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Raoni terá caminho árduo por Nobel da Paz em 2020

Valor Econômico - https://valor.globo.com/brasil/noticia
30 de set de 2019

Raoni terá caminho árduo por Nobel da Paz em 2020
Escolha do premiado deste ano deverá ditar as chances de líder indígena brasileiro

Por Assis Moreira
De Genebra 30/09/2019

O líder indígena kaiapó Raoni tem chances na escolha para o Prêmio Nobel da Paz de 2020, em meio à inquietação global sobre a Amazônia, mas a concorrência é grande. Geralmente supera 300 candidatos por ano. E se o ganhador do Nobel da Paz de 2019, a ser anunciado em 10 de dezembro, for um ativista da ecologia, ficará mais difícil a atribuição do prêmio no ano que vem para a mesma causa.
Na Europa, a grande questão é se a ativista sueca Greta Thunberg, 16 anos, que mobiliza a juventude mundial pela proteção ambiental, ganhará ou não o Nobel deste ano. Fontes na Suécia dizem que ela foi indicada e tem boas chances.
Greta já venceu nesta semana o chamado Prêmio Nobel Alternativo, como é conhecido o "Right Livelihood Award". Também foi premiado o chefe indígena Davi Kopenawa, do povo yanomami, juntamente com a Associação Hutukara Yanomami, ambos do Brasil. Dois ativistas do Saara Ocidental e da China foram os outros laureados. A causa de cada um vai receber 1 milhão de coroas suecas (R$ 426 mil).

Indagado se o prêmio para Kopenawa poderia ajudar Raoni a ganhar o Nobel da Paz em 2020, o diretor-executivo da Fundação Right Livelihood, Ole von Uexkull, respondeu que não queria especular sobre futuras decisões do comitê do Nobel, mas que saudava "todos os esforços que reconhecem o importante papel dos povos indígenas na proteção da Amazônia".
A premiada autora sueca Ingrid Carlberg interrompeu por um momento, em Estocolmo, a preparação do evento de lançamento de seu novo livro, justamente sobre Alfred Nobel, o inventor da dinamite e que deu origem ao prêmio, para destacar em conversa telefônica com o Valor que a luta pela proteção ambiental faz parte do espírito do prêmio, e não apenas o combate a guerras, por exemplo.
Ela evitou comentar sobre Raoni, por não saber nada sobre sua candidatura. Mas observou que em 2007 o Nobel da Paz foi atribuído à Intergovernmental Panei on Climate Change (IPCC) e ao ex-vice-presidente dos EUA Al Gore pelos esforços em disseminar conhecimento sobre as mudanças climáticas provocadas pelo homem. Em 1992, o prêmio foi atribuído à líder indígena guatemalteca Rigoberta Menchú Tum por seu trabalho "pelos direitos dos povos indígenas e reconciliação entre grupos étnicos".
Parece indiscutível que o discurso do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU, na semana passada, quando atacou Raoni, ajuda a chamar a atenção internacional para a candidatura do líder kaiapó.
Toni Lotar, vice-presidente da Fundação Darcy Ribeiro, que tomou a iniciativa de promover a indicação de Raoni ao prêmio em 2020, diz que o discurso ajudou a divulgara causa. "O momento [da indicação] é oportuno. Ele simboliza como nunca a causa da preservação ambiental". Para Lotar, a mensagem do trabalho de mais de seis décadas de Raoni ultrapassou a questão indígena e local e se tornou global. "Sempre defendeu o diálogo e levou uma mensagem de paz e de defesa do ambiente, que são aspirações globais", diz.

Tamya Rebelo, doutora em relações internacionais pela USP e professora da disciplina na ESPM, diz que o contexto global é favorável à indicação. "Contexto é importante nesse tipo de prêmio." Se a indicação ajuda a dar mais visibilidade às causas defendidas pelo líder indígena, um eventual impacto sobre a combalida imagem do Brasil no mundo é mais difícil definir, ainda mais que o governo Bolsonaro já demonstrou que não se pauta pelas globais. "Só o tempo dirá se haverá impacto na imagem, e, internamente, no andamento das políticas que envolvem as questões indígenas e ambientais no país."
Raoni Metuktire nasceu em Mato Grosso. Estima-se que esteja próximo dos 90 anos. "É um líder simbólico, respeitado como um guerreiro kaiapó que sempre se manteve fiel às suas tradições e à defesa do ambiente", afirma Andre Villas-Bôas, secretário-executivo do Instituto Socioambiental (ISA), que tem grande experiência em trabalhos com povos indígenas, especialmente no Xingu. "Ele foi coerente ao longo da vida. Sempre teve o discurso de proteção do ambiente, da floresta, do modo de vida e da cultura indígena. Sempre foi contra o desmatamento. Esta coerência foi o que o alçou ao reconhecimento como personalidade internacional", diz o indigenista.
"Considerando o nível de ameaça que hoje recai sobre a Amazônia, o ambiente e os direitos dos povos indígenas, isso qualifica Raoni como uma pessoa que deveria ser destacada a receber o Nobel", diz Villas-Bôas.

Candidatos, porém, não faltam. O recorde ocorreu com 376 indicações em 2016. Neste ano são 301 (223 individuais e 78 organizações), o quarto maior número desde 1901, quando começou a entrega do prêmio.
Para o Nobel da Paz do ano que vem, o prazo de apresentação de candidatos terminará em janeiro. Em fevereiro será feita uma lista curta, com 10% dos candidatos, por um comitê nomeado pelo Parlamento norueguês. Depois serão feitas investigações e enfim o prêmio será anunciado no fim do ano.
Uma porta-voz do Instituto Norueguês do Nobel da Paz, em Oslo, diz não ter "a menor ideia" das chances de indicados. O comitê não revela nomes de candidatos. Os que circulam são produto de "pura especulação" alimentada por pessoas que defendem determinados candidatos, de acordo a porta-voz.
Mikael Òstlund, da Fundação Nobel, em Estocolmo, acrescenta que as centenas de indicações anuais para qualquer prêmio Nobel são reveladas somente após 50 anos. (Colaboraram Daniela Chiaretti, de Nova York, e Ana Conceição, de São Paulo)

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