OESP, Internacional, p. A18
Autor: NAÍM, Moisés
01 de Jun de 2014
Quatro graus a mais
Moisés Naím
Para você, um aumento de 4oC na temperatura não teria maiores consequências. Mas, para o planeta, seria uma catástrofe. As evidências indicam que, se nada fizermos, chegaremos a isso. Segundo Nicholas Stern, um dos mais respeitados estudiosos do assunto, "a menos que sejam implementadas medidas rigorosas, há uma grande probabilidade de que, dentro de um século, o mundo estará em meia 4oC mais quente do que no fim do século 19 (antes do início do processo de industrialização).
De acordo com Stern, desde há 10 milhões de anos o planeta não tem temperaturas médias 4oC mais altas das que predominavam no mundo pré-industrial. Como o homo sapiens está há apenas 250 mil anos na Terra, viver em um mundo com 4oC a mais é uma experiência que os humanos não têm.
De fato, nos últimos 8 mil anos, a temperatura do planeta tem sido estável, oscilando apenas 1oC a 1,5oC. Essa estabilidade tornou possível a agricultura e o sedentarismo. Com base numa seleção dos melhores estudos, Stern nos oferece um resumo aterrorizador de como seria um mundo 4oC mais quente. A Europa Meridional se assemelharia ao Saara. Na África, o deserto se estenderia até o sul, com efeitos devastadores. A neve desapareceria do Himalaia, alterando o leito e o volume de água de rios dos quais mais de 2 bilhões de pessoas dependem. O mesmo ocorreria nos Andes e nas Montanhas Rochosas, mudando a disponibilidade de água nas Américas. As monções na Índia, que hoje são de grande ajuda para a atividade agrícola de centenas de milhões de pessoas, mudariam radicalmente, levando a deslocamentos em massa de populações e forçando drásticas mudanças nos sistemas de produção e consumo de cereais, grãos e hortaliças.
Florestas como a amazônica serão afetadas pela desertificação, com o desaparecimento de milhares de espécies. Eventos climáticos extremos como furacões, tempestades e ciclones serão mais frequentes. O nível do mar aumentará: quando há 3 milhões de anos a temperatura média do planeta era 3oC mais quente do que no século 19, o nível do mar era 20 metros mais alto do que é hoje. Um aumento de dois metros acima dos níveis atuais provocaria o deslocamento de 200 milhões de pessoas, o que deve ocorrer antes do fim deste século. É provável que sua reação, ao ler o que afirmamos, esteja inserida numa destas três categorias:
A) Negação e ceticismo. O aquecimento global não vem ocorrendo, é um exagero. As mudanças de temperatura não são provocadas pela atividade humana, mas flutuações normais. Também há consequências positivas, que compensam os efeitos indesejáveis.
B) Ocorrerá daqui a muito tempo e não estarei aqui para sofrer as consequências.
C) Fatalismo e impotência. Não há nada que eu possa fazer. As tendências ou já são incontroláveis ou, para revertê-las, são necessárias medidas que não serão tomadas. Os governos não agem.
A primeira reação ignora o fato de que 97% dos artigos científicos concluem que o planeta vem aquecendo em razão da atividade humana e ignora que há 140 fundações que recebem US$ 900 milhões por ano de setores interessados em fomentar dúvidas sobre a mudança climática.
A segunda não leva em conta que o processo acelerou, que os impactos negativos já vêm ocorrendo e agravaram num período de tempo relativamente curto. Para a maioria dos cientistas, um aumento de 2oC já produziria mudanças catastróficas. Se as tendências não mudarem, isto ocorreria em 2036.
Finalmente, a crença de que já não há nada que possamos fazer é uma garantia de que nada será feito. Embora isto esteja certo, observar passivamente como o planeta avança na direção da catástrofe é uma atitude intolerável. Embora não seja fácil saber como agir no plano individual , existe algo muito importante que é muito fácil de se fazer: não permanecer indiferente diante da ameaça. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT, DE WASHINGTON .
OESP, 01/06/2014, Internacional, p. A18
http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,quatro-graus-a-mais-…
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