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Queremos criar um novo índice de sustentabilidade

O Globo, Razão Social, p. 4-5
Autor: YOUNG, Ricardo; ITACARAMBI, Paulo
07 de Jul de 2009

'Queremos criar um novo índice de sustentabilidade'
Criado há dez anos, Instituto Ethos reúne seus membros para propor mudanças que deem à sociedade e ao mercado mais chances de avaliar as empresas

Entrevista
Ricardo Young e Paulo Itacarambi

Amelia Gonzalez e Cristiane de Cássia
amelia@oglobo.com.breccassia@oglobo.com.br

Há dez anos à frente do Instituto Ethos, o presidente Ricardo Young e o vice-presidente Paulo Itacarambi estão virando uma página. Quando, numa tarde de 1998, indignados com os rumos de gestão de empresas, eles se juntaram a outros empresários e decidiram criar a organização, naquela época era para as empresas que precisavam falar. Hoje, porém, a certeza é de que o Ethos precisa se voltar para fora e "trabalhar fortemente na construção de uma agenda de desenvolvimento sustentável no Brasil em sua vertente empresarial".
Mudanças estão previstas, mas o que importa mesmo é que o rumo não poderá ser realinhado sem aprovação das 1.314 empresas filiadas ao Ethos em dezembro de 2008. Nesta entrevista, eles falam sobre os próximos dez anos.

O Globo: Podemos dizer que o Ethos perdeu a paciência?

Paulo Itacarambi: Há três anos nós falamos, na Conferência mundial, que estava na hora de aparecer os resultados, porque se eles não aparecessem, o movimento iria ficar desacreditado. E a força deste movimento vem muito da expectativa que ele gera. Naquele momento podia se falar que estávamos perdendo a paciência. Hoje, estamos vendo que a possibilidade de avanço do movimento baseada na ação voluntária das empresas bateu no teto.

O Globo: A ideia então é regular as empresas?

Itacarambi: Sim, mas precisamos construir regulamentação com as empresas, não contra as empresas. Esta seria uma primeira mudança para os próximos dez anos.

Ricardo Young: Defendo a regulação, mas como expressão da maturidade do avanço do processo. Uma regulação precoce tende a criar mecanismos de sabotagem. A lei dinamarquesa é brilhante porque não entra nesse mérito, ela diz que a empresa deve prestar contas para a sociedade, e quem não presta contas deve explicar o porquê. Sou a favor da regulação negociada entre as partes da sociedade.

O Globo: Como o Ethos está, então, se preparando para os próximos dez anos?

Young: Primeiro, vamos fazer vários encontros regionais em vez de uma única Conferência mundial. A segunda mudança parte do ponto que o mercado hoje tem dificuldade de identificar uma empresa sustentável. Vamos trabalhar na criação de um índice de sustentabilidade, que possa servir como referência para as empresas em geral, para que o mercado tenha uma referência consistente sobre o que é sustentável ou não.

O Globo: Os relatórios de sustentabilidade não têm funcionado para isso?

Young: Claro que têm um impacto estratégico, mas a empresa, no final, vai relatar o que quiser.
Uma empresa que não está comprometida com a transparência acaba não relatando tudo, então fica aquela coisa do nariz de cera, para inglês ver. Tem que ter uma referência auditada ou monitorada por entidades independentes e para que a sociedade possa ter uma referência. O índice então serviria como uma curva ascendente, de forma até que possamos influenciar nossos associados, como bancos, para que possam monitorar créditos a partir desse índice.

O Globo: O senhor acha que a publicação de relatórios de sustentabilidade deveria ser obrigatória?

Young: Não acho que relatório de sustentabilidade tem de ser voluntário. Deve ser voluntário apenas enquanto tática de assimilação, num período transitório. Não é preciso regular, mas é preciso definir um critério claro, como a Dinamarca fez. Lá, a empresa que não produz relatório deve dizer porque não o faz. E, talvez para os stakeholders daquela empresa, tudo bem.
Não é preciso ter uma lei para isso, basta uma recomendação, uma portaria, e acabou.

O Globo: Pela pesquisa divulgada no documento do Ethos (ver página 6), alguma coisa deu errado. O que pode ter sido?

