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Quilombolas do Tocantins comemoram adiamento de abertura do Parque do Jalapão na pandemia

Alma Preta - https://almapreta.com/editorias/realidade/quilombolas-do-tocantins-comemoram-adiamento
Autor: Flávia Ribeiro
14 de jul de 2020

Ponto turístico seria reaberto pelo governo mesmo com o avanço da Covid-19 nas comunidades; quilombolas seguem preocupados com os efeitos da crise epidemiólogica na região

Foi com alívio que as comunidades quilombolas da região do Jalapão, no Tocantins, receberam a notícia de que a abertura do parque foi adiada por tempo indeterminado pelo governo do estado. Na semana passada, o governo havia anunciado a possibilidade de reabertura do local para visitação a partir de 19 de julho.

Em nota, a Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (Coeqto) e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) repudiaram a visitação do público e pediam a intervenção do Ministério Público Federal e da Defensoria Pública.

A preocupação com a reabertura se dava em razão do risco de exposição à Covid-19, o novo coronavírus. Para Maria Aparecida Ribeiro de Sousa, da comunidade do Prata, no município de São Felix, ainda é preciso cautela. "Estamos felizes por essa conquista, mas sabendo que o desafio ainda está por vir porque a qualquer momento, eles podem querer reabrir", afirma.

Segundo Maria Aparecida, o adiamento reafirma a organização das lideranças que fizeram uma grande mobilização nas redes sociais para dar visibilidade à situação.

As comunidades reivindicam também atenção do poder público nas localidades. "É preciso políticas públicas voltadas para orientação das pessoas, das comunidades ou do município, além de uma regra rígida para que todos usem máscaras e álcool em gel. Às vezes, vamos à sede do município e vemos as pessoas sem essa preocupação", revela Leni Francisca de Sousa, moradora da comunidade do Prata.

Mobilização

O Parque Nacional do Jalapão é um dos pontos turísticos mais visitados no Brasil, no entanto, a Coeqto destacou em nota que a região também é território quilombola e as atividades turísticas colocam em risco a saúde da população local, uma vez que a maioria dos atrativos estão dentro de quilombos. "Desde o início da pandemia no Brasil, o Estado brasileiro nunca se manifestou sobre a implementação de políticas públicas efetivas para o combate à disseminação do coronavírus em territórios quilombolas. Pelo contrário, tem subnotificado os casos de contaminações e óbitos entre a população quilombola", diz a nota.

Para embasar os pedidos, as organizações ainda destacam que os números do monitoramento autônomo da Conaq junto às lideranças quilombolas do Brasil têm demonstrado o avanço da pandemia nos territórios quilombolas. Nesta terça-feira (14) o boletim epidemiológico divulgado pela Conaq informava o registro de 133 quilombolas mortos, 3.465 casos confirmados e 797 em monitoramento.

"Vale ressaltar que a população quilombola do Jalapão não tem acesso imediato a estrutura hospitalar. Pois, em agosto, período de pico da estiagem e as estradas de acesso ao Jalapão quase intransitáveis, fazer a transferência de uma pessoa acometida pelo coronavírus em uma ambulância por mais de 200 km de estrada de terra é morte certa, uma vez que a gravidade da doença se manifesta no sistema respiratório" afirma a nota.

O texto encerra com a solicitação de intervenção do Ministério Público Federal e da Defensoria Pública para a exigência de realização de testes a fim de detectar o vírus em representantes do governo do estado que visitam o território e para evitar a abertura do parque ao público para visitação.

"Que nos auxiliem na luta pela preservação da vida da população quilombola tocantinense, sobretudo, do Jalapão, que além da ameaça da Covid-19, precisam resistir às iniciativas de gestores e empresários que tentam subsidiar seus fundos monetários às custas de vidas negras, tal qual o fizeram legalmente por 300 de escravidão", pondera o comunicado.

Visitas

Segundo o Portal do Tocantins, o Parque Estadual do Jalapão (PEJ) completou 19 anos em janeiro passado e ocupa uma área de 34 mil km². Os municípios de Mateiros, Novo Acordo, Ponte Alta do Tocantins e São Félix do Tocantins compõem a região, que é uma unidade de conservação ambiental. O parque fechou o ano de 2019 com um total de 39.466 visitantes, 4.894 (14.16%) a mais que os 34.572 de 2018.

O Alma Preta entrou em contato com a Secretaria da Saúde (SES) e a Agência do Desenvolvimento do Turismo, Cultura e Economia Criativa (Adetuc) e solicitou informações sobre a reabertura do parque e a respeito de políticas públicas voltadas à preservação da saúde dos quilombolas. Até a publicação deste texto, as pastas não responderam aos questionamentos da reportagem. A informação sobre o adiantamento da abertura do parque foi coletada do site do Governo de Tocantins.

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