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Quilombola relata rotina de combate ao novo coronavírus no Maranhão

Revista Marie Claire
Autor: PRISCILLA GEREMIAS
03 de mai de 2020

Segundo a pedagoga e ilustradora Zica Pires, que vive no quilombo Santa Rosa dos Pretos, o território sofre com a falta de alimentos e produtos de higiene

O Maranhão registra, até o momento, 224 mortos devido ao novo coronavírus, a Covid-19 e 3.805 pessoas infetadas em 78 municípios do estado. De acordo com uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) o estado está registrando proporcionalmente a mesma velocidade de óbitos que os Estados Unidos.

A capital, São Luís, atingiu 100% da ocupação dos leitos das Unidades Intensivas (UTI) da cidade, são 112, informou a Folha de S. Paulo. A região metropolina da cidade entrará em "lockdown" a partir dessa terça-feira (5).

Se na área urbana o combate a disseminação do vírus é uma real dificuldade, em áreas quilombolas do estado é ainda maior. Segundo a pedagoga e ilustradora Zica Pires, de 25 anos, que vive no quilombo Santa Rosa dos Pretos, afirma que não sabe se há casos positivos da Covid-19 pois não tem posto de saúde no quilombo.

"O Quilombo Santa Rosa dos Pretos faz parte do território também chamado de Santa Rosa dos Pretos, composto por 20 quilombos, sendo o que eu moro o mais populoso, são 350 famílias. O total do território são 800 famílias. Por aqui ainda não temos a informação de alguém que tenha apresentado os sintomas, porém estamos preocupados com os sete casos confirmados e 50 suspeitos em Itapecuru Mirim, que é o município mais próximo daqui", afirma Zica em entrevista à Marie Claire.

Os costumes do quilombo tiveram que ser suspensos para a prevenir a população, composta em maioria por crianças, seguido de jovens, idosos e adultos, sendo 4 mil pessoas. "É um momento difícil e buscamos medidas de prevenção para garantir a segurança e saúde de todos. Nós temos o costume de tomar benção, beijamos na mão e abraçamos, mas conversamos e não fazemos mais o gesto, apenas de longe. Na nossa religião, de matriz africana, isso é um pecado, mas é preciso nos cuidarmos. Paramos com os encontros em torno da comida, e também suspendemos os ritos e festividades no quilombo", explica.

Outra medida adotada pelo quilombo foi fazer uma ronda nas casas para conferir quais as necessidades de cada família. De carro, Zica e mais um morador vai até Itapecuru Mirim para fazer as compras. "Só saímos em casos extremos. Quando é preciso sair com algum idoso, para pegar o auxílio emergencial do governo ou bolsa família, por exemplo, também vamos de carro", afirma Zica.

Segundo a pedagoga o governo de estado do Maranhão não tem auxiliado de nenhuma outra maneira a população quilombola. "Algumas família tiveram o benefício do bolsa família cortado, o que dificulta, ele e a aposentadoria dos mais velhos, são a principal renda das famílias", afirma.

O quilombo Santa Rosa é cortado pela Ferrovia Carajás e, ainda segundo Zica, a construção da BR 135 fez com que os quilombolas perdessem seus igarapés e isso teve impacto direto na alimentação, por meio da pesca, além do culto e comércio. "Perdemos nossa área de lavoura coletiva, e é a consequência da invasão desses grandes empreendimentos que trazem consigo a fome. Além disso, tem muitos buracos na BR, as pessoas dos carros acabam vindo pedir ajuda em nossas casas e isso é problemático porque não sabemos quem são essas pessoas e evitamos qualquer tipo de contato", diz a pedagoga.

Zica explica que o território enfrenta dificuldades de acesso a direitos básicos, como saneamento e distribuição de água e energia. E isso tem impacto direto na execução de cuidados mínimos indicados pela Organização Mundial de Saúde no combate a Covid-19.

Alimento e produtos de higiene são os itens que o quilombo mais precisa no momento e por isso fizeram uma campanha virtual para arrecadar dinheiro e cestas básicas. "São 800 famílias que precisam se isolar, ao mesmo tempo que precisam se alimentar para sobreviver", afirma Zica. "Nós entendemos a morte como algo sagrado, mas estamos num momento difícil e desesperador."

De acordo com a Secretaria de Estado Extraordinária de Igualdade Racial (Seir) do Maranhão as comunidades rurais quilombolas estão ligadas ao Sistema Único de Saúde (SUS) através dos municípios onde estão inseridas.

"A orientação prestada aos quilombolas é a de buscar, inicialmente, os postos de saúde da comunidade, e, dependendo da situação clínica do paciente, se dirigir à unidade do município preparada para o acolhimento dos casos de Covid-19, que, de acordo com o protocolo estabelecido, deverá fazer a regulação para o hospital estadual de referência mais próximo", informa.

Quanto à ação específica para orientar as comunidades quilombolas nesta crise de pandemia, a Seir esclarece que "há um canal de comunicação permanente com os gestores de igualdade racial nos municípios, no qual são prestadas, diariamente, informações sobre a situação/demandas destas comunidades rurais, e, em caso de qualquer emergência, são acionados mecanismos para garantir o atendimento aos casos, que eventualmente, venham ocorrer nos quilombos."

O Governo do Estado afirma ainda que realizou campanha nas comunidades para inserir mais famílias quilombolas no Cadastro Único (CadÚnico), de modo que possam estar aptas a receber o auxílio emergencial do Governo Federal.

"Além dessas medidas, foram feitas parcerias com prefeituras, no âmbito da Política Estadual de Saúde da População Negra, e capacitação de gestores e técnicos de saúde dos municípios, para o atendimento à população negra dentro de suas especificidades. Reitera-se que os servidores da Seir estão atuando em teletrabalho e monitorando diariamente a evolução da pandemia no estado, mantendo diálogo com as autoridades sanitárias estaduais e municipais, no tocante ao avanço da pandemia em cidades que tenham comunidades quilombolas", informa.

https://revistamarieclaire.globo.com/Mulheres-do-Mundo/noticia/2020/05/…

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