OESP, Economia, p.B12
Autor: STANCATO, renato;FERREIRA, Venilson
01 de Mar de 2004
Rally da Safra constata 'crise de abundância' Colheita de 130 milhões de toneladas ameaça levar ao colapso a logística de escoamento
RENATO STANCATO e VENILSON FERREIRA
A supersafra de 130 milhões de toneladas de grãos ameaça levar ao colapso a logística de exportação do Brasil. Faltam armazéns, estradas em boas condições e estrutura nos portos para o embarque da safra 2003/2004. É a chamada "crise de abundância", constatada, in loco, pelas equipes da primeira etapa do Rally da Safra, no qual, durante 20 dias, por cerca de 13 mil quilômetros, a reportagem da Agência Estado acompanhou os analistas da Agroconsult.
É a maior expedição privada de avaliação de safra já realizada no País, com patrocínio da Bunge Fertilizantes, do Banco do Brasil, da Kepler Weber e da John Deere, além do apoio da Ford, Fundação Agrisus e Agência Estado. A segunda etapa da viagem começará em 14 de março.
Na maioria dos pólos de produção dos oito Estados visitados, a logística precária provoca prejuízos para os agricultores. No Triângulo Mineiro, região onde a área plantada de grãos cresceu cerca de 20% na última safra, com as lavouras avançando sobre áreas de pastagens, o problema da logística se acentua a cada ano.
O produtor Getúlio Guimarães, de Uberlândia (MG), reclama das condições das estradas e da falta de armazéns. "A colheita é concentrada em cerca de 40 dias e não existe infra-estrutura suficiente para escoar e armazenar a safra", explica ele.
"A capacidade de armazenagem está crescendo menos que a produção", atesta André Pessôa, sócio-diretor da Agroconsult. Ele estima que a capacidade de armazenagem do Brasil tenha aumentado em 10 milhões de toneladas nos últimos 3 anos. No mesmo período, a safra de grãos cresceu 40 milhões de toneladas.
Como resultado, a capacidade de armazenagem é de 90 milhões de toneladas, ante uma safra de grãos de 130 milhões de toneladas, segundo Pessôa.
O efeito é visível na comercialização da soja este ano. O grão está sendo transportado para os portos em larga escala. O resultado é um deságio histórico entre os preços internacionais do grão e os cobrados na exportação nos portos de Paranaguá (PR), Santos (SP)e Rio Grande (RS), que responderam por 78% das exportações de soja no ano passado.
Na bolsa de Chicago, a soja para embarque em maio está cotada acima de US$ 340 por tonelada. Já nos portos brasileiros, há um deságio de cerca de US$ 44 a tonelada sobre esse valor. Historicamente, o deságio é de US$ 8 por tonelada nos embarques para maio.
No interior, a falta de armazéns também limita a rentabilidade do produtor.
"Só 5% das fazendas têm armazém", diz o analista André Pessôa. Os demais têm de entregar a soja para empresas compradoras. Segundo Pessôa, o produtor que tem armazém próprio chega a obter 10% mais nas vendas.
O produtor Adriano Loef, de Chapadão do Sul (MS), diz que na safra passada os agricultores do município penaram para colocar a soja nos armazéns da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que encerrava suas atividades às 18 horas e teve que fazer licitação pública para comprar lenha para a caldeira dos secadores. A Conab não acompanha o ritmo da colheita. Nas ocasiões de clima instável, os produtores trabalham até à noite para aproveitar o tempo bom. Quando a Conab fecha às 18 horas, quem depende do serviço público paralisa a colheita.
Vias precárias - O grande volume de soja sendo transportado para o porto também tem reflexo nas estradas. Estão previstas filas de mais de 100 quilômetros para descarregar em Paranaguá. Mas o problema se torna maior ainda nos Estados do centro-oeste e norte, que têm malha rodoviária precária.
Em Mato Grosso, grande parte da safra é escoada pela combalida BR-163.
