OESP, Notas e Informacoes, p.A3
27 de Jan de 2004
Racionamento traumático
A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) estuda o estabelecimento de metas restritivas do consumo de água na região metropolitana de São Paulo para, assim, evitar o rodízio no abastecimento. O secretário estadual de Recursos Hídricos, Mauro Arce, acredita que a medida seja mais "civilizada" do que o racionamento, que submete os moradores a períodos intercalados de interrupção do abastecimento.
Medidas "civilizadas" podem ser insuficientes para preservar os mananciais, principalmente os que compõem o Sistema Cantareira, que chegou a índices mínimos de sua capacidade. A redução do consumo deve ser imediata e o racionamento é, neste caso, a única solução apesar de ser um "processo traumático", como define o secretário.
O sistema de metas restritivas deveria ter sido adotado há anos, quando o problema no abastecimento deixou de ser a distribuição de água e passou a ser a captação, cada vez mais distante e, conseqüentemente, mais cara. A fixação de metas de consumo deveria ser permanente para a região, que há tempos convive com a ameaça de crise de abastecimento. Começar a estudar, agora, medidas tópicas, próprias para situações de emergência, quando o problema já é crônico, não é a melhor saída para a preservação dos mananciais.
Segundo os especialistas em recursos hídricos, quando os sistemas atingem 15% de sua capacidade de armazenamento, medidas drásticas de racionamento precisam ser adotadas para que não seja comprometida a capacidade de recuperação dos mananciais. O Cantareira, responsável pelo abastecimento de 9 milhões de moradores da capital e de municípios vizinhos, perde, desde novembro, 0,2 ponto porcentual de capacidade por dia, em média, apesar das chuvas. Nos últimos quatro anos, apresentou, nos meses de janeiro, índices que variaram entre 56,8% e 32% da sua capacidade de armazenamento. Ontem, sua capacidade era de apenas 4,7%.
Nesse período, no entanto, as autoridades estaduais preferiram evitar desgaste político. Primeiro, porque o governador Geraldo Alckmin queria se reeleger e, agora, porque o PSDB quer ganhar a Prefeitura de São Paulo nas eleições deste ano - e qualquer tipo de racionamento, inclusive o rodízio, é uma medida antipática para a população.
Há meses - quando o baixo nível das represas bateu recordes históricos e, apesar disso, a Sabesp continuou adiando o rodízio no abastecimento -, em várias pesquisas publicadas pela imprensa, a própria população demonstrou sua preocupação, consciente da necessidade de economizar água, e indignação diante da indecisão do governo estadual.
"Naquela época tinha esperanças nas chuvas de dezembro e janeiro, que se mostraram insuficientes", explicou Mauro Arce, em entrevista ao Estado. A questão é que os administradores públicos, principalmente quando se trata de questões tão importantes como o abastecimento de água, não devem agir, ou deixar de agir, com base em "esperanças". A preocupação das autoridades estaduais em evitar o desgaste político poderá ter efeito justamente contrário. Traumático ou não, o racionamento parece ser, agora, a única solução capaz de evitar o colapso dos principais mananciais que abastecem a região metropolitana.
OESP, 27/01/2004, p. A3
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.