O Globo, Opiniao, p.6
29 de Nov de 2005
Quadro negro
A conferência de Montreal sobre mudanças no clima foi aberta, ontem, em meio a uma sucessão de informações que chegam a ser alarmantes sobre o aquecimento global e seus efeitos.
Quatro tempestades tropicais já se formaram no Atlântico depois de esgotada a cota de nomes para este ano, tendo sido por isso batizadas com as primeiras letras do alfabeto grego é um recorde histórico. Igualmente sem precedentes foi a temperatura do mês passado, o outubro mais quente já registrado. Acrescente-se à lista o mais intenso dos furacões, o Wilma, o rápido encolhimento da calota polar no Ártico e as pesquisas científicas que revelaram que nos últimos 650 mil anos o teor de dióxido de carbono na atmosfera nunca foi tão alto quanto hoje e não restará mais lugar para qualquer dúvida sobre a necessidade de se adotar uma estratégia mundial urgente para enfrentar o problema. Ou dotar de algum sentido de urgência a reação até agora preguiçosa dos governos.
Os seis anos que se passaram desde que o Protocolo de Kioto foi aprovado até que ele entrou em vigor, ganhando o título de tratado, em 2004, são característicos dessa lentidão. Assim se forma um agudo contraste com a forma acelerada em que se fazem sentir conseqüências dramáticas do efeito estufa, como o desaparecimento de ilhas no Pacífico, devido à elevação do nível do oceano, que agora é uma ameaça aparentemente irreversível à existência de todo um país o pequenino Tuvalu, composto por um punhado de atóis.
De positivo tem-se o virtual fim do ceticismo a respeito da própria noção do aquecimento global, que se tornou insustentável face ao acúmulo de provas científicas. Mas, no lado negativo, sobressai a rejeição do Protocolo de Kioto pelo governo Bush, sendo os Estados Unidos o maior de longe emissor de gases do efeito estufa.
Estender o programa de contenção das emissões para depois de 2012, quando termina a validade de Kioto, é o objetivo formal da conferência, mas não será fácil estabelecer planos eficazes sem a adesão dos americanos. Talvez se possa esperar do encontro, ao menos, a conscientização universal da seriedade do problema.
O Globo, 29/11/2005, p. 6
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