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Realismo radical sobre mudança climática

Valor Econômico, Opinião, p. A13
Autor: FUHR, Lili
08 de Nov de 2016

Realismo radical sobre mudança climática

Lili Fuhr

A política tradicional, por definição, é mal preparada para conceber mudanças fundamentais. Mas em dezembro passado, em Paris, 196 governos concordaram em torno da necessidade de limitar o aquecimento global a 1,5oC acima dos níveis pré-industriais - um objetivo que traz consigo a promessa de gerar exatamente essa transformação. Conquistar isso exigirá a superação de graves desafios políticos, refletidos no fato de que alguns estão defendendo soluções que acabarão fazendo mais mal do que bem.
Uma estratégia que recebeu muito impulso foca na necessidade de desenvolver intervenções tecnológicas de grande escala para controlar o termostato mundial. Os proponentes das tecnologias de geoengenharia argumentam que as medidas convencionais de adaptação e mitigação simplesmente não estão reduzindo as emissões com a rapidez suficiente para prevenir um aquecimento perigoso. São necessárias, dizem eles, tecnologias como a "captura e sequestro de carbono" (CCS, nas iniciais em inglês) para restringir os danos e o sofrimento humano.
O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática parece concordar. Em seu quinto relatório de avaliação, ele monta seus cenários para cumprir as metas climáticas de Paris em torno do conceito de "emissões negativas", isto é, a capacidade de absorver o excesso de dióxido de carbono e expulsá-lo da atmosfera.
Mas essa abordagem ignora graves problemas relativos ao desenvolvimento e à utilização de tecnologias de geoengenharia. Consideremos o CCS, que é o processo de capturar as emissões de C02 de grandes fontes, como usinas de energia elétrica movidas a combustíveis fósseis, e de depositá-lo, digamos, em uma formação geológica subterrânea, impedindo-o de ingressar na atmosfera.
Parece bom. Mas o que torna esse processo econômico é o fato de ele possibilitar uma recuperação ampliada de petróleo. Em outras palavras, a única maneira de tornar boa a relação custo-benefício do CCS é usá-lo para exacerbar o problema que ele deveria combater.
A tecnologia supostamente redentora - bioenergia com captura e seqüestro de carbono (BECCS) - não é muito melhor. A BECCS começa a partir da produção de grandes volumes de biomassa a partir, digamos, de árvores de crescimento acelerado que capturam naturalmente o C02; essas plantas são depois convertidas em combustíveis por meio da queima ou do refino e as emissões resultantes de carbono são capturadas e seqüestradas.
Mas a bioenergia não é neutra em termos de carbono e a escalada da demanda europeia por biomassa levou ao aumento dos preços das commodities e à invasão de terras em países em desenvolvimento. Essas realidades ajudaram a convencer os cientistas Kevin Anderson e Glen Peters recentemente a qualificar a remoção de carbono de "aposta injusta e de alto risco".
E as outras propostas de geoengenharia? A Gestão da Radiação Solar (SEM) visa controlar a quantidade de luz do sol que chega à Terra, essencialmente pela imitação do efeito de uma irrupção de vulcão. Isso pode ser obtido pelo bombeamento de sulfatos na estratosfera ou por "abrilhantamento naval de nuvens", que levaria as nuvens a refletir mais luz do sol de volta para o espaço.
Mas bombear sulfatos na estratosfera não reduz as concentrações de C02, apenas adia o impacto pelo tempo em que a pulverização prosseguir. Além disso, no hemisfério Norte as injeções de sulfato poderiam causar graves secas na região africana do Sahel, devido às reduções drásticas das precipitações, enquanto alguns países africanos teriam mais precipitação. O efeito sobre o sistema de monções asiático poderia ser ainda mais pronunciado. Em resumo, o SRM poderia comprometer gravemente os meios de subsistência de milhões de pessoas.
Se a geoengenharia não pode nos salvar, o que poderia? Na verdade, existe uma série de passos que podem ser tomados neste exato momento. Eles seriam mais desordenados e politicamente mais espinhosos do que a geoengenharia. Mas funcionariam.
O primeiro passo seria a moratória das novas minas de carvão. Se forem construídas e operadas todas as planejadas centrais de geração de energia elétrica a combustão de carvão durante sua vida útil normal de 40 anos, elas, por si sós, emitiriam 240 bilhões de toneladas de C02 - mais do que o orçamento de carbono remanescente. Se esse investimento for realocado para a produção descentralizada de energia renovável, os benefícios seriam enormes.
Além disso, com apenas 10% da população mundial responsável por quase 50% das emissões mundiais de CO2, há um forte argumento em favor da implementação de estratégias voltadas para os maiores emissores. Por exemplo, faz pouco sentido que as companhias aéreas - que atendem só 7% da população mundial - sejam isentas de pagar impostos sobre o combustível, principalmente em uma época em que os preços das passagens estão em seu patamar de baixa recorde histórica.
Mudanças no uso da terra também são necessárias. A Avaliação Internacional do Conhecimento, da Ciência e da Tecnologia Agrícola para o Desenvolvimento (IAASTD) indica o caminho para um sistema agrícola transformado - com benefícios que vão bem além da política climática. Temos de aplicar esse conhecimento no mundo inteiro.
Na Europa, o segmento dos resíduos pode contribuir para uma economia de baixas emissões de carbono. Pesquisa recente, encomendada pela Zero Waste Europa, detectou que a implementação das metas de resíduos do "pacote de economia circular" poderia poupar à União Européia 190 milhões de toneladas de C02 ao ano. Esse volume eqüivale às emissões anuais da Holanda.
Estão entre as medidas disponíveis ao setor de transportes o fortalecimento do transporte público, o estímulo ao uso das ferrovias para a movimentação de cargas, a construção de ciclovias e o subsídio ao uso de bicicletas para entregas. Na Alemanha, as ações inteligentes na área de transportes poderiam reduzir as emissões do setor em nada menos que 95% até 2050.
Outra medida poderosa seria proteger e restaurar os ecossistemas naturais. Isso poderia resultar no armazenamento de 220 a 330 gigatoneladas de C02 no mundo inteiro.
Nenhuma dessas soluções é rápida; mas, juntas, poderiam mudar o mundo para melhor. As soluções da geoengenharia não são as únicas alternativas. São uma reação à incapacidade da economia e da política tradicionais de enfrentar o desafio climático. Em vez de tentar conceber maneiras de manter tudo como está - uma meta impossível e destrutiva -, precisamos dar demonstração da nossa capacidade de imaginar e de realizar uma mudança radical.
Se fracassarmos, não devemos nos surpreender se, apenas daqui a alguns anos, o termostato planetário estiver sob o controle de um punhado de interesses de governos ou de natureza militar ou científica.
Num momento em que os dirigentes mundiais se reúnem para a 22a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima para pôr em vigor o Acordo de Paris, eles deveriam repudiar as soluções rápidas da geoengenharia - e demonstrar seu compromisso para com soluções verdadeiras. Tradução de Rachel Warszawski.

Lili Fuhr dirige o Departamento de Ecologia e Desenvolvimento Sustentável da Fundação Heinrich Bòll. Copyright: Project Syndicate, 2016.

Valor Econômico, 08/11/2016, Opinião, p. A13

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