Castigada pelas chuvas intensas e pelo tráfego de carretas, a via está cheia de buracos. Os piores trechos estão entre Jangada e Rosário do Oeste e entre Diamantino e Nova Mutum. Em alguns trechos, os buracos ocupam metade da pista, só permitindo a passagem de um veículo por vez. As carretas chegam a formar comboios de 16 veículos, tornando as ultrapassagens extremamente perigosas.
Como a rodovia não tem acostamento em grande parte do trecho ao norte de Cuiabá, é comum um acidente ou uma carreta quebrada paralisar totalmente o trânsito por horas. Esse cenário aumenta o medo dos caminhoneiros. As caravanas de caminhões são feitas para reduzir o risco de assaltos.
O aumento da demanda e as péssimas condições da safra já provocaram um aumento de frete rodoviário entre o médio norte de Mato Grosso e o Porto de Paranaguá. O preço do frete entre Lucas do Rio Verde e o porto subiu 30% em dólar, segundo o presidente do Sindicato Rural de Lucas, Helmute Lawisch. O frete do trecho era de US$ 65 por tonelada em meados de fevereiro, ante US$ 50 por tonelada em fevereiro de 2002. "Isso equivale a um dólar por saca de 60 quilos, que é o valor que o produtor deixa de ganhar por causa da falta de logística", explica Lawisch. "O pior é que os transportadores já estão sinalizando que o preço vai para US$ 75,00 por tonelada em março."
A situação não é muito melhor no Chapadão do Parecis, oeste do Estado. A imensa maioria das estradas locais é de terra. Nos meses de chuva, elas ficam intransitáveis. A reportagem da Agência Estado viu filas de mais de um quilômetro, com carretas atoladas na lama na MT-170, que liga Campo Novo do Parecis a Brasnorte.
A rodovia Nova Fronteira, que liga Brasnorte a Sapezal, está nas mesmas condições. "Já teve caminhão com gado vivo que ficou retido aqui por vários dias e os animais começaram a morrer", conta o produtor Luiz Klein, de Campo Novo do Parecis.
Praga - Outro problema constatado pelas duas equipes do Rally da Safra foi a incidência da ferrugem asiática nas lavouras de soja. A doença, que chegou ao Brasil em 2002, se espalhou por quase todas as regiões agrícolas visitadas. O combate à ferrugem está aumentando os custos de produção.
O analista da Agroconsult, Fábio Meneghin, aponta que o custo de produção da soja subiu em média duas sacas por hectare em fazendas com a doença.
Arroz e soja tomam lugar da madeira De início, ninguém acreditava na viabilidade desses dois cultivos
A soja e o arroz surgiram como alternativa à decadente indústria madeireira na região de Sinop, no Centro-Norte do Mato Grosso.
Entre Sinop e Itaúba, já próximo do Pará, há 460 mil hectares utilizados pela agricultura. O número salta para 550 mil hectares se forem incluídos os municípios de Vera e Feliz Natal, geralmente vinculados a Sorriso. A expectativa das empresas de insumos locais é de que a área dobre em quatro anos.
Uma das áreas mais novas no plantio de soja é a dos municípios de Vera e de Feliz Natal. As duas cidades ficam entre o asfalto da BR-163 e a reserva indígena do Xingu. Vera está a 40 quilômetros da BR-163, por estrada de terra. Para se chegar a Feliz Natal, o viajante precisa passar por Vera e rodar outros 40 quilômetros.
Até o início da década, a extração de madeira era praticamente o único motor da economia das duas cidades. Atualmente, o plantio de soja e de arroz vem tomando o lugar da madeira. Em Vera, há 70 mil hectares plantados com soja e 50 mil com arroz. Em Feliz Natal, o plantio de soja atinge 22 mil hectares e o de arroz, 50 mil.
Um dos pioneiros da região, Oraci Moro, 63 anos, chegou a Vera em 1977 e passou a extrair madeira. Com o tempo, adquiriu alguns lotes de terra. "Isso acontecia porque a terra aqui não valia nada", disse. "Por isso, o madeireiro que extraía a madeira de um colono ficava com metade da produção e recebia a terra como gorjeta".
Por volta de 1986, ele passou a criar gado nas áreas desmatadas. Daí ao plantio de arroz, foi um passo: "Notei que a pastagem ficava muito fraca no período da seca, e resolvi plantar arroz para ver se isso aumentava o vigor do capim", afirmou. "A idéia era ver se o arroz deixava a terra mais fértil".
