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Quando os mortos não são os nossos

O Popular-Goiânia-GO
Autor: Manuel Ferreira Lima Filho
19 de set de 2001

Recentemente, tem-se ouvido um barulho ecoando das margens do Araguaia, da cidade de Aruanã (GO), a respeito de que os indígenas que moram na aldeia carajá, hoje centro da cidade, desde o início do século 20, estão ameaçado, pelo direito constitucional que lhes garante reivindicar oficialmente suas terras tradicionais, o cotidiano de veranistas e moradores, além dos interesses da prefeitura e do governo estadual.
A aldeia de Aruan㠖 Buridina Mahãdu (na língua indígena) – pertence ao grande grupo carajá, que ocupa o território do Araguaia há pelo menos três séculos e meio, configurando um complexo sistema cultural que tem no fundo do rio a aldeia mitológica de suas origens. Nas praias, nos lagos, no Rio Araguaia e nos seus barrancos, os carajás exploram secularmente sítios de moradia, locais de pesca, ritos, economia e lugares especiais para enterrar seus mortos. Os carajás de Aruanã, que viram a cidade crescer em torno de seu território, de exóticos e de atração turística passaram a ser uma pedra no sapato da cidade.
Tudo começou quando, motivados por outras lideranças indígenas carajás que estiveram em Goiânia em 1991 para discutir a desocupação da Ilha do Bananal, os carajás de Aruanã entraram com um pedido na Procuradoria-Geral da República em Goiás a fim de que a Funai também iniciasse com eles o processo de rever suas terras. Esse pedido foi respaldado por um laudo antropológico meu, que depois de morar seis meses com os carajás da Aldeia Santa Isabel do Morro, na Ilha do Bananal (1989-1990), e de defender uma dissertação de mestrado sobre um rito de iniciação masculina do referido grupo, coordenava um projeto de extensão na aldeia de Aruanã desenvolvido pelo IGPA da Universidade Católica de Goiás.
Em 1992 e em 1993, fui convidado pela Funai para participar com outros profissionais e outros dois antropólogos – Eliana Maria Granado e Noraldino Cruvinel –, ambos da mesma instituição, para compor o grupo técnico que faria um relatório que apontasse os limites das terras indígenas dos carajás de Aruanã. Os critérios utilizados pelos técnicos, inclusive os do meu primeiro laudo antropológico, foram expostos com clareza nos relatórios produzidos, tais como pesquisa de campo com os indígenas, os pioneiros e personalidades políticas da cidade, sertanistas, como Acary de Passos Oliveira, além de inúmeras documentações históricas.
Na pesquisa de campo, os indígenas foram unânimes em estabelecer os limites da aldeia de moradia, incluindo um antigo cemitério, local de grande importância cultural para eles, uma vez que a prefeitura, nos anos 70, durante uma fase da expansão da cidade, destruiu o cemitério e jogou as ossadas dos antepassados mortos no rio. O mesmo cemitério já havia sido alvo de uma pesquisa em 1975, quando a arqueóloga Irmhild Wust registrou o local, assim como o sítio arqueológico GO-JU-41, que hoje faz parte do Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos do Iphan, como bem cultural patrimonial brasileiro e protegido por legislação própria.
O relatório final (1993) indicava também os limites de uma segunda área de plantio, na vazante do rio, no lado do Mato Grosso, e uma terceira área de plantio permanente e também de coleta de matéria-prima para artesanato (cestaria e flechas). Embora as identificadas já estivessem em pleno processo de demarcação, com portarias declaratórias (1996), a prefeitura e o governo estadual começam a construção, em 1998, de uma estação de tratamento de esgoto/água na área considerada indígena.
O processo de demarcação pela Funai prevê indenização das edificações de boa-fé, como é o caso dos limites indicados pelos carajás que contêm mansões, escola estadual, lotes vagos e casas de moradores locais. Apesar de tais construções, durante a pesquisa de campo dos antropólogos do grupo técnico, os carajás jamais abriram mão do local do antigo cemitério indígena.
Já se passaram nove anos desde a reivindicação primeira dos carajás e o barulho que se tem ouvido do Araguaia pode querer informar ao público goiano e nacional que tal processo só agora teve início.
É interessante ressaltar que os carajás são utilizados historicamente como ícones da construção da identidade goiana, com suas famosas bonecas de cerâmica, dando nomes a hotéis, lojas comerciais e, ainda, emprestando o nome de um importante ritual do grupo (Festa dos Aruanãs) para renomear a cidade de Aruanã em 1950, que antes se chama Leopoldina. Mas ao migrarem da posição de exóticos e atrativos turísticos e de inspiração para a construção ideológica da identidade dos goianos, no melhor estilo do bom selvagem, e por reivindicarem os seus direitos constitucionais, os carajás de Aruanã passam a incomodar, refletindo a imensa dificuldade que nos ocidentais (goianos!) temos de lidar com a diferença, com os indígenas, cuja história nos informa sobre um longo e doloroso processo de contato com a sociedade nacional.
Esse processo de contato nos revela explicitamente os nossos defeitos sociais. Temos uma dificuldade enorme de lidar com nosso etnocentrismo, a favor de um desenvolvimento social e turístico e de aceitar o lugar do outro, o dos indígenas de Aruanã, por exemplo, como membros importantes de nossa verdadeira identidade nacional. O bandeirante, o Anhanguera, ainda teima em domesticar os indígenas de Goiás! E não são apenas os mortos carajás que são jogados no Araguaia, mas a dignidade e a história, que mesmo negando, são de todos nós.
Manuel Ferreira Lima Filho, doutor em Antropologia pela UnB e visiting scholar da Universidade de Harvard, é diretor do Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia da

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