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Queremos criar as Políticas do Planeta

OESP, Vida, p. A23
11 de Jul de 2010

Queremos criar as Políticas do Planeta
Para embaixador francês, instituições que promovem crescimento sustentável precisam ser avaliadas

Entrevista: Brice Lalonde, ex-ministro do Meio Ambiente da França

Afra Balazina

Brice Lalonde, de 64 anos, ex-ministro do Meio Ambiente da França e embaixador para mudanças climáticas de seu país, acaba de iniciar no âmbito das Nações Unidas os preparativos para a Rio+20, que comemorará os 20 anos da Eco-92. Segundo ele, a ideia é criar na conferência de 2012 as "Políticas do Planeta". "O movimento por desenvolvimento sustentável foi ritmado por grandes conferências, como a de 1972 em Estocolmo e a Cúpula da Terra no Rio. A próxima reunião no Brasil será também importante", diz.

O que imagina que possamos alcançar em 2012, na Rio+20?

Em cada país deveremos ter um comitê que reunirá sociedade civil, governo, empresas, ONGs e cientistas para preparar a conferência. Estamos tentando inventar algo que poderíamos descrever como "Políticas do Planeta". Tentamos pensar como se o mundo fosse um grande país. Assim, vemos desigualdades, problemas de recursos e outras questões. Então, um dos principais tópicos é como podemos nos organizar para enfrentar esses problemas. Queremos tentar ir além das longas negociações internacionais. Poderemos inventar algum dia um novo modelo de produção e consumo sem que seja o de sempre ter mais bens materiais? É uma grande e complicada discussão.

O consumismo é muito presente no modo de vida americano. Isso é uma crítica aos EUA?

Mesmo dentro dos EUA há diferenças. As pessoas na Califórnia usam metade da energia se comparadas aos demais americanos. Há diversas questões a serem respondidas. Podemos viver num mundo sem jogar tanto lixo? Temos de tentar descobrir como produzir e consumir sem destruir a natureza.

E qual será o tema da Rio+20?

Desenvolvimento sustentável. Mais especificamente, o que foi feito nos últimos 20 anos em relação à Agenda 21, biodiversidade e clima. Um segundo tópico é a economia verde. E o terceiro item é sobre instituições. Temos as instituições necessárias para promover o desenvolvimento sustentável ou precisamos transformá-las, criar outras? Na Rio-92 foi criada uma comissão de desenvolvimento sustentável que se reúne a cada ano. Ela é eficiente e forte o suficiente? Precisamos avaliar.

Países em desenvolvimento estão preocupados com a tentativa de acabar com o Protocolo de Kyoto nas negociações de clima. Qual é a sua avaliação?

Nós, na França, concordamos com um segundo período de compromisso para Kyoto. Mas gostaríamos que todos fizessem algo, e não somente nós. Seria injusto apenas a Europa fazer alguma coisa. Preferíamos ter um único instrumento (que incluísse os EUA, que não ratificaram Kyoto). Mas, se o preço de ter um acordo em Cancún no fim do ano é ter uma segunda fase de Kyoto, OK.

Mas o senhor acha que será possível ter um acordo legalmente vinculante em Cancún?

É bem difícil até de entender o que significa legalmente vinculante. Porque Kyoto é, e mesmo assim alguns países não atingirão suas metas (o Canadá é o que está mais longe do objetivo). E o que vai acontecer? Acho que não vamos mandar a polícia para lá. Então, é um assunto complicado. Para mim, seria no mínimo ter cada país cumprindo a sua meta. Mas não sei se é possível ter um grande acordo completo e abrangente em Cancún.

Ambientalistas no Brasil estão preocupados com a possível alteração do Código Florestal.

Haverá as eleições presidenciais no País e creio que isso deve ser discutido durante a campanha. No ano passado estive no Brasil e vi uma grande movimento do empresariado em direção ao desenvolvimento sustentável. Houve o boicote à carne do Pará, por exemplo, o que achei muito interessante.

OESP, 11/07/2010, Vida, p. A23

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100711/not_imp579546,0.php

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