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Quinze anos depois, Chico Mendes virou "milagreiro"

OESP, Nacional, p.A10
21 de Dez de 2003

Quinze anos depois, Chico Mendes virou 'milagreiro' Xapuri recebe centenas de pessoas, que vão pedir ajuda no túmulo do líder seringueiro, morto em 88
EDSON LUIZ e JOÃO DOMINGOS
Nos fins de semana, a pequena e pacata Xapuri torna-se uma cidade diferente, movimentada. Lembra o glamour do auge da borracha, nos anos 40, quando era a "Princesinha do Acre". Centenas de visitantes ali aparecem, para conhecer a terra natal do líder seringueiro e sindicalista Chico Mendes e visitar seu túmulo, onde deixam pedidos ou agradecem por uma graça alcançada. Amanhã, dia em que o assassinato do maior líder seringueiro da Amazônia completa 15 anos, os romeiros lotarão Xapuri para homenagear o "milagreiro".
"Aos sábados e domingos cerca de 200 pessoas vão visitar o túmulo e a fundação que leva o nome de Chico", conta a viúva, Ilzamar Gadelha Mendes.
Muitos vão ao túmulo agradecer por algum "milagre". Chico Mendes foi morto a tiros, em uma emboscada, em 22 de dezembro de 1988 - e os relatos sobre sua morte ganharam, com o tempo, tom de misticismo.
No dia 22 de dezembro de 1988, antes de ser assassinado, Chico Mendes teria comentado com uma freira que iria morrer. É um dos relatos que sustentam a fé de que ele teria dons sobrenaturais. No dia 5 daquele mês, o líder escreveu o que chamou de despedida: "Não quero flores no meu túmulo, pois sei que irão arrancá-las da floresta. Quero apenas que meu assassinato sirva para acabar com a impunidade dos jagunços que, de 1975 para cá, já mataram mais de 50 pessoas, como eu, líderes seringueiros. Adeus, foi um prazer. Vou para Xapuri ao encontro da morte, pois dela ninguém se livra." Chico foi assassinado por Darci Alves Pereira, a mando do pai, o fazendeiro Darli Alves da Silva. Ambos foram condenados a 19 anos de prisão e hoje estão em liberdade condicional. Chico entrou na política sindical nos anos 60 e fundou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. Em 1978, elegeu-se vereador pelo MDB.
Bilhete - Um bilhete encontrado no túmulo de Chico Mendes, há dois meses, fortaleceu uma suspeita das autoridades que voltaram a investigar sua morte. Segundo o bilhete, além de Darli e Darci, outras pessoas estavam envolvidas no assassinato de Chico. "A pessoa que deixou o recado afirmava que policiais militares não só deram cobertura aos matadores, como também ajudaram na fuga", conta um dos investigadores. "As informações coincidem com outros fatos levantados pela polícia. Mas precisamos ter cautela na investigação." (E.L. e J.D.)

'Seus amigos hoje governam o País', diz viúva
BRASÍLIA - Quando, há 15 anos, um tiro matou o seringueiro Chico Mendes, o Brasil vivia o segundo mês da nova Constituição e alguns de seus amigos sonhavam, como ele, com grandes revoluções e novos horizontes. Um deles virou presidente da República - o então deputado Luiz Inácio Lula da Silva.
Chico também era amigo da professora Marina Silva, atual ministra do Meio Ambiente. E o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, que o defendeu nos tribunais, tornou-se presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.
"Sempre digo que o sacrifício dele provocou mudanças na questão ambiental e na política do País. E o exemplo está aí: todos os seus amigos governam o Brasil de hoje", diz a viúva, Ilzamar Gadelha Mendes. Marina, que viveu nos seringais até os 14 anos, "é a herdeira da luta de Chico Mendes", considera Ilzamar. Ela também lembra das visitas de Lula. "O presidente gostava de tomar uma cachacinha com limão quando encontrava meu marido", conta.
A lista de amigos incluía o engenheiro florestal Jorge Viana, ex-diretor da Fundação de Tecnologia do Acre e atual governador do Estado. Já o sucessor de Chico no sindicato de Xapuri, Júlio Barbosa, foi duas vezes prefeito da cidade. (E.L. e J.D.)

OESP, 21/12/2003, p. A10

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