CB, Brasil, p.16
19 de Abr de 2005
Recorde de queimadas
Relatório aponta que focos de incêndio, a maioria na Amazônia Legal, chegou a 135 mil em 2004. É o número mais alto registrado pelo Inpe
Ullisses Campbell
Da equipe do Correio
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) enviou ao Ministério do Meio Ambiente um relatório apontando que, no ano passado, o número de queimadas no Brasil bateu todos os recordes nacionais. Segundo esse documento, de janeiro a dezembro de 2004, foi devastada pelo fogo uma área de 29 mil quilômetros quadrados, o equivalente a cinco vezes a área do Distrito Federal. Cerca de 80% desse incêndio ocorreu na Amazônia Legal, principalmente nos estados do Mato Grosso e Pará.
O Ministério do Meio Ambiente só vai divulgar o relatório do Inpe referente a 2004 no mês que vem. Mas já estão disponíveis, no site do Instituto, os dados de focos de incêndios florestais até de abril de 2005. Os números são enviados diariamente por cinco satélites que fazem uma varredura no solo brasileiro.
Em todo o ano de 2004, segundo o relatório do Inpe, houve 236 mil incêndios florestais no Brasil, 135 mil deles só na Amazônia Legal. No ano anterior, foram registrados 208 mil focos e as terras mais queimadas também estavam na Amazônia (131,5 mil).
A tendência de crescimento dos incêndios segue este ano. Segundo o Inpe, de janeiro a abril deste ano foram encontrados pelos satélites 17,2 mil focos de queimada na floresta amazônica. No mesmo período de 2004, os satélites encontraram 10,6 mil. O pior ainda está por vir. Em junho e julho, a floresta vai incendiar, literalmente, e esses números vão quadruplicar, alerta o pesquisador do Inpe, Alberto Setzer. Pelas previsões do Inpe, o ano de 2005 vai fechar com pelo menos 300 mil focos de incêndio em todos os estados.
Segundo a análise do pesquisador Alberto Setzer, do Inpe, o aumento das fronteiras agrícolas e a falta de fiscalização do Ibama contribuem para o aumento progressivo dos incêndios na floresta. No Brasil ocorre ainda um fenômeno de requeimada. As pessoas queimam a primeira vez para fazer pasto ou plantação e queimam o que restou, diz Setzer.
O encarregado de monitorar o trabalho dos fiscais do Ibama, Marcelo Cruz, rebate dizendo que existem atualmente 639 funcionários atuando só na Amazônia, 20% a mais que o efetivo de 2004. Ele lembra, no entanto, que esse pessoal atua em todas as frentes de trabalho, inclusive no combate ao tráfico de animais silvestres. O fiscal do Ibama não combate incêndios florestais. Eles fazem a autuação e lavram a multa, ressalta Cruz. Outra justificativa para o aumento dos incêndios, segundo o Ibama, é que o órgão ambiental do Mato Grosso está concedendo muitas licenças para queimadas. Essas queimadas acabam sendo computadas pelos satélites, diz.
Com o início do período da seco, a tendência é que esses focos aumentem ainda mais em todo o país, mas principalmente na região Centro-Oeste e na Amazônia, onde se queima floresta tropical 365 dias por ano. No Brasil há uma lei específica que proíbe queimadas, mas na Amazônia ninguém a respeita, lembra Alberto Setzer, do Inpe.Entre 2002 e 2003, a área destruída foi de 23.750 quilômetros quadrados. É a segunda maior registrada na Amazônia. O recorde anterior foi em 1995.
PF investiga madeira ilegal
A Polícia Federal abriu ontem inquérito para investigar a extração ilegal de madeira do projeto de assentamento Tarumã Mirim, em Manaus. No fim da tarde da última sexta-feira, policiais militares, acompanhados pelo técnico do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) responsável pelo projeto, Omar Oliveiria, autuaram em flagrante o assentado Walter Santos Steel. Com Steel os fiscais encontraram um trator carregado com cerca de nove metros cúbicos de madeira retirada da reserva ambiental do assentamento. A ocorrência foi registrada na Delegacia de Meio Ambiente da Polícia Federal porque ocorreu em áreas da União. Nos 42 mil hectares do assentamento Tarumã Mirim moram 1.079 famílias. A área tem sido freqüentemente devastada, mas a gente não conseguia apontar os culpados. Quase metade dessa reserva legal, que tem mil hectares, já está desmatada, informou Omar. Segundo ele, o Incra abrirá um processo para expulsar Walter do assentamento, baseado no Estatuto da Terra.
Os municípios recordistas
Em 2004, foram detectados por satélites 135 mil incêndios florestais na Amazônia, que devastaram 25 mil km² de terras na região. Veja os municípios mais atingidos pelo fogo no ano passado
Município - Focos de incêndio
1o Tapurá (MT) - 4,9 mil
2o São Félix do Xingu (PA) - 3,9 mil
3o Nova Ubiratã (MT) - 3,5 mil
4o Novo Progresso (PA) - 3,2 mil
5o Altamira (PA) - 3 mil
6o Querência (MT) - 2,8 mil
Fonte: Inpe
Invasões e pecuária são as vilãs
Os satélites que monitoram queimadas passam pelo Brasil sempre no final da tarde. O mais antigo e eficiente na captura de focos de incêndio em território nacional é o Noaa 12, no espaço há mais de 10 anos. No ano passado, ele apontou 232,6 mil pontos em todo o país. O Mato Grosso aparece em primeiro lugar, com 75,4 mil incêndios. O Pará é segundo no ranking das queimadas, como 40,7 mil. A terceira posição é ocupada pelo Tocantins (13,2 mil). O Distrito Federal aparece na última posição, com 93 mil incêndios.
Segundo avaliação do coordenador do programa Amazônia do Inpe, Dalto de Morrison, o aumento dos desmatamentos na floresta amazônica está diretamente relacionado com o avanço dos assentamentos de trabalhadores rurais feitos pelo Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e com as invasões de terras.
Segundo dados do satélite Noaa, mais de 70% de todos os desmatamentos ocorridos na Amazônia brasileira em 2004 têm origem em terras localizadas no norte do Mato Grosso, onde o plantio da soja avança sem precedentes; no sul e sudeste do Pará, onde a atuação de movimentos sociais que lutam pela posse da terra é acentuada; no norte do Tocantins, no sudoeste do Maranhão e nas terras às margens da rodovia BR-364, que liga Cuiabá (MT) a Porto Velho (RO).
A pecuária também é vilã dos desmatamentos. Segundo dados do Inpe, esse atividade ocupa 75% das áreas desmatadas, sendo os médios e grandes pecuaristas os maiores responsáveis pela ocupação das terras desmatadas. As margens da BR-163 (Cuiabá-Santarém) também vêm concentrando grande parte dos focos de incêndio captados pelos satélites do Inpe. A gente percebe que há uma corrida de agricultores para essa região, observa Alberto Setzer, do Inpe.(UC)
CB, 19/04/2005, p. 16 (Brasil)
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