Itacarambi: Na verdade, o que aconteceu é que boa parte das empresas que entram neste assunto entram mais pelo interesse de curto prazo. E boa parte das empresas encaram o assunto pela comunicação. Algumas ficam no marketing, outras apresentam relatórios, mas sem fazer mudanças.
Não são todas, mas é o grosso.

O Globo: O que seria necessário?

Itacarambi: Para a empresa continuar investindo em responsabilidade socioambiental pelo interesse, é necessário ter espaço de diferenciação no mercado. Hoje, este espaço é baixíssimo, porque a sociedade é pouco exigente, porque o mercado é pouco exigente. Basta você falar que faz, é engolido. Basta fazer uma boa propaganda, e passa a ser igual àquele que está investindo realmente. Então, aquele que está investindo percebe que o que não está investindo, mas tem bom marketing, está melhor do que ele.

O Globo: Por que o nível de exigência da sociedade ainda é baixo?

Itacarambi: O nível de exigência é baixo, em parte por causa da nossa condição cultural, porque a sociedade decidiu resolver a qualidade de vida pela via de consumo. E aí, o que vale é ter poder aquisitivo. Não temos a cultura de resolver isso coletivamente, só individualmente.

O Globo: O Ethos, então, vai certificar as empresas?

Young: Não vamos certificar. Mas o mercado pode fazer isso. Nós não vamos fazê-lo porque seria um conflito de interesses. Hoje as empresas mandam para o Ethos indicadores preenchidos.
Hoje, 850 empresas participam desse banco de dados, podem comparar seus indicadores com outras empresas que preenchem, com o benchmark, com o seu setor, mas esse dado não vai para o mercado. Pretendemos criar um mecanismo que incorpore outras dimensões aos indicadores e que hoje o que é privado possa ter tratamento público. Se a empresa tem nota 8 de desempenho, 5 em direitos humanos, 7 em meio ambiente, isso tem um tratamento e vai para o mercado. O mercado pode atuar sobre aquela empresa em relação a esse índice.

O Globo: Como, então, vai ser este índice, na prática?

Itacarambi: Precisamos criar um fórum permanente de debate onde se discutirão estes compromissos, as agendas. Que isso seja um processo de verdade. O Ethos vai ser um dos organizadores deste fórum, mas só se tiver outras organizações junto. Esta decisão não foi tomada ainda, estamos elaborando para debater, receber sugestões, saber se está correta a nossa avaliação.

O Globo: Os indicadores Ethos acabariam?

Itacarambi: Queremos pegar os nossos indicadores e colocar dentro dele um conjunto de práticas das empresas que possam estabelecer um nível que nós vamos chamar de índice. Este índice vai medir qual o nível de adesão das empresas a ele. A título de exemplo: cem práticas que, feitas pelas empresas, contribuem para uma sociedade sustentável. A empresa responde aos Indicadores Ethos, dentro deles há essas práticas, voluntário como é hoje. Então ela pede para o Ethos produzir seu índice. Nessa hora, nós vamos tornar público para ver o nível de adesão a esses índices. Com isso, vamos dar uma visibilidade para a empresa que está nesse caminho e vai contribuir para a diferenciação no mercado. A empresa que fizer este pedido, não basta declarar, ela precisará apresentar comprovações, evidências de todas as práticas. Vai ter que apresentar uma auditoria cujo relatório está sujeito a audiências públicas. Se houver questionamentos, não será aceito.

O Globo: Como é planejar uma agenda para os próximos dez anos?

Young: O mundo sabe das condicionantes da civilização para os próximos 50 anos, o jovem sabe ao que ele está mais ou menos condenado. Quando o Ethos olha para os dez anos, não é de graça. Por mais que a conjuntura possa mudar, a questão climática é a questão do século. Então o Ethos está, na verdade, alavancando a condição de ser uma plataforma empresarial para gerar diálogos transversais e criar uma coalisão de entidades. Não vamos deixar de fazer o que fazemos, talvez a prioridade é que mude um pouco. Queremos ter uma atuação mais nacional.

O Globo, 07/07/2009, Razão Social, p. 4-5

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