O Globo, Economia Verde, p. 34
Autor: VIEIRA, Agostinho
14 de Nov de 2013
Queimando gordura
Agostinho Vieira
oglobo.globo.com/blogs/economiaverde
Quando, finalmente, ela consegue chegar aos 80 kg, recebe os parabéns, tapinhas nas costas e uma notícia: o que passou, passou. A nova meta agora é alcançar os 60 kg. Guardadas as devidas proporções, esse tem sido um dos pesadelos dos negociadores brasileiros que participam das conferências mundiais sobre mudanças climáticas.
Em 2009, em Copenhague, o Brasil assumiu o compromisso voluntário de reduzir as suas emissões de gases de efeito estufa em alguma coisa entre 36,1% e 38,9%. Tomando como base as projeções do que estaria sendo emitido em 2020, se nada fosse feito. Ou seja, mantidos os níveis de emissão de 2009, chegaríamos ao final da década com mais ou menos três bilhões de toneladas de carbono equivalente (tCO²e) sendo lançadas anualmente.
Nossa meta, portanto, é manter as emissões comportadas, até 2020, em um nível que não supere 2 bilhões de tCO²e. Hoje, de acordo com o Sistema de Estimativas de emissões (SEEG), estamos com 1,48 bilhão de tCO²e. Resumindo, o objetivo deve ser alcançado, até com certa facilidade. E é aí que entra a metáfora da dieta. Em 2015, em Paris, representantes de 200 países vão se reunir para estabelecer novas metas obrigatórias de redução de emissões que devem valer a partir de 2020. Todos deverão participar, sem exceção, incluindo EUA, China e Brasil.
A pergunta passa a ser: como faremos para perder mais 20 kg? Como continuar reduzindo emissões após 2020 sem comprometer o crescimento do país? Até agora, o que fizemos foi cortar gordura. Já fomos responsáveis por 6% das emissões mundiais de carbono, hoje respondemos por menos de 3%. Segundo os dados oficiais, nossas emissões caíram cerca de 30% entre 2005 e 2010, puxadas pela redução no desmatamento da Amazônia. O mesmo que, este ano, deve apresentar um crescimento de 20%.
Apesar desta subida, são poucos os que acreditam que estejamos diante de uma volta sem controle da destruição da floresta. Com o aumento, fecharemos o ano com 5.500 km² de área desmatada. Acima dos 4.571 km² do ano passado, mas muito abaixo dos 27 mil km² de 2004. Parece mais um ponto fora da curva. Fruto da especulação imobiliária e da ação de grileiros. O distrito de Castelo dos Sonhos, no sudoeste do Pará, é um bom exemplo disso. Nada que não possa ser combatido com uma ação firme e coordenada das polícias e do Ibama.
Na verdade, a tendência é que o desmatamento continue caindo, com a meta de 3.900 km² (redução de 80%) sendo alcançada em dois ou três anos. Feito isso, começa o grande desafio. As principais fontes de emissão do país são a agropecuária e a energia, setores que têm um impacto muito maior no PIB. Entre 1990 e 2012, as emissões da energia cresceram 126%. Por conta, principalmente, do transporte. Só nos últimos três anos, o consumo de álcool, menos poluente, caiu 30%, já o de gasolina subiu 34%.
Enquanto isso, no mesmo período de 22 anos, a agropecuária passou de 303 milhões de tCO²e para 440,5 milhões de tCO²e, aumento de 45%. Puxada pelo metano liberado nos arrotos e gases do gado, pelo cultivo do arroz e pela fertilização do solo. São mais de 200 milhões de cabeças de gado espalhadas pelo país, com índices baixíssimos de produtividade.
Cortar as emissões da energia e da agropecuária não é impossível, são muitas as opções. Mas as resistências serão maiores. Por isso, o governo vem defendendo nos fóruns internacionais duas propostas que podem facilitar essa tarefa. A primeira sugere a criação de um mecanismo que calcule as emissões históricas dos países, o que reduziria o nosso passivo e aumentaria o dos países desenvolvidos.
A segunda fala em antecipar e ampliar as metas de redução. Em vez de esperar até 2020, os cortes seriam feitos imediatamente. E mais: os esforços de hoje seriam contabilizados nos cálculos das metas pós-2020. Com isso, aparecemos bem na foto diplomática, sugerindo cortes maiores e imediatos. E, ao mesmo tempo, incluímos a gordura que estamos perdendo agora no cálculo total da dieta.
A ideia de determinar as emissões históricas dificilmente será aprovada. Porque os países ricos não vão deixar e porque é complexa. As emissões francesas na Segunda Guerra são da França ou da Alemanha, que ocupava o território? Já a segunda proposta tem chances maiores de seguir adiante. Ela é boa e oportuna, mas não resolverá o problema principal. Alguma hora será preciso enfrentar, de verdade, o desafio que é construir uma economia de baixo carbono. l
126 %
Foi o tamanho do crescimento das emissões de gases de efeito estufa do setor de energia, entre 1990 e 2012, no Brasil. Puxado, principalmente, pelo transporte. Nos últimos três anos, o consumo de álcool, menos poluente, caiu 30%, já o de gasolina subiu 34%.
E-mail: economiaverde@oglobo.com.br
O Globo, 14/11/2013, Economia Verde, p. 34
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