Moro, entretanto, não imaginou que plantar soja fosse possível: "O solo era pobre e a gente nunca pensou que desse. Além disso, eu mantive a minha madeireira". Ele deve colher 1.200 hectares na safra 2003/04.
Em Feliz Natal, a agricultura chegou em escala comercial há apenas 2 anos, e mesmo assim, a soja e o arroz já ocupam 40% do PIB municipal, segundo o prefeito Antônio Debastiani (PSDB). "Acredito que no ano que vem o arroz e a soja já responderão por 70% da renda do município", afirmou.
O maior produtor individual soja do País, Elói Marchetti, com 55 mil hectares próprios e outros 40 mil cultivados em parceria, também começou no Centro-Oeste como arrendatário. Há 28 anos, com o pai e um irmão, Marchetti deixou uma pequena propriedade em Caixas do Sul (RS) para se tornar arrendatário de 500 hectares em Maracaju (MT). Hoje, ele tem fazendas em Rondonópolis e Nova Mutum (MT), e também no Piauí e Pará. (R.S. e V. F.)
Alternar pasto e grãos eleva produção Cultivo de grãos aumentou 24% no cerrado com essa forma de integração
O cultivo de lavouras de grãos cresceu 24% nos últimos cinco anos, por conta do avanço do plantio nas pastagens degradadas e áreas novas de cerrado. Esse aumento reflete uma das principais transformações no campo nesta década, que é o aumento da integração entre a criação de gado de corte e plantio de grãos.
A equipe do Rally da Safra visitou a fazenda do pioneiro nesse sistema, o produtor Ake Van Der Vinne, de Maracaju (MS), que começou a alternar o plantio de grãos e pastagens em 1988. Van Der Vinne conta que o sistema reduz o custo de manejo das duas atividades, além de aumentar a produtividade. Ele utiliza a mesma área para a lavoura durante três anos e depois a transfere por um ano para a pastagem. Assim, um quarto da propriedade é destinado à criação do gado e o restante, ao plantio de lavouras. No verão, planta soja e algodão e no inverno, milho e aveia preta.
O sistema tem garantido boa produtividade. No caso da soja, Van der Vinne colhe em média 55 sacas por hectare. O rendimento da produção de gado está sendo mantida em 20 arrobas por hectare. Já a produção de milho de safrinha fica entre 80 e 100 sacas por hectare. O algodão foi plantado pela primeira vez na safra passada e a produtividade foi de 247 arrobas por hectare.
"Essa técnica é, sem dúvida, a novidade mais fascinante que vi no Brasil", observou o agrônomo Norman Borlaug, vencedor do Prêmio Nobel de 1970 por melhorar sementes no México e na Ásia. Borlaug, que visitou a fazenda de Van Der Vinne em fevereiro, acha que essa técnica vai aumentar muito a produção de carne e alimentos.
Mesmo com a incorporação de áreas novas, a produtividade continua crescendo.
Prova disso é que nos últimos cinco anos a produção cresceu 57,6%, duas vezes o aumento da área plantada. A explicação para esse crescimento, que tem atraído produtores norte-americanos, está na melhoria tecnológica. O bom resultado na comercialização das últimas duas safras permitiu investimentos pesados na adubação e compra de máquinas modernas. Dados preliminares do setor indicam crescimento de 16% nas vendas de fertilizantes no ano passado, para o volume recorde de 21 milhões de toneladas.
Exemplo da tecnologia de ponta é a Fazenda Campo Bom, do Grupo Reichert, no município de Chapadão do Sul (MS). Pioneira na utilização da agricultura de precisão, a fazenda utiliza informações de satélite e computação para aumentar a eficiência no controle de pragas e doenças e no uso de máquinas em cada um dos talhões dos 20 mil hectares cultivados com soja e milho. O resultado é uma produtividade de 9 mil quilos de milho por hectare, quase o tripo da média nacional esperada para esta safra. (R.S. e V.F.)
OESP, 01/03/2004, p. B12
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