O Globo, Ciência, p. 27
18 de Fev de 2014
Radiação solar no Rio é a maior do mundo
Seca foi interrompida por breve chuva, mas calor volta esta semana
RENATO GRANDELLE
renato.grandelle@oglobo.com.br
A hostilidade do verão brasileiro deixou marcas visíveis em todo o planeta. Em relatório divulgado ontem pela Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (Noaa), a costa sudeste do país chegou a ser a região com registro mais anormal de tempo seco no mundo - ou seja, nenhum local emitiu tanta energia infravermelha no espaço. A chuva chegou no sábado, mas a seca já volta amanhã: temperaturas devem aumentar em três graus Celsius até o fim da semana.
O aumento da radiação mandada para o espaço deve-se à massa de ar seco que envolveu o litoral do Sudeste e impediu a passagem de frentes frias e a formação de chuvas. Sem estas, não há nuvens, e a região fica mais exposta ao aumento da temperatura.
O índice recorde brasileiro foi registrado entre os dias 28 de janeiro e a última sexta-feira. A chegada de uma frente fria no fim de semana rompeu o bloqueio atmosférico e fez as temperaturas caírem até 7 graus Celsius. Com isso, a umidade aumentará e o país não deve ganhar uma análise especial nos estudos da Noaa.
A comunidade científica ainda não sabe explicar se a radiação sem precedentes foi um episódio pontual ou se será cada vez mais comum. Para o meteorologista Peter Caplan, ex-integrante da Noaa, a intensidade e a duração do tempo seco são um indício claro do aquecimento global.
- Houve uma combinação de uma série de fatores muito difíceis de serem quantificados, da urbanização ao próprio aquecimento global - explica.
- Mas é fato que uma situação como esta ocorrerá com uma frequência cada vez maior, e já estaremos certos disso nos próximos dez ou 15 anos.
Climatologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), José Marengo é mais cauteloso. Para ele, ainda é cedo para estabelecer uma ligação entre a radiação anormal brasileira e as mudanças climáticas:
- Nos últimos cinco ou seis anos vemos verões e invernos cada vez mais intensos, principalmente no Hemisfério Norte. Talvez este registro de tempo seco brasileiro seja outro evento extremo, mas precisamos saber se eles ocorrerão frequentemente daqui em diante. João Antonio Lorenzzetti, pesquisador da Divisão de Sensoriamento Remoto do Inpe, destaca que a radiação anormal foi registrada também no Oceano Pacífico.
- Nos anos em que ocorrem El Niño, as águas do Pacífico próximas às Américas estão mais quentes - lembra. - Mas este ano não houve a formação de El Niño, e a radiação foi maior em outra parte do oceano. É um registro estranho. Professor de Engenharia Costeira e Oceanógrafica da Coppe/UFRJ, Paulo Rosman destaca que as águas brasileiras foram muito aquecidas durante o verão.
- O período com recorde de radiação solar ocorreu enquanto estávamos sob predomínio da massa de ar seco, que aumentou a temperatura da água da superfície do mar - destaca. - As correntes marinhas estavam fracas e não havia ressurgência, ou seja, a água quente não era empurrada para baixo, dando lugar à água fria do fundo.
Segundo o Inmet, as chuvas devem deixar o Rio hoje. Chuva de novo, só na semana que vem.
O Globo, 18/02/2013, Ciência, p. 27
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