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Rara beleza escondida no Cerrado

CB, Cidades, p.26
17 de Fev de 2004

NATUREZA
Rara beleza escondida no cerrado
Pesquisadores do Jardim Botânico saem, regularmente, à caça de exemplares de orquídeas típicas da região. Depois do difícil trabalho de encontrar as espécies em meio ao matagal, elas são catalogadas

O ritual se repete duas vezes a cada semana. Munida de sacos plásticos, canivetes e facões, uma equipe de pesquisadores parte do Jardim Botânico de Brasília, no início da manhã, rumo às áreas mais fechadas do cerrado. Durante nove horas ininterruptas, o grupo esquadrinha campos de murundus, brejos e matas ciliares em busca de plantas típicas da região. Caçam, especialmente, orquídeas.

Dentre os mais de 500 tipos existentes no cerrado, a equipe do Jardim Botânico tenta enriquecer o acervo do lugar com alguns dos 252 exemplares exclusivos do Distrito Federal. Uma beleza rara, presente em quase todas as fazendas e reservas do DF, mas ainda ignorada pela grande maioria dos brasilienses.

A coleta é uma corrida contra o tempo. Orquídeas são plantas delicadas, cujo processo de crescimento e floração está ligado ao períodos de chuva e de estiagem. Setenta e três por cento das orquídeas do cerrado são terrestres e 80% delas desaparecem na seca. Ou seja, elas só surgem entre novembro e março. Só nessa época podem ser apreciadas e colhidas, explica a diretora do Jardim Botânico, Ana Júlia Heringer Salles, que coordena — e treina — o grupo de caçadores de orquídeas.

A equipe do Correio acompanhou uma dessas expedições. Durante quase sete horas, Ana Júlia, a engenheira florestal Kely Regina da Silva Moreira e o técnico em administração pública Francisco Paulo Rodrigues de Jesus vasculharam o Jardim Botânico, o Parque Ezequias Heringer e a Estação Ecológica do Guará, além das cercanias do Parque Nacional.

Nessa época do ano, a maior parte da busca ocorre em áreas alagadas. Para aumentar ainda mais as dificuldades, as espécies locais, em geral, são plantas minúsculas. Muitas não ultrapassam 15cm na fase adulta, tornando-se praticamente invisíveis em meio ao mato alto do período chuvoso. Exceto para Ana Júlia, não é fácil achar as orquídeas. Algumas são tão pequenas que nem cabem na mão. A gente olha e só vê mato. Mas ela encontra a planta, comenta Kely, 27 anos, na função desde agosto de 2003.

Kely é responsável pelo herbáreo do Jardim Botânico, onde mostras de plantas desidratadas são conservadas para pesquisa de profissionais e estudantes. Ali, estão exemplares de 20,2 mil espécies — a maior parte do cerrado. Em campo, Kely tem outra função. É ela quem registra, via satélite, em um aparelho de GPS (Sistema de Posicionamento Global), a localização exata de cada exemplar identificado. Assim, quando quisermos procurar de novo, fica mais fácil de encontrar, justifica. Se não for assim, ninguém vê. Essas plantas dão em qualquer área de cerrado, nas reservas e fazendas. Mas ninguém percebe. Confunde com mato, completa Francisco, 40 anos, 19 de Jardim Botânico e cinco à caça de orquídeas.

Espécies exóticas
Geógrafa por formação, Ana Júlia é orquidófila de berço. Ela é filha do engenheiro agrônomo e botânico Ezequias Heringer, pioneiro responsável pela introdução de espécies exóticas na nova capital. Além de trazer plantas de outras regiões, ele descobriu grande parte das orquídeas nativas e identificou várias do cerrado. Quando criança, eu vinha com ele procurar orquídeas nesse Parque do Guará, que hoje leva o nome do meu pai. Faço isso há mais de 30 anos.

A experiência da filha do pioneiro se revela no trabalho de campo. Do banco do carona, ela dá a ordem para Francisco parar a picape. Ana Júlia avistou, do carro em movimento, uma espécie típica em meio ao capim alto. Entre incrédula e surpresa, a equipe desce para conferir. Na mata ao redor das cercas do Parque Nacional de Brasília, estrada que liga Brazlândia ao Lago Oeste, uma Habenaria goianense aberta.

Trata-se de um exemplar de aproximadamente um metro de altura, com longo caule verde e delicadas flores brancas. Em regra, a planta aparece nos campos de murundus (formação do cerrado que mistura capins, plantas rasteiras e arbustos), alagados nesta época do ano. Mas, à entrada do Parque Nacional, a Habenaria está incrustada no barro vermelho, ao sabor da poeira da estrada. Depois de uma aula rápida, sobre néctar, sementes e processo de reprodução da planta, os pesquisadores começam a remoção da orquídea. Agora, ela faz parte do acervo de espécies terrestres do cerrado do Jardim Botânico.

Recolhemos, especialmente, as que estão em áreas que correm o risco de desaparecer para dar lugar a uma barragem ou loteamento, detalha Ana Júlia. Uma preocupação justificada. Desde a construção de Brasília, 3.227km² de cerrado foram devastados. Hoje, a vegetação local restringe-se a 27% da área total nativa. Nos 50,5 mil hectares remanescentes, 6,5 mil espécies de plantas e 1,2 mil de animais lutam pela sobrevivência.

Temos aqui, 500 espécies de orquídeas do cerrado e 252 que só nascem no DF. Só de habenarias, o maior gênero do cerrado, são 58 espécies no DF. Mas a cada dia fica mais difícil encontrá-las, lamenta Ana Júlia. Para ela, manter exemplares no herbário, banco de espécies vivas e viveiro do Jardim Botânico é uma forma de preservar a riqueza local. E para quem não entende a serventia dessa planta de rara beleza, Ana Júlia repete a lição aprendida de um índio munduruku, do Amazonas. Quando perguntei para que serviam as orquídeas, ele me disse simplesmente que Deus as fez para embelezar a natureza.”

CB, 17/02/2004, p.26

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