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"Quem tem amigo assim não morre em barranco"

Amazônia. org
Autor: MEIRELLES, José Carlos dos Reis
08 de Jun de 2004

"Quem tem amigo assim não morre em barranco"

por Altino Machado

O sertanista José Carlos dos Reis Meirelles trocou São Paulo e a engenharia pelos índios isolados que vivem no Acre, na fronteira do Brasil com o Peru.
Meireles, que trabalha na Funai desde 1971, atua na Frente de Proteção Etno-ambiental do Rio Envira, há 17 anos. A frente funciona como posto de observação e proteção dos povos indígenas autônomos, ou isolados.
No domingo, às 7 horas da manhã, Meirelles foi atacado a flechadas por índios de etnia desconhecida. Foi resgatado por equipe médica em helicóptero da Aeronáutica e passa bem no apartamento 220 do Hospital Santa Juliana, em Rio Branco.
Feijó é a cidade mais próxima do local onde o indigenista trabalha. Depois do ataque, ele contou que até chegou a pensar em viajar sete dias de barco, sob sol e chuva, até Feijó em busca de tratamento.
-Nessas condições, eu pensei, se chegar vivo não precisarei mais de médico. Pedi ao pessoal para fazer contato com o governador Jorge Viana, com o presidente da Funai e com o senador Tião Viana - relatou.
Leia a entrevista:
Como aconteceu o ataque?
Era 7 horas da manhã. Fui pescar num igarapé pertinho de casa, a mais ou menos 100 metros. Fui passando pela boca do igarapé, subindo o Rio Envira, e eles estavam no barranco. Claro que eu não os vi. Estava sentado no banco da canoa, olhando para o barranco. A flecha veio e me atingiu no rosto. Virei o motor da canoa para rumo do seco e saquei a flecha porque sabia que não viria apenas uma. Deu para me desviar de outras três ou quatro. Na praia, pertinho de casa, gritei pelo pessoal, que veio me apoiar. Sangrei demais. Sofri uma hemorragia monstruosa.
O que você pensou em fazer ao chegar em casa?
Pensei em baixar o rio Envira de canoa, rumo a Feijó, mas seriam pelo menos sete dias de viagem tomando sol e chuva. Nessas condições, eu pensei, se chegar vivo não precisarei mais de médico. Pedi ao pessoal para usar o rádio e fazer contato com o governador Jorge Viana, com o presidente da Funai e com o senador Tião Viana. Eles se mobilizaram e eu acabei recebendo um atendimento que acho que nem mereço. Atendimento VIP mesmo: helicóptero e equipe médica foram me retirar lá do meio do mato.
Dentre os brancos, você é o defensor mais intransigente desses povos isolados no Acre. Como explica que tenha sido atacado agora por quem você tanto defende?
Eu quero deixar bem claro que não tenho raiva nenhuma dos índios. Enquanto eles estiverem assim, flechando a gente, é sinal de que eles estão bem. Quando eles começarem a ficar bonzinhos, a entrarem em contato com a gente, vão começar a morrer. Sendo assim, prefiro eles atacando, pois é sinal de que eles estão bem. Por outro lado, sou pago para isso mesmo. Quem vai para lá, sabe, como diz o Zé Áureo, que não vai encontrar a Xuxa com as paquitas dançando na praia.
Eles não identificam você como um aliado?
Aquela região ali é muito pródiga em índios isolados. Existem três grupos diferentes de índios isolados. Existem muitos índios. Você sabe que onde existe muita gente, onde existe 100 ou 200 pessoas, existem sempre as pessoas malvadas. No meio da gente não existem uns cabras que gostam de uma confusão? Com os índios isolados acontece o mesmo.
Você ainda chegou a avistá-los?
Não deu para ver nenhum. Estavam todos escondidos no barranco. Mas tudo leva a crer que não são os maskos, em razão das flechas serem diferentes. Acho que se trata do povo isolado que mora do outro lado do rio ou então são alguns jaminawas lá do Peru, que já têm um contato por lá e vêm aqui dar uma de brabo. As flechas têm algumas cordinhas de nilon, de saco de fibra. Pode ser que eles tenham roubado, mas em todo caso fica a dúvida. Mas eu creio que tenham sido mesmo os índios isolados dali.
As flechas, evidentemente, não estavam envenenadas.
Acho que não se não eu não estaria por aqui contanto a história. Felizmente. Mas uma taquarada daquela não precisa de veneno. Eu tive muita sorte, segundo o médico. Se a flecha tivesse atingido um pouco mais acima, teria entrado no meu olho e destruído o cérebro. Neste caso, eu teria morrido instantaneamente. Mas se a flecha tivesse atingido um dedinho mais abaixo, teria infeccionado minha carótida e minha medula óssea. Neste caso, agora eu estaria paraplégico ou morto. Foi realmente muita sorte.
Depois dessa você vai reavaliar sua permanência na Frente de Proteção Etno-ambiental do Rio Envira?
Não. Logo, logo eu quero voltar para lá, se Deus quiser e a polícia deixar. Vou, sim. Por que não? É o meu trabalho, ué. Estou lá há 15 anos, mas acho que é pouco tempo ainda. A gente deve ser persistente.
Não seria melhor você voltar para a cidade?
Eu não me acostumaria mais numa cidade.
Que tal assumir um posto administrativo na Funai?
Não! Pelo amor de Deus, ninguém queira fazer isso comigo. Me dê logo um tiro em vez de uma flechada. Um cargo administrativo para mim seria um tiro de misericórdia no meio da minha testa. Não quero isso para mim, não. Vou ficar lá, pois a minha praia é lá. Acho que cada um tem que se posicionar na praia que sabe tomar sol. Não adiantaria eu ser chefe de alguma coisa se eu não tenho vontade nem pique para isso. Quando a gente faz o que gosta, faz bem feito.
Em todos esses anos não é a primeira vez que você vive uma situação tão dramática.
Um ataque desses não é uma coisa que acontece todo dia. Mas é uma coisa que acontece. É impossível evitar ser flechado por um índio que esteja na beira do rio. Vai botar a polícia do Brasil inteiro a cada metro? Vou andar de escafandro? Adianta usar colete? Não. A flecha atingiu a minha cara e a ponta saiu na nuca. Algumas coisas são inevitáveis e fazem parte do jogo, do trabalho. Como a gente não quer contatá-los, deixa eles assim mesmo.
O ataque ocorreu às 7 horas da manhã de domingo. Quando aconteceu o resgate?
O helicóptero chegou lá às 5h40, quase 18 horas. Como você vai publicar nossa conversa na Internet, quero aproveitar para agradecer o presidente da Funai, o pessoal do Departamento de Índios Isolados da Funai em Rio Branco, mas especialmente ao Edegard de Deus, secretário de Meio Ambiente do Acre, ao governador Jorge Viana e ao senador Tião Viana. O senador movimentou até o Ministério da Defesa para conseguir o helicóptero que me retirou do mato. Ele telefonou para mim. Imagina! Um senador da República telefonou para um peão.
Mas você merece, Meirelles. Desde que você chegou ao Acre, a sua vida tem sido dedicada em defesa dos índios.
Não sei se eu mereço, mas acho que tenho que agradecer, né? E dizer que quem tem amigo assim não morre no barranco, não.

Altino Machado é colaborador do site Amazonia.org.br.

Amazônia. org, 08/06/2004

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