O Globo, O País, p. 16
25 de Jun de 2010
Qual é a grande solução para o agronegócio?
Proposta de Marina de ampliar certificação de produtos não é prioridade, dizem produtores, especialistas e ambientalistas
Henrique Gomes Batista
Ao afirmar esta semana que é uma "grande solução para o agronegócio", a presidenciável Marina Silva (PV) tentou se aproximar dos produtores rurais. Mas sua proposta de certificar ambientalmente produtos para exportação, como o etanol, não empolga o setor. Até ativistas ambientais afirmam que há outras prioridades para o campo. Os problemas, explicam especialistas, envolvem questões estruturais, como câmbio valorizado, barreiras sanitárias e até a falta de mapeamento das propriedades rurais do país.
Na terça-feira, em entrevista à Globonews, a candidata do PV defendeu que a questão ambiental pode estar aliada ao aumento de produção agropecuária, que ocorreria com tecnologia, sem aumentar a área desmatada. Ela afirmou que o setor tende a ganhar respeitabilidade e mercado com o respeito à preservação.
Apesar de concordar com a certificação, Pedro de Camargo Neto, presidente da Abipecs (associação que reúne exportadores de carne suína), disse que a agropecuária precisa enfrentar problemas mais urgentes:
- Grande parte de nossos produtos é barrada no exterior, por barreiras sanitárias. Além disso, a falta de logística e o câmbio tiram nossa competitividade. É como uma corrida de obstáculos. A certificação ambiental vai aparecer lá na frente, mas antes temos que vencer as primeiras barreiras - disse.
O ex-ministro da Agricultura e atual coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV) de São Paulo, Roberto Rodrigues, acredita que falta visão estratégica dos governantes. Segundo ele, o agronegócio avançou até agora muito mais devido ao esforço da iniciativa privada do que aos planos do governo. Rodrigues aposta na ampliação da infraestrutura logística e de pesquisa e desenvolvimento:
- A produção de grãos do país cresceu 147% nos últimos 20 anos com um aumento da área cultivada de apenas 25%.
Ele disse que 80% do aumento da produção no país serão decorrentes da alta de produtividade, e apenas 20% serão resultados de novas áreas - que não virão de regiões desmatadas. Para Rodrigues, 40 milhões de hectares de pastagens hoje degradados se somarão aos 72 milhões de hectares da agricultura.
Caiado: "Ela não explica quem vai pagar a conta"
Paulo Adário, do Greenpeace, afirmou que a proposta de Marina de certificação é boa, mas destacou que a prioridade é cadastrar as propriedades rurais.
- A certificação é importante, mas antes o governo tem de fazer a lição de casa e cadastrar as fazendas, para saber quais são legais e ver a qualidade da mão de obra do campo.
Já o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), representante da bancada ruralista e opositor de Marina, disse que a proposta dela não encontra respaldo na realidade:
- Todos aplaudimos a certificação e o georreferenciamento das propriedades para análise das reservas florestais.
O que ela não explica é quem vai pagar a conta. O produtor terá que arcar com mais estes custos, quando o benefício será para toda a população? - questionou, defendendo que a conta seja paga com recursos orçamentários.
A importância do setor
Embora represente apenas 6,1% da economia nacional, a agropecuária é fundamental para a balança comercial brasileira. Se não fosse a exportação de alimentos, o Brasil teria no ano passado um déficit comercial de cerca de US$ 30 bilhões, agravando fortemente a situação das contas externas nacionais, que começam a preocupar economistas. Além disso, o agronegócio concentra um grande número de empresas globais verde-amarelas, além de ser um grande empregador do país.
A importância também é mundial. O ex-ministro Roberto Rodrigues, da FGV, diz que a FAO (sigla em inglês para Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) e a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) divulgaram semana passada uma expectativa de que a produção mundial de alimentos cresça 20% em dez anos.
Na União Europeia, a alta será de 4%; na Austrália, de 7%; nos Estados Unidos e Canadá, entre 10% e 15%. No grupo de países como Ucrânia, Índia, China e Rússia, crescerá entre 22% e 28%. Já a previsão para a produção brasileira é de crescimento de 40%.
O Globo, 25/06/2010, O País, p. 16
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