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Quatro da mesma família mortos em ocupação

O Globo, O País, p. 12
22 de Jun de 2006

Quatro da mesma família mortos em ocupação

Ismael Machado

A Polícia Civil do Pará já tem cinco suspeitos da morte de quatro pessoas de uma mesma família na madrugada de anteontem na área de ocupação de Lago Verde, no Km 60 da Rodovia Transcametá, entre os municípios de Tucuruí e Baião. Segundo a polícia de Tucuruí, responsável pela investigação, o líder comunitário Raimundo Nonato Muniz, de 42 anos, pode ter sido morto com a família por denunciar a extração de madeira ilegal numa reserva florestal próxima à área ocupada por famílias de pequenos agricultores ligados à Federação de Agricultores (Fetagri).
Os policiais prenderam José Edmilson Lopes Lobo por suspeita de participação na chacina. Ele teria sido acusado por um dos sobreviventes. Além dele, três outras pessoas foram detidas, mas a polícia ainda não tem certeza da participação delas no crime.
Mulher e dois filhos são mortos com tiros na cabeça
Além do líder da área ocupada, foram assassinados sua mulher, Isaura Alves Muniz, de 39 anos, e os filhos Tatiane Alves Muniz, de 20, e Tiago Alves Muniz, de 18. O crime ocorreu de madrugada. O local é de difícil acesso, o que retardou o trabalho policial. Os corpos só chegaram a Tucuruí 18 horas depois.
- Tivemos dificuldades de chegar ao local e encontrar testemunhas - disse o delegado de Tucuruí, Paulo Renato Pinto.
De acordo com as investigações iniciais da polícia, cinco homens armados com revólveres e espingardas de grosso calibre chegaram na área por volta das 4h de terça-feira. Segundo a versão dada à polícia, eles bateram nas paredes de madeira da casa, ordenando que a família saísse e se deitasse no chão.
Assim que a família saiu de casa e deitou no chão, os pistoleiros encostaram as armas na cabeça das pessoas e atiraram. Cada um foi morto com um tiro na cabeça. Raimundo ainda levou um tiro no peito.
No momento da chacina havia sete pessoas na casa. Segundo a polícia, três delas tiveram as vidas poupadas: um bebê de 6 meses, uma menina de 10 anos e um adolescente de 15. A menina e o adolescente serão encaminhados ao Serviço de Proteção a Testemunhas, em Belém.
Sindicatos e MST protestam contra mortes no campo
Depois de matar a família, os assassinos incendiaram a casa. Os corpos foram necropsiados no Hospital Regional de Tucuruí. Um filho adolescente do casal morava e trabalhava em Tucuruí, mas fora passar o fim de semana com os pais.
Um provável motivo do crime é a proximidade da ocupação de uma reserva florestal. Muniz já havia denunciado ao Ibama que madeira nobre estava sendo extraída ilegalmente da reserva, o que pode ter provocado a ira dos denunciados. Segundo o Incra, Muniz já havia tentado por diversas vezes regularizar a área ocupada com projetos de assentamento, mesmo sabendo que legalmente isso não seria possível.
O crime é mais um no Pará motivado pela disputa de terras na região. Nos últimos meses, vários municípios paraenses foram palco de protestos de sindicatos de trabalhadores rurais e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que cobram do governo federal a desapropriação de fazendas. A área ocupada pelas famílias lideradas por Raimundo Muniz é de jurisdição do Instituto de Terras do Pará (Iterpa).
- É uma área que fica às margens do Rio Tocantins e foge da jurisdição do Incra - disse a executora do órgão em Tucuruí, Fátima Moraes. Segundo ela, é impossível para o Incra regularizar as terras, que eram devolutas da União. A ocupação faz divisa com o projeto de assentamento Pirassununga e é próxima a uma área quilombola.

O Globo, 22/06/2006, O País, p. 12

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