o abismo que separa crentes e ateus: sugere apenas derivar, e priorizar, uma esperança materialista, e política, da esperança escatológica. Ou mesmo a admirável consigna de teólogo católico ali presente de que se deve trabalhar por outra concepção de Deus, um Deus que não sirva de pretexto e justificativa para os conflitos que nos atormentam e nos aniquilam.
SOLIDÁRIO NO CONFLITO
Mas, santo Deus, como será isso possível se muitos grupos, certamente não todos, que participam do Fórum Social fazem-no em nome da atualização da luta de classes e, portanto, do conflito social? O que aí se propõe não é apenas um novo Deus, mas um novo socialismo, o dos que sofrem a pobreza e a injustiça, um socialismo centrado na mística da solidariedade. Politicamente, um socialismo de questionamento da democracia representativa. Um socialismo apoiado na democracia participativa cujo sujeito é o pobre. E a diversidade pequeno-burguesa do Fórum, onde fica?
O Fórum, no entanto, é sem dúvida uma instituição a cujas inquietações o Fórum Econômico de Davos deveria estar atento. Não só ele e os governos, mas a sociedade inteira. A festa de Porto Alegre expressa, acima de tudo, o esvaziamento e o fim das formas históricas de confronto social que conhecíamos. Até mesmo as relativamente recentes, dos vibrantes movimentos sociais, como o emblemático movimento estudantil de 1968, que abalou países ricos e pobres. O Fórum põe na cena histórica a fragmentação do sujeito da História, a multiplicidade de sujeitos, de necessidades não atendidas, de demandas novas. No fim, propõe sem querer e até sem saber uma reengenharia do social, uma generalizada reinvenção social, que vai da economia alternativa à nova concepção de Deus. Porto Alegre sumariza as oficinas de trabalho que em toda parte lutam pela descoisificação do ser humano.
No entanto, o terreno dessa reelaboração tem marcos que representam uma certa renúncia a ser decifrada. A multidão juvenil inquieta levou de carona ao Fórum Social os novos intelectuais orgânicos do alternativo, na verdade velhos intelectuais reciclados. Já não se trata do novo e revolucionário, transformador, mas do paralelo e reordenador. A ação histórica se propõe fragmentada, convergente na encenação da festa, mas divergente e dispersa na substância. No Fórum, o novo agente das demandas sociais e das mudanças sociais reflui para a condição pré-política de multidão reativa, que constrói seu projeto difuso como antagonismo, ponto a ponto, em relação a todas as perversidades e iniqüidades de que a economia e a sociedade contemporâneas se nutrem.
DESEJOS RADICAIS
O Fórum Social é a apoteose das lutas sociais contemporâneas e a expressão litúrgica daquilo a que estão resumidas. Mas, em Porto Alegre, encontraram-se as múltiplas categorias residuais, geralmente de classe média, da desagregação do movimento operário ao longo dos últimos trinta anos. É significativo que a classe operária não tenha um lugar central no Fórum Social e que o operário emblemático do Fórum, Lula, tenha sido vaiado na sua nova identidade de presidente Luiz Inácio.
O Fórum dá visibilidade e cor aos sucessores dos partidos políticos de esquerda e dos movimentos sociais na constituição da multidão reativa, que parece ser o novo sujeito difuso da mudança social, cuja práxis é mero antagonismo edificante, em que o contrário é mero oposto e não superação nem história. Não é nem um pouco estranho que as organizações dos bastidores do Fórum, como as igrejas, as ordens religiosas, os grupos de gênero, os grupos raciais e étnicos, as empresas de serviços políticos que substituem os partidos, sejam também agentes de uma grande oficina de reelaboração do sistema conceitual da grande tradição da esquerda. O conceito de exclusão ocupa o centro da cultura do Fórum, e em nome da revolução propõe a mera mudança; em nome da superação, a integração dos excluídos no eixo do sistema de reprodução da riqueza. A concepção nuclear de contradição cede o palco para o alternativo. A utopia da revolução é vencida pela ideologia de que "outro mundo é possível" através de uma economia alternativa que é uma economia de feira, através de uma sociedade alternativa que é mera comunidade corporativa e pré-política.
Chegamos aos tempos da contestação mansa, sob a tempestade do radicalismo verbal. De fato, nenhum dos problemas tratados no Fórum diz respeito ao que Agnes Heller define como "necessidades radicais", as que só podem ser satisfeitas com transformações sociais profundas. Em Davos, 89% dos participantes afirmam que poderiam fazer mais do que estão fazendo para melhorar as condições sociais da população. Bom terreno para as reivindicações de um líder sindical que, de certo modo, é também o mensageiro do Fórum Social de Porto Alegre.
Nessa perspectiva, a distância entre Porto Alegre e Davos é pequena, provavelmente mais uma questão de forma do que de conteúdo. Não é estranho, portanto, que Lula, homem experiente em negociação sindical, se proponha a percorrê-la.

OESP, 30/01/2005, Alías, p. J5

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