OESP, The Wall Street Journal, p. B10
Autor: STECKLOW, Steve; WHITE, Erin
08 de Jun de 2004
Quem se beneficia do comércio justo´?
Varejistas ganham com produtos certificados de países pobres
POR STEVE STECKLOW
E ERIN WHITE
THE WALL STREET JOURNAL
Num supermercado nos arredores de Boston da rede americana Whole Foods Market, a prateleira de café estava recentemente forrada com folhetos prometendo doar 5% das vendas para os produtores. As etiquetas proclamavam que os grãos foram "comprados de acordo com padrões internacionais de comércio justo". Os panfletos perguntavam: "0 seu café é justo com os produtores?"
Esses materiais refletem uma campanha internacional que cresce rápido e propõe que se pague a produtores rurais de países pobres mais do que o preço de mercado para commodities como café, bananas e cacau. 0 dinheiro extra ajuda milhares de produtores a financial; educação, cuidados com a saúde e projetos de treinamento, entre outras coisas. 0 Brasil é um dos países com produtores certificados de comércio justo.
Mas à medida que a onda do "comércio justo" pega nos Estados Unidos, a experiência na Europa mostra que os maiores ganhadores nem sempre são os produtores rurais - podem em vez disso ser grandes varejistas que às vezes cobram preços bem mais altos em produtos de comércio justo enquanto se promovem como bons cidadãos corporativos. Eles conseguem fazer isso porque os consumidores normalmente recebem pouca ou nenhuma informação sobre quanto do preço de um produto é repassado aos produtores. No caso da Whole Foods, a promessa de 5% não se refere ao preço de varejo, como os consumidores podem presumir, mas a uma quantia diferente que a empresa paga a sua divisão de café.
A Sainsbury's, rede britânica de supermercados da J Sainsbury PLC, já vendeu bananas com selo de comércio justo por mais do quádruplo do preço
de bananas convencionais - e mais de 16 vezes o que os produtores recebem. A Tesco PLC, maior cadeia britânica de supermercados, recentemente cobrava 1,88 libra esterlina (US$ 3,46) a mais por libra de café de comércio justo, enquanto o produtor recebe cerca de 44 centavos de libra acima do preço do comércio internacional. (Uma libra equivale a 453,6 gramas.)
"Os supermercados estão tirando vantagem do selo para ganhar mais lucro porque eles sabem que os consumidores estão dispostos a pagar um pouco mais porque é comércio justo", diz Emily Dardaine, gerente de produtos de fruta da Fairtrade Labelling Organizations International, ou FLO, uma federação de grupos de comércio justo com sede na Alemanha.
As duas redes de supermercados dizem que não estão explorando produtos de comércio justo para tirar vantagem.
No ano passado, as vendas internacionais de produtos de comércio justo - desde castanhas até vinho - superaram US$ 700 milhões. As vendas em alta na Europa chamaram a atenção de empresas americanas, entre elas Starbucks Corp., Procter & Gamble Co. e Dunkin' Donuts, uma divisão da britânica Allied Domecq PLC, que começaram a oferecer café de comércio justo.
A história dos produtos de comércio justo começou há 50 anos, quando missionários conseguiram que igrejas de países desenvolvidos vendessem artesanatos africanos e devolvessem o lucro às vilas. No fim dos anos 60 e nos anos 70, espalharam-se na Europa e nos EUA as "lojas mundiais", que davam a vendedores de países em desenvolvimento acesso aos mercados ricos.
Em 1988, uma fundação holandesa lançou um novo selo para o café vendido no varejo. Para usar o selo, as empresas tinham de pagar um preço mínimo pelo café que garantisse aos produtores um lucro - junto com um pequeno ágio para financiar projetos de desenvolvimento em suas localidades.
Por exemplo, o café arábica em grão atualmente é vendi por cerca de US$ 0,82 a libra
no mercado internacional. 0 preço mínimo do comércio justo, que não mudou desde 1988, é US$ 1,26. Dean Cycon, diretor-presidente da Dean's Beans, uma torrefação de café do Estado americano de Massachusetts, diz que geralmente custa cerca de US$ 0,60 por libra para produzir café.
Para melhorar a certificação de produtos de comércio justo, a FLO foi criada em 1997.Trabalhando com os grupos dos vários países, ela certifica produtores de produtos de comércio justo, estabelece preços mínimos para os produtos, verifica que os produtos com selo de comércio justo realmente beneficiam os produtores e trabalha para lançar um selo universal de comércio justo. Enquanto isso, as 18 afiliadas da FLO na América do Norte, Europa e Japão licenciam empresas que querem colocar selos em seus produtos.
Essas organizações não sugerem o que os varejistas deveriam cobrar por produtos de comércio justo, algo que elas dizem sei ilegal. Alguns críticos sugerem que os grupos temem que se eles criticassem os varejistas por causa de preço, estes parariam, de vender os produtos - acusação que os grupos negam.
OESP, 08/06/2004, The Wall Street Journal, p.B10
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.